Imaginem um palco cujo cenário é a composição de um elenco de luxo. Acrescentem uma pitada de música de Noiserv e uma encenação madura. É assim que Rosencrantz e Guildenstern voltam à vida, no palco do pequeno auditório do CCB. Rosencrantz & Guildenstren estão mortos está em cena no Centro Cultural de Belém até 24 de junho.

Tudo começa com os atores a acompanharem, em cima do palco, a expectativa de cada um que luta por um bom lugar na plateia. “A arte de fazer suspense” deu início. Os seus olhos brilham, como os nossos. De repente, mesmo sem estar tudo devidamente acomodado na sala, o Hamlet invade-nos o coração e faz-nos trautear algumas das suas mais conhecidas citações – nunca é demais relembrar que a questão, afinal de contas, reside sempre no “ser ou não ser”. Assim se transforma um palco despido num amontoado de vozes, de “caras” repetitivas, de tímidas lágrimas e sobejas gargalhadas. Tudo se transforma graças ao elenco que se apresenta diante de nós. Shakespeare torna as personagens secundárias em protagonistas, enquanto as principais, outrora secundárias, repousam, quietas, assustadas e divertidas com a beleza envolta naquela sala.

Marco Martins surpreende pela positiva ao trazer-nos um texto de tamanha complexidade como este e apresentar, durante duas horas e meia, uma mescla de emoções que viajam na popa e na proa de um barco em viagem para uma Inglaterra desconhecida. Marco Martins consegue com um simples recorte de luzes transmitir os corpos agitados do quotidiano em almas repousantes naquele lugar sempre objeto de tanta reflexão – se não estamos vivos nem mortos, onde estamos?

A resposta é simples: Não estamos – viemos ao teatro.

Eis a demonstração que para se fazer muito é preciso tão pouco: atores bem preparados que, no decorrer das cenas, vão criando as suas personagens, divagando pelos pensamentos delas e suas ao mesmo tempo, porque se uniram de forma tão natural, tão excecional, que a lágrima de quem vive aquilo que vê teima sempre em aparecer, mesmo enquanto se soltam algumas gargalhadas.

Foto: João Tuna

Um cenário praticamente inexistente repousa sobre um palco, em todas as aceções da palavra, enquanto espaço de criação, ensaio e interpretação, o mundo à parte que é lugar comum. Lugar onde se agitam e transformam corpos desde o início, tão perto e tão longe do olhar de cada um. A separação de uma força que não se sabe qual é que se esbate quando estamos perante algo assim.

Até a banda sonora foi cuidadosamente escolhida. Ao vivo, quase como mais uma personagem, Noiserv cria melodias em palco que acompanham meticulosamente os gestos e as ações dos personagens. Entre guitarra, percussão e teclas, as notas propagam-se pela sala, complementam o texto e contribuem de forma belíssima para a viagem rumo a um qualquer destino. Um acompanhamento virtuoso, na vitória que é a liberdade.

Os atores, a liberdade de expressão transmitida num quadro, em belas imagens dignas de pintura. Uns quantos microfones espalhados pelo espaço onde se decoram textos, lêem excertos e onde o clássico e o contemporâneo se entrelaçam numa bela união. Beatriz Batarda também compõe este elenco de luxo. A rainha inglesa, não se sabe qual, porque não se sabe quando, que tão bem composta, com um sotaque tão bem conseguido, um inglês de inglesa, um andar fenomenal, deixa-nos de queixo caído. Continua Beatriz Batarda a surpreender, ao mesmo tempo que também o faz Joana de Verona. Uma atriz que vingou na televisão mostra como o teatro consegue tanta magia. É no palco que se vê, verdadeiramente, quem sabe o que faz. A tenra idade não impede que Joana o faça. Há um olhar, um brilho nele, que deixa qualquer espetador rendido, quase intimidado, pela surpresa diante de nós. Uma Ofélia que o é – e não há questão.

Foto: João Tuna

A vida é uma comédia para muitos, ao mesmo tempo que “nós somos actores, somos o oposto das pessoas”, diz-nos a personagem de Bruno Nogueira, que tanto nos ensina, que tanto nos faz rir da confrontação de que sempre tivemos medo. Acompanhado por jovens atores que não arranjam trabalho, uma opção de encenação que é vincadamente política, aqui está a personagem mais inteligente, a única que agita consciências no palco e na plateia. A interrogação permanentemente em discussão ator/comediante parece dissipar-se no modificar das luzes, nos improvisos que só o teatro nos consegue mostrar, sem, contudo, largar aquele que é o seu registo. Impressionante.

