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Os blogues literários – uma entrevista a Pedro Pinto

Blogues. Quem nunca teve um blogue? Existem milhares e mais aparecem a cada dia que passa. Aqui fala-se de blogues literários, de apaixonados pela literatura, pela escrita e leitura que dedicam grande parte do seu tempo livre a ler e criticar o que outros escrevem. Num tempo em que tanto se escreve e tudo se partilha, a atividade destes leitores profissionais pode muito bem ser um ponto de partida para a nossa seleção das leituras indispensáveis. Eles lêem, analisam, criticam e aprofundam a vida e obra dos autores, ou pelo menos assim deveria ser. Com as ferramentas digitais tão próximas de nós e tão fáceis de usar, como garantir que estamos a ler críticas consistentes que provêm de um trabalho concertado e interessante? Quem são estes bloguers que se sentam atrás do seu computador e opinam sobre o que outros escreveram? Será que as editoras e os autores exploram convenientemente esta “ferramenta”?

Para responder a estas e outras perguntas, o EF esteve à conversa com Pedro Pinto, bloguer e administrador no Letras e Cultura que gentilmente conversou sobre este mundo da crítica literária online.

Qual a missão/função de um bloguer literário?

Estar atento às novidades do mercado, ver, tocar, analisar, ler atentamente cada obra independentemente de ser um autor consagrado ou não, emitir uma opinião/análise sobre a mesma.

O que faz alguém querer ser crítico literário?

Podia dizer que é inato; não obstante, é algo que se vai desenvolvendo na vida de cada um de nós, que se modela e transcende o mesmo. Creio que é necessário ler muito, bem e em bom; querendo com isto dizer que é preciso ter um horizonte literário aberto e abrangente. Não julgar pela capa, dar oportunidade a todos os géneros, e acima de tudo, a todos os autores. Pessoalmente, aposto nos menos conhecidos e nacionais.

Como avalias o panorama da literatura em Portugal?

O panorama da literatura em Portugal é uma espécie de clãs; existem grandes grupos pré-instalados, escritores consagrados – que já foram desconhecidos um dia -, e que tendem a não sair do “pedestal”. Por conseguinte, existe demasiado ruído, e há que separar o trigo do joio: grande parte das vezes o pequeno é grande; outras, o grande é o mais pequeno de todos. Independentemente de tudo, a visão é que existe espaço, apenas urge ser criativo e mais recetivo.

Como está a ser o contributo dos bloguers para o sector?

Depende do bloguer e da abordagem do mesmo. Grande parte dos mesmos apenas pretende livros grátis, sem dar qualquer mais-valia às editoras: ausência de uma crítica estruturada, de uma entrevista ao autor, de um trabalho concertado – triangulado: bloguer, editora, autor/a -, o que faz com que por vezes sejamos vistos como “os tipos que querem livros grátis”. Já tive algumas conversas com editores/livreiros sobre o tema e alguns tem a mesma opinião. Em suma, o contributo ajuda a revelar novos autores; não obstante, muitos bloguers apostam, na sua maioria, em autores estrangeiros, no fácil, no que dá menos trabalho, apenas com o intuito de ter visualizações e/ou “likes/gostos” na página do Facebook. Isso não é tudo.

Como é a resposta e o envolvimento de escritores e editoras? São recetivos e prestáveis ao teu trabalho?

Surpreendentemente, sim. Tanto alguns grandes grupos, como pequenas editoras. Embora sejam as pequenas editoras a acreditar mais na divulgação através dos bloguers, o que não é regra, claro.

Falha alguma coisa no mundo dos livros em Portugal?

Existe a ausência de várias coisas: capacidade de vencer as “quintas”, o ligar os autores, tanto num formato de networking, como de atividades conjuntas, em que os mesmos possam promover-se, expor os seus trabalhos, sem barreiras nem com o receio de serem ultrapassados pelo “vizinho”. O segmento de mercado digital ainda é residual, o que quanto a mim é quase um “pecado”, visto que as camadas mais jovens vivem quase totalmente imersas no mundo tecnológico, o que seria uma forma de as colocar a ler mais, bom, e em bom. A falta de acompanhamento pós-lançamento das obras, dos autores menos conhecidos, e um plano de marketing verdadeiramente colocado em prática, tal como uma dinamização real, e não apenas conceptual.

