Denis foi o vencedor do programa A Voz de Portugal da RTP1 e já era habitual vê-lo a “meditar os Deuses do Rock”. Agora, parece que os Deuses responderam ao seu pedido. Hoje em dia, em Portugal, já se diz que Denis é o próprio rock ou, se ainda não o é, está prestes a sê-lo.

Depois de muitas atuações em bares e festas e de ter passado por vários projetos, pode destacar a banda One Man Band, onde interpretava músicas de outros artistas, completamente a solo, tocando vários instrumentos, pois para além de ter uma voz inconfundível ele é também multi-instrumentista. Ao longo deste ano, este jovem promissor esteve a trabalhar no seu primeiro álbum, Twist and Bend, que tem data de lançamento marcada para esta segunda-feira, dia 24, com apoio da Universal Music Portugal.

Todas as letras e músicas são da autoria de Denis, com exceção de Coz I Luv You, com letra de Holder e música de Jim Lea. O álbum foi produzido por Armando Teixeira e é importante salientar que Denis fez questão de gravar a maioria dos instrumentos. Sendo filho de um músico, esteve desde cedo em contacto com o mundo da música. Ao Espalha-Factos, Denis contou um pouco mais sobre o seu álbum e não só.

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EF: Como e quando surgiu o apelo da música na tua vida?

Denis: Surgiu desde de muito novo por influência do meu pai, comecei a aprender guitarra desde os 10 anos. Os meus pais quiseram-me colocar num conservatório com 12 anos, mas passado seis meses vi que não era aquilo que queria. É uma boa formação, aprendi alguma coisa, só que a parte clássica não me interessava muito e, passados estes meses, desisti. Foi aos 13 anos que pisei o palco pela primeira vez, fui ver uma atuação do meu pai. De repente ele convidou-me e como eu já conhecia algumas músicas fui e nem tive tempo para ficar nervoso. Foi a partir desse momento que o meu gosto pela música começou a evoluir. A partir dos 15 dediquei-me mais a sério à guitarra e a partir dos 16 anos nunca mais parei, tocava todos os fins de semana.

EF: Desde sempre que quiseste gravar um disco só teu ou foi uma ideia que surgiu com o tempo e o gosto pela música?

Denis: Sim, foi com o tempo. Com 13 anos ainda não estava bem a pensar em gravar um disco, provavelmente estava a pensar noutras coisas. Comecei a pensar nisso mais a sério por volta dos 16/18 anos. Essa foi a fase em que fazia originais, também foi nessa época que tive duas bandas de originais. Aí sim, já pensava nisso, em ter uma carreira, um álbum… Nessas idades somos todos muito sonhadores e à medida que a vida passa as oportunidades não são assim tantas e a vida começa-se a definir sem que tu penses muito nela. E foi assim, que acabei por passar muitos anos a tocar guitarra, assim como versões e covers em bares e festas. Neste momento, já tinha perdido um pouco a magia desse sonho de ter e de ir para a estrada com um álbum. Mas, finalmente, as coisas são possíveis e está agora a acontecer.

EF: Em algumas entrevistas referiste que estavas reticente em participar no programa A Voz de Portugal. O que é que te assustava neste tipo de programas? E o que te levou a avançar?

Denis: O que me assustava mais era o que as pessoas pensavam sobre este tipo de programas, não era o mediatismo, era o facto das coisas não serem sérias. Neste caso, estou a falar de um programa específico, o Ídolos, nunca participaria nesse tipo de programa. E quando ouvi falar d’A Voz de Portugal vi qualquer coisa de diferente no programa. Em primeiro lugar, os castings que são uma parte horrível, são deitados fora, são coisas privadas. Em segundo, este programa tinha uma coisa muito boa, quem passasse nos castings tinha à sua disposição um palco e uma banda a tocar por trás. E eu gosto é disso, porque eu não sou músico de karaoke e assusta-me um bocadinho estar a cantar com uma coisa gravada e não transmitir nada às pessoas. Para além de ter gostado do estilo do programa, outra coisa que me ajudou a participar foi ter perguntado no facebook se devia ou não participar e a resposta ter sido muito positiva. Contudo, por mais que as pessoas dissessem para me inscrever eu tinha de tomar esse passo e, para isso, teria de querer e foi isso que aconteceu.

