Lore é um filme que vem atestar de vez a qualidade do mais recente festival de cinema de Lisboa, o Judaica. Fá-lo com mestria e pelo caminho mais difícil. Não se deseja a ninguém a tarefa de abordar, seja por que prisma for, a Alemanha dos dias de choque da rendição.

Lore é, percebe-se desde já, uma das formas de sair incólume de uma tarefa hercúlea. Estamos perante um país desfeito. Desfeito nas suas cidades, nas suas casas, na sua vida quotidiana; desfeito sobretudo também nas mentes dos seus cidadãos, encravados entre soldados invasores e a braços com uma luta impiedosa pela sobrevivência. Toldados pela era nazi, cuja propaganda chegara ao âmago do espírito de muitos alemães, Lore é a história de como uma consciência enviesada pelo ódio pode ser contrariada.

Lore, a personagem que dá título ao filme, é uma adolescente particularmente bonita, a mais velha de cinco irmãos. Após ficaram sem os pais – dois convictos ex-nazis – Lore vê-se obrigada a encetar uma fuga desde o sul da Alemanha, até à casa da familiar mais próxima, no norte. Com os seus irmãos mais novos a cargo, Lore não o conseguiria sozinha, não fosse a ajuda de um jovem rapaz judeu que a faz repensar todo o seu passado e refletir na sua verdadeira identidade.

A viagem, repleta de sobressaltos, corresponde à “desnazificação” das crenças de Lore. À medida que vai ultrapassando os perigosos obstáculos que se colocam no seu caminho, Lore vai entrando numa desenfreada espiral psicológica que a deixa num limbo que esbate a sua identidade e a deixa sem valores nem referências de qualquer espécie. Isso vem perigar a sua vida, bem como a vida dos seus irmãos. Ao ter que confiar em alguém que foi sempre ensinada a odiar, Lore é forçada a reconhecer que toda a sua vida até aí fora baseada em mentiras.

Lore

É, no fundo, mais uma vítima de uma guerra atroz, que teve muito mais consequências para além da destruição física de um país. Toda uma Alemanha se deu conta, aos poucos, do que acontecera, do regime totalitário e assassino que os conduzira até à tragédia. Era ainda, todavia, um tempo de negação, um tempo de descrença, um tempo de feridas abertas cuja cicatrização ainda hoje não terminou completamente. Lore era uma adolescente, mas carregava em si o pesado fardo de um passado tenebroso, de uma identidade perdida, e de um futuro dúbio e incerto.

Esta obra da australiana Cate Shortland merece louvor pela coragem de abordar um tema inquietante, doloroso, mas nem por isso menos fascinante. Fá-lo impondo um ritmo narrativo alongado e reflexivo, sem descurar o desenvolvimento da intriga e a dimensão provocadora da personagem principal.

Ao escolher filmar o drama identitário de outras das vítimas do nazismo, Shortland prova que continua a haver espaço para abordagens inovadoras à II Guerra Mundial e, só por isso, o filme merece uma visualização atenta e interrogativa.

8/10

Ficha Técnica:

Título original: Lore

Realizado por: Cate Shortland

Escrito por: Cate Shortland, Robin Mukherjee, Rachel Seiffert

Elenco: Saskia Rosendhal, Nele Trebs, André Frid, Mika Seisel, Kai-Peter Malina, Ursina Lardi, Hans-Jochen Wagner

Género: Drama

Duração: 109 minutos