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Um dos melhores momentos do festival foi inegavelmente protagonizado pelos EITS.

Optimus Primavera Sound – Dia 3 – Explosões de emoção com EITS e My Bloody Valentine

Num festival como o Optimus Primavera Sound não existe nexo algum em dizer-se que se guardou o melhor para o fim; isso seria assumir uma posição de desrespeito para com as bandas que actuaram nos dias anteriores, casos dos Blur, de Nick Cave & The Bad Seeds ou dos Swans. Porém, o que dizer de um dia que junta Dinosaur Jr., My Bloody Valentine e Explosions In The Sky? Ok, deixemo-nos de tretas: este era o dia que mais prometia.

E assim foi. O último dia do festival primaveril portuense, não sendo ele o que tinha uma melhor oferta em nomes que não cabeças-de-cartaz (My Bloody Valentine e Explosions In The Sky), era aquele que à partida tinha maiores argumentos: o primeiro passaria obviamente pela banda que catapultou o movimento shoegaze e que voltava a Portugal após uma passagem em 2009 por Faro, onde foi apupada com lenços brancos. Porquê? Por causa de terem sido iguais a si próprios num concerto onde abriram para os The Offspring. Barulho como este não é a praia de muitos, e reza a lenda que houve miúdos que até choraram. O segundo argumento era sustentado pela vinda de uma das bandas mais icónicas do post-rock, os Explosions In The Sky, que tinham cancelado a sua presença no OPS de 2012 à última da hora e que só agora o destino lhes quis dar todo o encanto natural do Parque da Cidade. Mais argumentos? Os 90’s estavam de volta com a actuação dos Dinosaur Jr. no Palco Optimus bem ali ao fim da tarde.

17h55, actuava Manel no Palco Optimus. Bastaram cinco minutos para nos apercebermos que não. E não mesmo. Se a sua pop efeminizada até sonoramente é má, o que dizer acerca de quando se introduz lá uma voz? E, ainda para mais, o que dizer se essa voz for espanhola? Não que tenhamos alguma coisa contra vozes espanholas. Adoramos, por exemplo, os Él Mató A Un Polícia Motorizado, mas a dada altura eu pensava que estava num infantário onde os putos estavam todos a chorar e não num concerto, e isso é mau. Às 18h00 já nos tínhamos ido.

Enquanto o próximo concerto não chegava, o dos australianos The Drones, às 19h05, foi tempo de ir aproveitar o extenso manto verde que cobre os mais de oitenta e um hectares do Parque da Cidade e que faz do Optimus Primavera Sound um festival simplesmente único. Bastaram dois dedos de conversa e chegara então a hora dos contingentes de Nick Cave subirem ao Palco Super Bock. Havia alguma expetactiva para este concerto, é verdade. Mas, no fim, saímos de lá minimamente satisfeitos. Os The Drones, embora não se tenham transcendido nem superado o seu nível do que são em estúdio, deram, acima de tudo, um concerto eficiente onde nos mostraram que há vida na Austrália param além de Tame Impala, Dead Can Dance ou Nick Cave & The Bad Seeds. O público também pareceu ter gostado e foi em temas como The Miller’s Daughter ou Nine Eyes que mais se fez a festa.

Depois do concerto dos The Drones, era tempo de ir abastecer o estômago para que estivesse tudo firme para um dos momentos do dia; o concerto dos icónicos Dinosaur Jr, que, para azar de muitos, iriam tocar ao mesmo tempo que os portugueses Paus. Os Dinosaur Jr. foram uma das bandas mais importantes do panorama do alternative rock americano dos anos noventa e isso estava bem claro pela quantidade de pessoas na casa dos quarenta que compunha as filas dianteiras. Deram um dos concertos do festival.

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Os Dinosaur Jr. rubricaram um concerto fenomenal.

Tocaram-se êxitos como Out There, Start Choppin ou Budge. E, nas transições de faixas, apercebíamo-nos de uma coisa: J Mascis foi, e ainda é, um dos maiores guitarristas da sua geração e a visceralidade que consegue impor em cada um dos seus riffs é estrondosa. Não espanta, por isso, que muitos lhes façam a vénia, tal como aquele senhor que se encontrava a meu lado a assistir ao concerto bem lá na terceira ou quarta fila que tocava uma guitarra invisível sempre que J Mascis dedilhava a sua. Até ao fim do concerto ainda houve tempo para a cover de Just Like Heaven dos The Cure, para o mosh e para o crowdsurfing, e para Damian Abraham, dos Fucked Up, subir ao palco e interpretar juntamente com “os dinossauros” Chunks, música original dos Last Rights. Mas que grande concerto!