EF: Como foi ser “o vencedor” de um programa deste tipo? Estavas à espera?

Denis: Se eu estava à espera? Eu digo sempre que a cada etapa que passa ficas mais esperançoso. Tu vais passando etapa a etapa e chegas à final com quatro pessoas e dizes já falta pouco. A esperança fica cada vez maior.

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EF: Muitos artistas dizem que participar num concurso televisivo muda as suas vidas, não só a nível profissional mas também a nível pessoal. Sentiste isso?

Denis: Não, mas eu pensava que sim! Às vezes quando saio de casa tenho de ter mais cuidado com a aparência, sou um bocado desleixado. Quando vou tocar preocupo-me, tenho esse cuidado, agora no dia a dia não me preocupo nada. Por exemplo, quando vou ao supermercado, nem dou por isso, mas de vez em quando uma ou outra pessoa olha, reconhece-me e penso que devia sair de casa mais arranjado. Eu devia-me preocupar mais, mas adio sempre, digo: “agora é que tenho de me preocupar e não quando sair o CD”. Já a nível profissional mudou muita coisa! Tenho um álbum pronto a sair, uma carreira a iniciar-se e talvez consiga mantê-la sólida, o programa ofereceu-me essa oportunidade.

EF: Dia 24 é o lançamento do teu primeiro álbum, Twist and Bend, desde o final do programa que tens vindo a trabalhar nele, como é que esperas que as pessoas o recebam?

Denis: Algumas pessoas já o ouviram, foi colocado no Spotify de borla e, até agora, tem sido muito bom! As pessoas gostam e fazem comentários no Facebook a dizer que gostam, já dizem as suas preferidas. Por acaso gosto dessa parte, de saber o feedback das pessoas. Até a Universal está contente, dizem que é um grande álbum. E, na minha opinião, não podia ter melhores pessoas que a Universal para me darem esse feedback. Mas acho que, se tudo correr bem, se as pessoas o comprarem e ouvirem, acho que vou dar que falar.

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EF: Na página oficial do programa, mais precisamente na tua biografia, diz que o projeto One Man Band é a “menina dos teus olhos” e que o acontecimento mais importante da tua vida foi quando tocaste pela primeira vez com este projeto. Esse momento ainda continua a ser o mais especial, ou a participação no programa proporcionou-te outros?

Denis: Já surgiram outros momentos importantes. A importância do One Man Band era a dificuldade e o desafio, era uma coisa que me dava pica, uma coisa que na música é fundamental.

É claro que já vivi momentos importantes ou que, pelo menos, mudaram a minha vida e a vitória na Voz de Portugal foi um deles. Quando a Catarina Furtado diz o meu nome é um momento que acontece uma vez na vida, enquanto que o meu antigo projeto era um desafio.

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EF: O que mais gostas quando estás em palco?

Denis: Quando estou em palco há muitas coisas boas! Gosto de dinâmica, de improviso, gosto daquilo que torna o espetáculo diferente. Não é só tocar para o público que nos está a ver, que é muito importante, mas tudo o resto. Talvez esteja a falar de um ponto de vista menos profissional, mas muitas vezes nos bares sou capaz de parar uma música a meio, simplesmente porque me apetece e de dizer qualquer barbaridade, mas acho que são esses momentos que marcam a diferença num espetáculo. Ou seja, tu tens um plano de como vais fazer o concerto, mas depois não acontece só exatamente aquilo que planeaste e é isso que mais gosto. Gosto também da envolvência com o público e, claro, de cantar e tocar rock.

EF: Como acabaste de dizer “cantar e tocar rock” imaginavas-te a cantar outro estilo musical?

Denis: Imagino mais ou menos, o meu álbum é sobre um rock com outras vertentes e outros estilos, é claro que vem tudo da mesma raiz: o jazz, o swing, o soul. Agora, eu já cantei coisas diferentes ao longo da vida. Contudo, não me dão tanto prazer, é simplesmente trabalho. Mas, futuramente, não fugindo muito do rock, gostava de fazer umas fusões mais estranhas, mas sempre mantendo a caraterística principal, o rock.

EF: E não queres revelar ao EF que tipo de fusões são essas?

Denis: Tenho uma ideia, mas são ideias que estão muito, muito lá para a frente. Tenho uma coisa que gostava de fazer, mas que é preciso um talento a nível de composição enorme e é preciso saber mais do que compor rock. É uma dimensão completamente diferente.

