Feodor Dostoyevsky

“Enquanto ela aqui estiver, ainda está tudo bem…”

Como escrever cem páginas sobre o quotidiano, uma história comum, das vidas comuns como há tantas por aí? Como são cem páginas suficientes para aprofundar caracteres, ir ao fundo da questão, penetrar na situação até ao que de mais fundamental ela tem? Só Fiódor Dostoievski o faz. Bem, talvez não seja o único mas é, sem dúvida, um dos melhores. Tanto o faz nas cem páginas de A Submissa como nas seiscentas e trinta de O Idiota, tanto o faz ao contar a história do príncipe Lev Nikoláevitch como a do prestamista viúvo.

Um retrato na primeira pessoa do dia-a-dia de um casamento falhado, uma descrição pormenorizada e altamente realista do pensamento da personagem que permite ver o que mais ninguém vê, saber o que mais ninguém sabe, as motivações antes das ações. E quem sabe o que o escritor omitiu? O mais interessante é a evolução do pensamento, a linha causal da lógica do personagem, na vida real inacessível a terceiros, na literatura frequentemente desvalorizada. Em A Submissa, Dostoievski junta-se a Victor Hugo na forma de escrever altamente realista, onde os pensamentos do personagem constituem a narrativa principal do enredo. Tal como o condenado à morte da obra de Victor Hugo, o prestamista de A Submissa protagoniza a história através do seu pensamento e ideias justificativas para o acontecimento onde a narrativa vai desembocar: a morte de sua mulher. O leitor acede ao oculto, ao frequentemente desvalorizado, ao não suficientemente explorado na literatura, à versão da história tal e qual como o personagem a viveu.

submissa

 

Quem ler O Idiota e A Submissa encontrará semelhanças, não na forma mas no conteúdo. A vida de um condenado ao julgamento errado dos outros, da sociedade. Problemas de expressão ou visões divergentes do pensamento dominante (ou talvez a junção de ambas) criam estas personalidades rejeitadas cuja dificuldade de inserção social gera tão ricas histórias. E eles são bons, genuinamente bons, bons de uma maneira que não pode ser compreendida pelas forças que mantém estes mundo em movimento, bons de uma maneira condenada à exploração e aproveitamento dos outros em seu proveito.

A mulher morrerá. A submissa cometerá suicídio. É dado adquirido, facto consumado. É o próprio quem nos diz, ele que nada viu senão o corpo já sem vida. Não nos iria mentir… De seguida, conta-nos uma história, a história de como se conheceram, a história do seu casamento, a história dos acontecimentos que levaram até aquele trágico momento. Disso nada mais sabemos, a não ser o trágico final. Oh, mas tudo se revelará. No fim saberemos tudo, quando, como, porquê, porque não… Um vencido da vida que venceu a mulher ao tentar salvá-la e foi vencido por ela na tentativa da sua própria salvação. A culpa percorre todo o livro, todo o monólogo interior que é dito numa tentativa de compreender a morte daquela mulher, a sua mulher que nunca foi verdadeiramente sua. A cada página um novo gesto, um novo sinal, uma expressão nova que é decifrada e justificada e que, normalmente, não conheceria qualquer interesse ou nem sequer seria notada. Aqui, nada é ao acaso.

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