Que Rosencrantz e Guildenstern são personagens secundárias de Hamlet, os mais curiosos já sabiam, o que não sabíamos, porém, é que Tom Stoppard tinha conseguido unir o seu texto ao do mestre de forma tão esplêndida. Impregna-nos num mundo de confusão, alegria, tragédia talvez, como tudo o que faz rir. Coloca-nos com o olhar elevado, não de desconfiança ou altivez, mas porque afinal é possível falar de Shakespeare e das probabilidades de se estar sempre “no lado da mesma moeda”, sem deixar o contraponto com o outro lado, o público, que nos faz sorrir. Não sabíamos contudo que eles próprios, os que tomam o seu corpo, não saibam quem são. O nome é a identidade de cada um e os dois, na sua humildade e inocência, não sabem qual deles é quem – iguais não são, talvez o oposto de cada um, mas sempre tão vivos, cada um com a sua “cara” tão impingida, que o brilho nos olhos expectantes permanece a todo o momento. São, enfim, “duas personagens, ou o coração e a cabeça de uma mesma, que expõem com notável clareza as contradições das nossas múltiplas possibilidades de existência enquanto indivíduos”.

Foto: João Tuna

A interpretação de teatro, todos sabemos, une uma diversidade de elementos e sabedoria para que possa ser bem feita. O corpo tem de estar em sintonia com a fala e tudo tem de parecer natural. Gonçalo Waddington prova a todos o que é ser ator. As canadianas com que representa fazem com que o suor lhe escorra durante duas horas e meia, tal é o empenho e desempenho do actor que, sempre apoiado em um só pé, tanto consegue fazer. Gonçalo é uma das principais e sabe o que faz. O público é o seu objetivo e quer tudo na perfeição. A exaltação, o delírio, o quase-choro é possível quando vestidos na pele de uma personagem que é uma fortaleza já quebrada, embora os esforços para a reconstruir sejam enormes. Mostra-nos que a condição humana não é mais que isso, uma condição. E que a Vida é a viagem num barco sempre tão inseguro, sempre ziguezagueando, onde os sonhos e as hesitações se transformam em medo e insegurança.

Gonçalo merece aplausos, mas não está sozinho. Ao lado dele está Nuno Lopes, o outro oposto, o outro Rosencrantz/Guildenstern, este sim, confuso em tudo o que lhe toma a cabeça e sempre em guerra consigo próprio. Afinal de contas, não são as probabilidades que os vão fazer sair dali. Esta é a personagem que reside no ator, ou o inverso, não sei. As personagens que, elas mesmas, são atores, o oposto de nós, aqueles que a tragédia fazem e nos fazem ficar intermitentes. Nuno é aquele ator que não desilude mesmo que se queira que isso aconteça. É aquele indivíduo que está, secundariamente, no fundo do palco, a fazer um tudo-nada que é mesmo tanta coisa, que se torna fulcral dirigir-se-lhe o olhar. Talvez seja um pequeno piscar de olhos, um ligeiro olhar apático para o infinito e um intermitente abrir e fechar das mãos que faz dele quem é hoje. Um actor como há muito não via – para não cair no exagero. As lágrimas de quem vive no limbo, o desespero de quem está, de facto, no limbo e não há ninguém para o salvar torna-se o desespero de tantos quantos a sala permite acolher.

Foto: João Tuna

Nuno e Gonçalo são a parceria que cada ator gostava de poder ter. O teatro é tempo real, como toda a gente o glorifica. É o começou-acabou, tão fugaz e tão exasperante, impossível de transmitir. E mesmo uma segunda parte recheada de contratempos e improvisos, onde o barco quase encalha nas rochas, faz-nos tantas vezes suspirar por esta arte e por estes profissionais que permitem ensinar-nos desta forma. “A deixa do pão nosso de cada dia” é o fim para onde tudo se encaminha – não a morte, porque já todos morremos, não o cair de todos os anseios, ensejos, mas esta possibilidade infinitesimal e surpreendente, esta probabilidade metafísica, de provocar em cada coração um aperto, ao mesmo tempo que a alma é recheada de tanta coisa que não se sabe o que é. Há sempre erros, sempre pormenores a falharem, textos a não serem ditos e cenas cortadas, mas a genialidade vê-se quando se consegue fazer dela um simples acrescento, sem grandes problemas para além da ânsia de mostrar mais e cada vez melhor. Erros cometidos erros resolvidos, sempre, no teatro, como na vida, porque afinal de contas podemos mover-nos, falar, dizer o que quisermos, mas no entanto não somos livres.”

“Rosencrantz e Guildenstern estão mortos” está em cena no pequeno auditório do CCB até segunda-feira. Todos os dias às 21h30m à exceção de domingo, às 16h00m.

“Espontaneidade e capricho estão na ordem do dia”. E sejam livres, dentro ou fora do palco – se é possível.