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J Mascis deslumbrou na guitarra.

Seguido da avalanche sónica dos Dinosaur Jr., havia The Sea & Cake no Palco ATP e Los Planetas no Palco Super Bock, mas havia, sobretudo, a preocupação em arranjar um bom lugar para um dos concertos da noite. Falamos, claro, da actuação dos norte-americanos Explosions In The Sky (EITS). Com essa preocupação optámos por nos quedar por perto do palco Super Bock e assistir a parte do concerto dos espanhóis Los Planetas. Aquilo que escrevi há bocado sobre Manel era mesmo a valer; não temos nada contra vozes espanholas e isso verificou-se em Los Planetas, que acabaram por dar um concerto relativamente positivo, sempre com a sua sonoridade a roçar entre o rock alternativo e o piscar de olhos às composições de esqueleto mais pop.

Entrava-se em fase decrescente para o concerto dos EITS e, antes de qualquer coisa, deixem-me que vos diga: os Explosions In The Sky não são os Mogwai. Se assim fosse, mais de noventa por cento das bandas do movimento pós-roque seriam escoceses e chamar-se-iam Mogwai; é nítida a relevância de Young Team na ideologia pós-roque contemporânea, mas isso não as torna necessariamente filhas bastardas dos escoceses. O que seria do post-rock moderno caso os Mogwai nunca o tivesse lançado? Não se sabe, mas com certeza que seria muito diferente daquilo que hoje é. Que os EITS devam muito aos Mogwai tudo bem, mas fazer deles uns Mogwai secundários foi a coisa mais ridícula que li enquanto apreciador de música. Os Mogwai são, e sempre serão, os Mogwai e os Explosions também já construíram o seu legado.

22h45, Palco Optimus: “Olá a todos, nós somos os Explosões no céu”. Foi assim que os Explosions In The Sky, banda natural do Texas, se apresentou ao público português passado quase um ano daquilo que havia estado prometido. Começou-se com Yasmin The Light, retirada de um dos melhores álbuns da última década, Those Who Tell The Truth Shall Die, Those Who Tell The Truth Shall Live Forever e, desde logo, foi criado o ambiente necessário para um concerto como este. O que houve que até aqui nunca tinha havido no festival? Um silêncio medonho enquanto o quarteto ensaiava cada uma das suas músicas, pois estas não passam disso mesmo: de ensaios, meros esquiços, que só ganham corpo e forma quando realmente penetram aquilo para o qual foram concebidos. É quando a sua música nos chega ao coração e à alma que nos apercebemos da sua beleza.

Os Explosions In The Sky encantaram.
Os Explosions In The Sky encantaram.

Os Explosions vivem disso mesmo, de explosões sonoras, de explosões de emoção, de explosões amorosas e desamorosas com a melodia e fazem questão de nos relembrar disso em cada música sua. O alinhamento para este concerto trouxe-nos viagens cronológicas pela sua obra. Tocaram-se temas como Catastrophe And Cure, The Birth And Death Of A Day ou a já demasiado célebre Your Hand In Mine, do maravilhoso The Earth Is Not A Cold Dead Place. Pelo meio, e nas construções musicais até se chegar aos crescendos, mais do mesmo: mais silêncio, mais admiração, mais amor. E que não se arranje mais palavras para descrever o concerto do que amor. Amor desde o início, amor até ao fim. A última música a ser tocada foi The Only Moment You Were Alone. No fim todo aquele transe que invadiu o público ficou-me para sempre capturado na memória: esboçavam-se enormes sorrisos, que se estendiam pelas pessoas desde as proximidades do palco aos espaços mais longínquos. Pelo meio, e bem preso na garganta, detivemo-nos num soluçar silencioso de uma lágrima que quis sair mas que, afinal, ficou presa no olhar estupefacto para o palco quando já não estava lá ninguém. Os reis da noite tinham-se ido embora do palco e eu permanecia ali… intacto. Só passados dois ou três minutos consegui dizer uma palavra. Hoje disse estas tantas, mas digo-vos mais: foi um concerto que valeu por uma vida e foi o grande momento do festival. Nunca esperar um ano foi tão saboroso.

Um dos melhores momentos do festival foi inegavelmente protagonizado pelos EITS.
Um dos melhores momentos do festival foi inegavelmente protagonizado pelos EITS.

