Formados em Paris em 1993 pelas mãos de Thomas Bangalter e Guy-Manuel Homem-Christo, os Daft Punk são um duo de house francês que, ao longo dos últimos 20 anos, rapidamente se tornou num dos nomes mais sonantes da electronica mundial, em grande parte devido aos seminais Homework (1997) e Discovery (2001) e aos ambiciosos conceitos que associam à sua música. Depois de 8 anos de “jejum” de originais, iniciado após a morna recepção de Human After All (2005), a dupla decidiu voltar aos lançamentos em 2013; Random Access Memories, quarto LP do projecto, foi lançado a 17 de Maio pela Columbia Records.

Falar de Random Access Memories sem abordar a questão do hype gerado à sua volta, em grande parte causado pelo feroz marketing que o precedeu e pelos anseios dos fãs, seria um erro e desconsideraria o estatuto de álbum mais esperado de 2013 de que o quarto LP dos Daft Punk granjeou. Ainda assim, para não me alongar muito neste tópico, devo dizer que o hype, como quase todas as coisas da vida, é bastante prejudicial quando aplicado em demasia, e Random Access Memories é a enésima prova dessa máxima.

Não quero com isto dizer que o quarto disco de originais do duo francês seja mau; na verdade, Random Access Memories conta-se entre os meus álbuns favoritos do ano. Contudo, a verdade é que, tendo em conta as expectativas que o rol estelar de convidados gerou em mim (com Nile Rodgers, Panda BearPharrell e Giorgio Moroder à cabeça), tudo fazia indicar que este seria um registo capaz de curar o cancro e o pé-de-atleta, algo que, infelizmente, não se veio a confirmar após o tão esperado leak lançamento.

Em termos conceptuais, e seguindo a “linhagem” habitual dos últimos registos dos Daft Punk, Random Access Memories oferece-nos uma proposta ousada e rica em simbolismos, desta vez virada para uma “reimaginação” da música que tem povoado a vida de Bangalter e Homem-Christo. O paralelismo com Discovery (álbum focado numa espécie de remake dos sons da infância da dupla) é mais que evidente, mas neste disco a abordagem está mais centrada, segundo o que as letras do disco nos vão indicando, numa injecção de vida, humanidade e autenticidade na música de dança contemporânea, levada a cabo, de forma irónica, pelos “robôs” Bangalter e Homem-Christo.

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Esta temática, aliada a uma estética orgânica e vívida e a uma produção “live in the studio”, livre de samples e virada para as guitarras brilhantes, os sintetizadores analógicos e espaciais e os vocoders robóticos, tem como resultado uma sonoridade extremamente catchy, bem mais próxima do funk e disco sound dos anos 70 e 80 (com os Chic de Nile Rodgers e o trabalho de produção de Giorgio Moroder como principais referências) do que do acid e progressive house que tem sido habitual nas obras dos Daft Punk. E é precisamente essa audácia de explorar caminhos diferentes do comum, combinada com as magníficas colaborações apresentadas, que faz com que Random Access Memories atinja um nível de qualidade notável.

Porém, apesar de todo o brilho que envolve o disco e que faz dela uma bela obra, a verdade é que o quarto registo dos Daft Punk não está imune a defeitos pontuais. O mais evidente, na minha opinião, está relacionado com a ordem das canções, que por vezes dá a sensação de estar trocada e que faz com que o álbum não flua de uma forma lógica, progredindo de uma maneira contra-intuitiva e nociva para a imersão do ouvinte. Isto, juntamente com um certo desequilíbrio na qualidade das músicas, faz com que Random Access Memories fique aquém da perfeição.

Quanto a destaques individuais deste LP, sublinho a monumental Giorgio by Moroder, a lânguida Instant Crush, a sensual Lose Yourself to Dance, a viciante Get Lucky e a hipnótica Doin’ it Right como as melhores peças de Random Access Memories. No lado oposto do espectro, Within, Touch, Beyond e Motherboard surgem, no meu entender, como as canções mais desinteressantes (e desnecessárias) deste registo.

Resumindo, com Random Access Memories os Daft Punk voltam a surpreender, invertendo por completo todas as ideias que poderíamos ter a priori sobre a sua sonoridade. Chutando a música “computadorizada” e os samples para um canto, o quarto disco do duo francês traz uma saudosista aposta no mundo analógico e orgânico, o que lhe confere uma palpabilidade muito difícil de atingir na electronica dos dias de hoje. É certo que fica aquém das (enormes) expectativas que o antecederam e que está bem longe do nível de Discovery e Homework. Contudo, apesar de não se confirmarem as suas propriedades milagrosas, a verdade é que Random Access Memories consegue garantir, com a sua qualidade, um lugar bem elevado nas listas de final de ano. Só nos resta esperar que não sejam necessários 8 anos para lhe encontrar um sucessor.

Nota final: 8.5/10

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945