Como se gerem as críticas negativas a livros que são oferecidos por editoras e autores?

São geridas como as positivas: ninguém – pelo menos eu não – lê um livro a pensar já na crítica, seja ela positiva ou negativa; o que quer dizer que podemos abraçar a leitura de uma obra e considerar que a mesma pode não nos ter agradado; sim, pode acontecer, a questão é a forma como fazemos a mesma (crítica), as razões que apontamos, a forma como escrevemos: não interessa desacreditar, mas criticar construtivamente uma obra, salientar os aspetos que podem ser melhorados, e os que não foram conseguidos. Pode melindrar um autor/editora? Sim, pode; faz sentido? Não, não faz. Porquê? Simplesmente, porque qualquer trabalho, seja o da editora, do autor ou do crítico literário, seja ele bloguer, ou não, pode ser criticado, desde que de uma forma construtiva.

Na tua opinião, quais os “ingredientes” necessários para um bom livro?

“Um bom livro” é algo tão subjetivo: será aquele que vende mais? Aquele que a maioria dos críticos diz que é bom? Respondo um “redondo”: não! As variáveis, os ingredientes, ou o que lhes queiramos chamar não passam do autor ter-se esvaído na sua obra, ter dado o seu melhor, ter-nos feito entrar, viver, fazer parte do mundo criado e sem nos apercebermos disso. Quantos de nós já não começamos a ler e não conseguimos parar; fomos convidados a entrar num mundo e jamais quisemos sair do mesmo, até que esse mundo nos deixa com um desejo de mais, apesar do fim ter chegado. Ficamos com “ânsia” de mais. A darmos, o criarmos quase que uma ligação simbiótica, um amor incondicional entre o leitor e a obra é o caminho. Fácil? De todo que não; de outro modo tudo cairia no ridículo e os rasgos de “iluminação” estariam à distância de um interruptor.

E quais as qualidades de um bom escritor?

Humildade, stamina, capacidade de nos capturar a alma, poder de nos “bujardar” com emoções que não esperamos e sensações que jamais pensaríamos ter em determinado momento. Alguém que nos surpreenda, pela positiva; que nos envolva e não nos deixe sair do mundo criado por ele/a (autor/a).

Como funciona toda atividade de ler e avaliar textos e livros? No fundo, desde a seleção feita pelas editoras à crítica feita pelos bloguers, não é tudo uma questão de opinião pessoal?

PP – Todos os críticos colocam a sua opinião pessoal, é um facto. A diferença é que todos nós devemos separar a ideia pré-concebida que possamos ter sobre a obra: um autor que à partida possamos não simpatizar, jamais seria profissional renegá-lo. O profissional terá de ter a capacidade de ler, opinar – o mais isento possível – e emitir o seu juízo para além da apenas esfera pessoal. “Dizer bem, dizer mal”, não é apenas algo pessoal, mas transcendental, ou seja, algo que deve ser efetuado com fundamento e respeitando, sempre, todas as partes envolvidas. Dizer “Sim” ou “Não”, por motivos de amizade, ou simpatia é aniquilarmo-nos e não sermos honestos. Não é apenas uma opinião, mas uma “verificação” se o autor conseguiu chegar ao objetivo proposto.

O que pensas quanto à falta de espaço para o sector dos livros nos media tradicionais? Não era já altura de a crítica literária sair dos blogues e ir para os meios de comunicação tradicionais?

PP – Voltamos à questão das “quintas” e do poder instituído; uma forma em que só quem já deu provas – que grande parte das vezes nem deu -, é que a opinião é tida em conta. Até que ponto os críticos mainstream conhecem a realidade global do mundo literário? A meu ver muitos estão cristalizados na sua zona de conforto recusando-se a sair da mesma. Os meios de comunicação tradicionais tendem a ir apenas pelo que dá receitas imediatas, pelo que um crítico conhecido é sempre “a” mais-valia, isto em detrimento do outro – o menos conhecido -, podendo a opinião deste ser mais densa e válida do que do primeiro (o conhecido). Temos vários exemplos, amplamente visíveis, em que ao dizerem “é bom”, geram receitas imediatas – muitas vezes sem terem lido o livro, apenas a sinopse, ou visto a capa.