Uma família peculiar, uma terra imaginária e uma profecia centenária são os ingredientes-base que dão forma a este Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez. Com uma escrita fluida e coerente, sempre cativante, o autor leva-nos numa viagem quase sem fôlego por gerações e gerações Buendía, com os seus romances, traições, loucuras, adultérios e incestos, entre momentos de pura felicidade a tragédias incontornáveis. E somos confrontados com uma espiral de sensações e reflexões sobre a condição humana e as escolhas que fazemos ao longo das nossas vidas.

Os Buendía-Iguarán começam por ser José Arcadio e Úrsula, os primos que casam e dão início a uma estirpe de sete gerações, qual delas a mais interessante e característica. Depois seguimos tempos de guerra, relações amorosas, nascimentos e mortes, leituras de pergaminhos e mudanças de vida, desde a tarde em que o pequeno Coronel Aureliano foi levado pelo pai a conhecer o gelo. Cada novo capítulo nos oferece novos episódios da vida desta família que passa praticamente por todos os sonhos e desgraças do mundo.

O realismo com que García Márquez descreve as personagens e cada pormenor da história dá-nos a impressão de que a estamos a ouvir contada pela própria Úrsula, a matriarca da família, que a acompanha por mais de cem anos. Ao mesmo tempo, é tão aparentemente real e maravilhosa que se torna demasiado crua para ser verdadeira, para ser credível, até. Mas queremos tanto saber mais, conhecer melhor cada história, que nós próprios ignoramos os pormenores fantásticos e cremos imediatamente no que lemos, envolvidos pela nostalgia.

Úrsula é a personagem que compreende sempre demasiado bem os seus filhos, netos, bisnetos e seguintes, tornando-se a nossa voz da razão quando as suas acções parecem não ter uma explicação lógica. É também ela que compreende como o tempo é cíclico, como o passado retorna constantemente e se repete ao longo das gerações e dos cem anos de solidão a que a sua estirpe é condenada. Como os Aurelianos e José Arcadios da família, havendo um em todas as gerações, têm sempre personalidades e destinos semelhantes, inescapáveis dado que o ciclo Buendía assim o determina. E como o maior desastre a evitar é sempre o nascimento de um bebé com rabo de porco.

É curioso, também, como a história da família é também a história de uma terra, Macondo, fundada pelo primeiro José Arcadio e que não pode mais existir após a morte do último Buendía. Crescem juntas, a família e a terra, atravessando os primeiros tempos de prosperidade, a época das bananeiras e os ataques de pássaros irados. A própria casa dos Buendía é o espaço que dá vida à história, o único ao qual temos acesso total, ‘observando’ como as diferentes divisões servem diferentes propósitos, dos pergaminhos aos 72 penicos, de esconderijos a locais de permanente solidão.

Os Buendía são pessoas que acreditam em raparigas belas elevadas ao céu e ciganos que incentivam aventuras maravilhosas. As suas histórias são tão lendárias que, geração após geração, o que vai restando delas é apenas uma memória difusa, em tom de mito improvável, dado que desaparecem os que o poderiam alguma vez provar. Apenas Melquíades parece saber sempre tudo, mesmo depois de morrer, encerrando em si o segredo do futuro dos Buendía e deixando apenas aos que vão ficando uma enorme nostalgia do passado feliz e glorioso. A tragédia acaba sempre por prevalecer no final.

Gabriel García Márquez oferece-nos então não uma, mas muitas aventuras diferentes, num rol de ricas e maravilhosas personagens, que se vão tornando principais e deixando de o ser à medida que a sua morte as substitui pelas gerações seguintes. O tronco comum é o eterno retorno e o destino que condiciona sempre o seu caminho, acompanhados por uma escrita que por vezes associamos ao ritmo alucinante e às elipses de Saramago e que nos obriga a pular entre capítulos para descobrir a aventura seguinte. No final, a recompensa é o preenchimento do coração com a compreensão desta continuidade. O castigo, a reflexão sobre o nosso próprio destino, passado e família. Um castigo sob a forma de recompensa, também.