EF: Durante a gravação do disco correu tudo como querias, ou melhor, todos os pormenores do disco estão do teu agrado? O que mudavas se pudesses?

Denis: A maior parte sim, as músicas soam mais ou menos como eu queria. Ainda ontem modifiquei algumas partes de uma música e acho que a deveria ter feito logo assim. Mas isto são pormenores que só uma pessoa que esteja com muita atenção, ou que saiba a letra de cor, é que consegue notar. É sempre difícil fechar um álbum, todos os artistas se queixam do mesmo.

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EF: Referiste que o teu pai foi muito importante no teu percurso musical. Como é que o teu pai vê o teu novo trabalho? Há alguma coisa no que diz respeito ao álbum que ele mudaria?

Denis: Ele não se mete muito nestas coisas, ele só viu mesmo a versão final, não viu as ideias nem o viu a construir. Ele nunca meteu o dedo, deixa-me trabalhar à vontade.

EF: Para este novo disco permaneceste fiel às tuas inspirações habituais (Rolling Stones, Doors, Elvis Presley, The Who) ou surgiram outras?

Denis: Não vou dizer que foram inspirações, estas bandas foram uma espécie de background onde me influenciei inconscientemente porque ouvi isso. Mas quando estava a compor deixei de ouvir musica, não queria referências, queria o vazio, queria fazer algo diferente. Queria algo que inove um pouco o rock e algo que faça com que as pessoas me reconheçam não por ter um tique vocal, mas sim por ter uma sonoridade diferente. O meu novo single não é um rock assumido, é um rock com música soul. Acho que nesta música consegui criar algo de novo, estou muito contente. Acho que consegui fazer alguma coisa diferente.

EF: No panorama musical português existem artistas que te inspirem?

Denis: Que me inspirem talvez, agora que tenham inspirado o meu trabalho não. Só recentemente é que tenho ouvido músicas portuguesas, por curiosidade para ver como estava a concorrência e encontrei artistas de valor. Estou falar concretamente da Mónica Ferraz. É das poucas artistas que ouvi o álbum num ápice e achei que era um grande álbum, mas não sei porque não falam desta senhora, é uma injustiça. Mas acho que isso dá prazer ao próprio artista, ou seja, não consegue estar no auge imediatamente, mas vai trabalhando para isso. A Mónica Ferraz é das coisas que mais gosto de ouvir, atualmente. Até fui de propósito a Cantanhede vê-la mas não consegui, cheguei tarde. Mas fica para uma próxima.

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EF: De que é que falam as tuas letras? Em que é que te inspiraste para as escrever?

Denis: As minhas letras falam sobre aquilo que é o rock, mais especificamente do que é o rock para mim. O espírito aberto, a dança, o que pretendo é que as pessoas esqueçam os problemas e dancem ao som do rock’n’roll.

No disco existem duas músicas que retratam o programa a Voz de Portugal, Say My Name e I Want It So Bad. São uma espécie de sátira, eu nunca dou a entender qual é o assunto principal, mas se as pessoas pensarem um bocadinho chegam lá. A primeira fala do anonimato, mais especificamente quando do anonimato se passa a um momento em que todos reconhecem o teu nome. I Want It So Bad foi inspirada numa frase do Rui ReininhoÉ pá! Este rapaz queria tanto isto que até quando eu estava de costas sentia isso”. Achei um piadão e então levou-me a escrever esta letra “Eu queria assim tanto, afinal eu queria assim tanto!”.

A única música em português é o Compasso e esta música, ao contrário do que se pode pensar inicialmente, não é uma música que fala sobre amor, ao invés disso aborda a crise do nosso país, fala de um compasso que é muito lento. Já o tema Living A Lie fala de más vidas, de álcool e drogas, de pessoas que deixam a vida para apenas fazerem isso.

EF: Já existem datas de atuações previstas?

Denis: Não ainda nada, quero primeiro passar pelas FNACs para fazer a apresentação do disco ao vivo. Ainda não existem confirmações, mas tudo se encaminha para que isso aconteça. Depois é ver o que aparece, é uma incógnita, esse é o meu maior medo.

Fotografias: Universal Music Portugal e Sónia Pena (assinadas)