Juntar num só concerto nomes como The Doors, Zeca Afonso, Tony de Matos ou Bob Dylan parece uma missão impossível, mas não para Sérgio Godinho. A convite do Centro Cultural de Belém, o músico concretizou, na passada sexta-feira, o desejo de corporizar em palco os temas escolhidos para as suas crónicas, compiladas no livro Caríssimas 40 canções.

Na companhia de Manuela Azevedo (conhecida vocalista dos Clã, que mostrou ser uma excelente multi-instrumentista), Nuno Rafael (seu companheiro de estrada e de estúdio) e de Hélder Gonçalves (produtor, compositor e músico dos Clã), Sérgio Godinho presenteou um Grande Auditório completamente esgotado com “canções dos outros” e algumas suas.

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A última sessão foi o primeiro tema a ser tocado no Grande auditório, e um dos 4 temas originais de Sérgio Godinho que integraram o alinhamento do espetáculo. De seguida, a viagem por outros territórios começou, já que, como disse o próprio cantor, “pisar territórios estranhos é torná-los nossos”, introduzindo assim o tema People Are Strange, dos The Doors. Declamando excertos das suas próprias crónicas a meio de algumas das respetivas canções, Sérgio Godinho adotou uma postura descontraída ao longo de todo o concerto, ora sentado a uma secretária, lendo as crónicas e as letras das canções, ora de pé, frente ao microfone, de mãos nos bolsos e contemplando a plateia.

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A escolha das 40 Caríssimas Canções foi feita não tanto pelos temas, mas mais pelos autores, pelo que a canção de Bob Dylan escolhida para o concerto não foi a do livro ( o clássico Like a Rolling Stone), mas sim o menos conhecido tema Love minus zero, no limits.

A escolha do repertório foi multilingue, pelo que se ouviu cantar em português, inglês, francês, castelhano e português do Brasil, já que “umas canções soam mais estranhas sem sotaque do que outras”, como foi o caso de Conversa de Botequim, de Noel Rosa, tema no qual Sérgio Godinho não dispensou o sotaque brasileiro.

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Sérgio confessou que foi difícil escolher um só tema de Chico Buarque, pelo que optou por uma das suas “canções violentamente mais pungentes”: Geni e o Zeplim. Um dos pontos altos do espetáculo foi, sem dúvida alguma, o “terrivelmente atual”  clássico Vampiros, de Zeca Afonso, numa versão poderosíssima e que fugiu à sonoridade do resto do concerto, com os graves da guitarra a encherem a sala e os agudos de Manuela Azevedo a arrepiarem a plateia.

Fazendo jus à rivalidade entre as bandas, os temas de Rolling Stones (Mother’s little helper) e de Beatles (You’ve got to hide your love away, numa versão com direito a flauta de bisel, tocada por Manuela Azevedo), sucederam-se um ao outro.

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Houve espaço para percorrer temas de artistas tão díspares como Frei Hermano da Câmara, Jacques Brel, ou Violeta Parra, mas também para homenagear o falecido pianista Bernardo Sassetti, com Em Dias Consecutivos, tema original de Sérgio Godinho, composto com a colaboração do pianista.

A reta final do concerto foi, de facto, a parte mais enérgica, com Sérgio Godinho a ousar dar uns passos de dança ao som de Heartbreak Hotel, de Elvis Presley, de Sunny Afternoon dos britânicos The Kinks, e do seu próprio Eu Contigo.O encore seria bem mais breve do que se esperava, apenas com o tema Ora vejam lá, do Conjunto António Mafra, e com O Acesso Bloqueado num tom interventivo já que, segundo o cantor, “cabe-nos a nós desbloqueá-lo”.

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Apesar da fraca acústica da sala (que gerou o descontentamento da plateia, nomeadamente de uma fã que se manifestou a meio do espetáculo), e de a maioria dos temas escolhidos pecarem por terem uma roupagem muito idêntica e linear entre eles, Sérgio Godinho fez uma escolha ponderada e inteligente dos temas a apresentar no espetáculo, escolhendo também muitíssimo bem os músicos que o acompanharam nesta viagem, sendo necessário destacar particularmente o virtuosismo de Manuela Azevedo, que se dividiu entre as teclas, a percussão, os xilofones e a flauta de bisel. O carinho depositado por Sérgio Godinho em todas as canções transbordou para o público, provando que “a música é tamanha e cabe em qualquer medida”.

Este espetáculo será apresentado também dia 15 de junho, desta vez na Casa da Música, no Porto.

Fotografias por André Cardoso