7256_593826903983202_1191625615_n

Já não se vêem gregos

A ERT é um caso de extraordinária falta de transparência e de incrível esbanjamento. Isso acaba agora”, afirmado por Simos Kedikoglou, porta-voz do governo grego, lia-se, hoje, na imprensa diária lusa, qual hecatombe corolária da epifania mercantil que assola os povos mediterrânicos, uma metamorfose decadente da democracia ancestral helénica, curiosamente mais próxima da oligarquia cidadã que se materializava na época do que daquele conceito inteligível da igualdade e livre uso da razão que aprendemos na escola.

A ERT (Ellinikí Radiofonía Tileórasi) é, para quem não sabe, a organização pública de radiodifusão grega, com quatro rádios nacionais, 19 rádios locais, três televisões nacionais, uma televisão regional e um canal internacional, e foi encerrada ontem, a partir da meia-noite, como medida temporária de corte na despesa pública. Este é o primeiro despedimento em massa do sector público, enviando, automaticamente, 2700 profissionais dos media para o desemprego, aniquilando o serviço público de informação.

Contudo, que serviço público é serviço público sem público? Assumimos a existência de um canal estatal premente, na coexistência democrática, enquanto baluarte da liberdade de expressão, impedindo que a informação seja condicionada pela posse, pela usurpação privada do conhecimento diário, erigindo um espaço de acesso equitativo, representativo dos interesses da população que lhe está designada. Assumimos o serviço público de informação enquanto porta-voz da população e seu mensageiro, num círculo vicioso e simbiótico que legitima a acção cívica e fomenta o espírito crítico e o entrosamento com a comunidade.

Tudo isto é serviço público, fornecido pelo Estado. Estado como instituição simbólica que designa todos os cidadãos, nome colectivo que se refere ao governo político do povo constituído em nação. E a Grécia não tem Estado. Não há noção de Estado, na Grécia, muito menos de público, a partir do momento em que as instituições democráticas que, supostamente, organizam e coordenam a nação são subvertidas pelas entidades económicas transnacionais, com a vontade de assumir as rédeas de uma economia em colapso, porque a crise, porque o mercado económico, porque há FMI e quem sabe da tenda é o tendeiro.

E, se não há Estado porque não são as pessoas que comandam o seu país, se não há público, porque não há noção de colectivo, a premissa da informação pública torna-se obsoleta, castrada pela preponderância da hegemonia económica sobre as noções razoáveis da vivência em comunidade. Não que seja um problema grave, em termos práticos, uma vez que há grupos organizados que zelam pelo acesso gratuito e global à informação, pequenas organizações cooperativas que se desdobram em esforços para difundir notícias e histórias, e, nas redes digitais, pulula a informação actualizada.

O problema grave é o despedimento, a desgraça que bafeja os trabalhadores da estação pública, colocados no fio da navalha, do dia para a noite. É a facilidade com que se legitimam as acções de conglomerados económicos, suplantando os interesses dos cidadãos, enquanto incógnita primordial da equação. É a justificação numérica a superiorizar-se à consciência humana. E o Juncker néscio permite-se concluir publicamente que muitos erraram ao analisar a situação grega, depois de três austeros anos.

Para combater o fecho da ERT, os sindicatos decidiram convocar uma greve geral, reivindicando o direito à informação. No momento em que pessoas se emulam no terreiro, onde milhares vivem da caridadezinha, quando há uma força neo-nazi a elevar-se, sem soberania, sem direitos, rendidos à ignomínia, uma greve geral é a solução dos sindicatos.

Toda esta situação relembra-me uma velha anedota soviética, que ouvi contada pelo Žižek, sobre a Rússia do século XV, ocupada pelos mongóis. Certo dia, um agricultor e a sua mulher encontravam-se a passear e chega um soldado mongol que diz que vai sodomizar a pobre mulher. Contudo, como o campo era árido, o soldado obriga o agricultor a cobrir-lhe a genitália com as mãos, para que não fique com areia presa nos culottes. Posto isto, a mulher é sodomizada à bruta, o mongol veste-se, de novo, e retorna ao seu caminho. Assim que se afasta, o camponês começa a rir-se e a rodopiar em regozijo, que a mulher estranha, e pergunta-lhe: – “Como podes estar assim, quando acabei de ser brutalmente violada?”, ao que o pobre camponês admoesta – “Apanhei-o! Não lhe cobri decentemente a genitália e ficou cheio de areia a irritar-lhe as coxas.

Imbuídos dos espírito do campesinato, os sindicatos gregos, ainda que bem intencionados, assumem os conflitos éticos, minorando os pragmáticos, como o camponês, que deixa a mulher ser sodomizada. O direito à informação é basilar na construção de uma sociedade equitativa, de debate racional e cívico, com um espírito crítico aguçado e cordato, de permanente necessidade, mas, no momento em que tens a cabeça na guilhotina, não vais reivindicar pelos direitos das árvores a que retiraram a madeira.

* Este artigo é, por opção do autor, redigido ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1945.

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.

Mais Artigos
Green Book venceu três Óscares
Óscares 2021. RTP prepara sessões especiais com filmes premiados