MUSE

Muse com chama de Dragão

Um palco capaz de rivalizar com muitos prédios da Invicta, fogo para lembrar ao público que estavam no Dragão e ainda uma chuva de notas. Foi assim que os Muse brindaram todos aqueles que, no dia de Portugal, das Comunidades e de Camões, também partiram à procura (e certamente a encontraram) de uma aventura épica.

muse2

Quem ontem passeava pela zona das Antas depressa se apercebia que algo de grandioso iria acontecer. Com a época desportiva encerrada, começou a época dos concertos e dos festivais e, pelo segundo ano consecutivo, o Estádio do Dragão iria receber um grande concerto. Numa das entradas para o topo norte do estádio, tendas e uma multidão coloriam o cinzento do betão. Fãs de todo o país aguardavam a chegada dos britânicos ao Porto. A sede de ver e ouvir o sexto álbum de estúdio, The 2nd Law, ao vivo era muita.  Tanta que houve quem passasse o dia todo sentado em frente aos seguranças, só para ser o primeiro a chegar ao relvado.

Com a ansiedade em alta, o tempo passa mais devagar. Mas ,ainda assim, as 16h chegaram e as portas abriram. Correria inicial na subida das escadas que dão acesso ao estádio. À chegada ao interior do estádio, várias doses de vernáculo foram soltadas, o que é completamente compreensível: o palco era gigante. Uns três andares de altura ornamentados com LED’s, luzes e uma parafernália sem fim de tecnologia.

Às 20h, cumprindo quase britanicamente o horário estipulado, entram os We Are The Ocean. Na bagagem a banda trazia o seu terceiro álbum, Maybe Today, Maybe Tomorrow, e tal como o nome do disco diz… talvez amanhã a banda faça sucesso. O seu punk não foi suficiente para conquistar o público. O vocalista da banda, Dan Brown, bem se esforçou, mas o público estava naquele estádio por outros motivos. Motivos que tardavam em chegar e que puxaram pela imaginação das 45 mil pessoas presentes no Dragão, levando-as a fazer a hola mexicana e a afinar as gargantas ao entoarem vários cânticos para a banda que se aproximava.

Do nada apagam-se as luzes e surgem logo os primeiros gritos. Começa o concerto, aliás, espectáculo. Supremacy foi a escolhida pelos Muse para receber os primeiros grandes aplausos da noite. Com ela vieram também um sem fim de chamas saídas das seis chaminés no topo do palco. Palco esse que ganhou um novo revestimento; os LED’s ligaram-se e agora via-se um cenário que mais parecia retirado de um jogo de consola.

E o show começa. Supermassive Black Hole mostrou o lado mais electrónico da banda e depois Panic Station o funk. Curiosidade que nesta música, o último single da banda, o cenário eras de desenhos animados. E entre as personagens apareceu, muito aplaudido, Cristiano Ronaldo a representar Portugal no meio de políticos como Angela Merkel ou Barack Obama.

O espectáculo continuou sempre a seguir uma narrativa bem delineada, onde a crítica política era a protagonista. Exemplo disso foi o cenário holliwoodesco durante Animals, onde podíamos ver vários homens de fato e gravata com um ar ganancioso. Em rodapé passavam os valores das principais bolsas mundiais. Surpreendente foi a forma como um dos engravatados passa do vídeo para o palco, distribuindo notas pelo público, até que cai no chão morto.

Continua o filme e, em jeito de funeral, Christopher Wolstenholme faz o solo com a harmónica bem no centro do relvado. O público já antecipa qual é a música que vem a seguir… Começam os primeiros acordes de Knights of Cydonia e a multidão fica em êxtase. Daí até cantar a uma só voz a letra desta música, com uma forte componente política, foi um instante.

Foi com Hysteria que os membros da banda pegaram em vários objectos oferecidos pelo público. Christopher agarra uma bandeira de Portugal, enquanto que Matt Bellamy, aniversariante da noite, pôs ao pescoço um cachecol do clube anfitrião, o Futebol Clube do Porto. Segue-se a habitual cover de Feeling Good e nova encenação. Desta vez uma secretária corre pelo palco até que morre por beber gasolina. Mais uma alusão à mensagem política que os Muse querem passar com este The 2nd Law.

Mais música, com destaque para Madness e Time is Running Out, que foram dos mais aplaudidos. Tempo ainda para New Born, “escolhida” por uma roleta que foi acolhida pelo público com enorme alarido.

Os Muse seguiram a linha do que já fizeram nesta tour: dois encores  por concerto. No primeiro deu-se o momento fofinho e romântico da noite, com Unintended, Guiding Light e ainda Undisclosed Desires. Depois regressou a normalidade, ou então não, pois Charles, o robô de cinco metros de altura, entrou em cena, com o dubstep de The 2nd Law: Unsustainable.

Plug In Baby foi recebida em compreensível delírio, a música responsável pelo lançamento dos Muse foi cantada, dançada e tudo mais por todos os 45 mil presentes. A música oficial dos Jogos Olímpicos de Londres, Survival, também foi um dos pontos a assinalar no concerto, sobretudo pela performance de Bellamy. Piano, guitarra e voz, com todos a merecerem cinco grandes estrelas.

Segundo encore bem mais curto e da consagração. Uprising e Starlight foram os últimos temas entoados, num grande uníssono no Dragão.

Foi sem sombra de dúvidas o melhor concerto dos Muse em Portugal. Aquela banda que veio ao Festival do Ermal é agora uma banda de estádios. Mais do que um concerto, um espectáculo bem desenhado com tudo a que tem direito. Foi bom vê-los e que voltem depressa!

Fotografias: Paulo Pimenta in Público