Projecto iniciado, segundo reza a lenda, num quartinho minúsculo no meio de Boise, no estado norte-americano do Idaho, Youth Lagoon é o nome da persona que o jovem franzino Trevor Powers decidiu criar para as suas deambulações pelos meandros da dream pop. Depois de ter espantado grande parte do mundo indie com as delicadas fragilidades de The Year of Hibernation, disco de estreia de 2011, Powers regressou em 2013 com um novo registo da sua lavra; com o título de Wondrous Bughouse, o álbum foi lançado a 5 de Março pela Fat Possum.

Feito com uma estética que a cada segundo de música parecia gritar a plenos pulmões a máxima intemporal do design minimalista “less is more”, The Year of Hibernation apresentou-se ao mundo como um belíssimo tratado de bedroom pop de baixa fidelidade, feito com drum beats roufenhos, teclados baratos e as sobras de uma chillwave lenta, intimista e a puxar, aqui e ali, por uma lagrimita repleta de uma deprimência pueril e inconsequente.

Com uma fórmula tão simples e brilhante criada logo no primeiro disco, os mais pessimistas só poderiam esperar que Trevor Powers, o novo menino bonito da música alternativa, decidisse tomar o caminho mais fácil e se dedicasse, daqui em diante, a tentar replicar ad nauseum os resultados de The Year of Hibernation, com uma vontade de explorar ao máximo a centelha de imaginação presente nessa obra, deixando pelo caminho um rasto de cópias preguiçosas e estéreis. Porém, a verdade é que, em Wondrous Bughouse, Powers preferiu uma via completamente inesperada e conseguiu, com isso, trocar as voltas a muita gente.

Afastando por completo a bedroom pop e a chillwave confessional que marcou o LP de estreia, Wondrous Bughouse surge como uma aventureira incursão de Youth Lagoon pelos meandros da dream pop de cariz mais psicadélico. Munindo-se de uma atitude experimentalista e de influências vindas de nomes como The Flaming Lips, Mercury Rev ou MGMT, Powers criou para este seu segundo álbum uma sonoridade extrovertida, rica em tons resplandecentes e vívidos.

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É sobretudo na produção, que aqui esteve a cargo de Powers e de Ben H. Allen III, que são mais notórias as mudanças e a referida “explosão de cor”. Apesar de Wondrous Bughouse reter, aqui e ali, algum do lo-fi presente em The Year of Hibernation, neste segundo LP assistimos a  uma clara troca do quarto pelo estúdio, o que se traduz numa estética mais orgânica e “cheia”, preenchida pela “instrumentação de banda” (guitarras luzidias, teclados límpidos e camadas densas de reverb), que se opõe às limitações espartanas do disco de estreia.

Contudo, apesar de todas as alterações na estética e na sonoridade, na voz e nas letras Trevor Powers aposta, para este Wondrous Bughouse, na mesma fórmula que fez sucesso em The Year of Hibernation, cantando no seu registo agudo e frágil sobre temas bastante que tanto têm de imaginativos como de introspectivos, e que abrangem questões como a mortalidade. Tudo estes elementos se conjugam para tornar este segundo álbum de Youth Lagoon uma obra sólida e riquíssima, preparada para nos surpreender a cada audição.

Porém, apesar de todas estas qualidades, Wondrous Bughouse acaba por ver a sua “perfeição” minada por algumas peças menos trabalhadas. É o caso de Attic Doctor, Sleep Paralysis e Daisyphobia, faixas cuja qualidade, no meu entender, destoa das restantes e que, por isso mesmo, acabam por retirar alguma da força ao disco. Ainda assim, a grandiosa Mute, a desconcertante Pelican Man, a intensa Dropla, a terna Third Dystopia e a doce Raspberry Cane são argumentos mais que suficientes para levar a obra a bom porto.

Resumindo, com Wondrous Bughouse o norte-americano Trevor Powers conseguiu fazer o mais difícil e criar um disco ainda melhor que o seu álbum de estreia, ousando para isso alterar a fórmula e investir numa sonoridade expansiva e psicadélica, bem distante da singeleza contemplativa de The Year of Hibernation. É evidente que não está isento de falhas e que não vai agradar a todos os fãs do artista, mas o certo é que este segundo LP de Youth Lagoon é uma obra completa e desarmante, que vai de certeza figurar em várias listas de final de ano.

Nota final: 8.8/10

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945