Depois da emoção que foi o concerto de Explosions In The Sky necessitávamos de descanso; foi mesmo muita, muita emoção para uma hora apenas. Ficámos, então, no mesmo palco a aguardar pela chegada dos My Bloody Valentine e perdemos concertos que se dizem ter sido memoráveis, como o das Savages, no palco Pitchfork. Os My Bloody Valentine são uma das bandas mais incontestáveis da história da música desde que a conhecemos. Não se tratam de massas alternativas, trata-se de inovação: nenhuma banda até 1988 nos trouxe a concepção de ruído que os My Bloody Valentine patentearam nesse mesmo ano com a edição de Isn’t Anything, o primeiro caso sério do shoegaze. Já em 1991, com Loveless, os MBV lançaram um dos mais notáveis trabalhos de sempre. E, já neste ano, editaram m b v, álbum que marca o regresso aos estúdios mais de duas décadas depois. Agora expliquem-me: como assim trazer uma das mais míticas bandas em actividade é um convite à deserção? Bem, isto não fui eu que disse. Também não disse que os EITS, depois de rubricarem um concerto do outro mundo, são uns Mogwai secundários. Mas tudo bem, siga para o concerto dos My Bloody Valentine:

01h30, Palco Optimus: Dez minutos de atraso (creio mesmo ter sido o único concerto do evento onde se registou um atraso tão significativo), não fosse o guitarrista da banda o mais perfeccionista dos mortais. Estava na primeira fila, a cerca de uns três ou quatro metros da bela Bilinda Butcher. Chovem palmas de todo o lado; são os My Bloody Valentine e projecta-se no palco imagens de Loveless. Inicia-se com I Only Said. E caramba! São mesmo eles, vozes inaudíveis que se asfixiam nos soberbos jogos de guitarras que se fazem em cada instante e que vão criando entre si uma muralha sónica simplesmente medonha.

O início até foi calminho, mas já existem pessoas a abandonar as primeiras filas, obviamente incomodadas pelo imenso que barulho que se faz sentir. Segue-se When You Sleep. E, uau! Penso que aquela lágrima que ficou do concerto de EITS vai mesmo sair, mas não; parece também ela incomodada com o barulho. Mais pessoas abandonam as primeiras filas. Muitos sentem a música de olhos fechados, com o sorriso de prazer esboçado na sua face. New You, do novo m b v, trouxe calma, e sobressai o seu perfil pop. E, de repente, uma viagem pelos EP’s da banda: tocam-se You Never Should, Honey Power e Cigarrete In Your Bed, antes de se regressar a 2013 com Only Tomorrow. As pernas estremecem, os tímpanos sentem-se violados: isto é mesmo bom. Ainda há Thorn, Nothing Much To Lose (a bateria aqui é divinal) ou To Where Knows When, antes de se chegar a dois dos maiores clássicos da banda: Soon e Feed Me With Your Kiss.

Depois, o momento do concerto: You Made Me Realize. O que teve assim de tão extraordinário a performance desta canção? Teve tudo aquilo o que fez os meninos chorarem em 2009, na abertura do concerto dos The Offspring. Teve ruído, ruído, ruído. Havia pessoas com a dor esboçada no seu rosto, e não era para menos: foram cinco minutos debaixo de uma intensidade sonora que dificilmente se voltará a repetir nas nossas vidas, a menos que vejamos a banda de Shields e companhia novamente. Maior que a de, por exemplo, Swans. Passados os cinco minutos, o regresso à canção. E todos recordamos aquela passagem «Don’t hate me ‘cause I don’t know you. Insane eyes, you made me realize.». Simplesmente memorável. O concerto desenlaçou-se com Wonder 2, em mais um regresso a 2013. Um dos melhores concertos do festival.

Pela noite ainda iríamos poder ver The Magician mas, depois de ver as actuações de Explosions In The Sky e de My Bloody Valentine, faltou-nos vontade e, acima de tudo, coração. Foi um belo Optimus Primavera Sound, repleto de excelentes concertos, de belos momentos e de histórias para partilhar com os amigos e família. Encanto como o deste festival não existe. Digamos até para o ano à magia primaveril do Parque da Cidade.

Mais fotografias aqui

 *Artigo redigido, por opção do autor, ao abrigo do acordo ortográfico de 1945

Texto por Emanuel Graça, fotografia por Gonçalo Loureiro

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