Quem pensa que é um filme recente, engana-se. O Outro Lado do Coração ou Rabbit Hole – título original – valeu a Nicole Kidman a nomeação para o Oscar de Melhor Atriz em 2011. A chegada tardia a Portugal pode estar relacionada com a difícil trama que o filme representa.

Oito meses após a morte do filho de Becca (Nicole Kidman) e de Howie (Aaron Eckhart), o casal tenta regressar à normalidade. Envolvidos num turbilhão de emoções onde reina, essencialmente, a raiva, a culpa e a memória, apenas Becca demonstra sentir o sofrimento em relação à perda do filho. É ela que tem, todos os dias, de lidar com os desenhos colados na porta do frigorífico, da roupa ainda no armário, dos brinquedos no quarto. Esses pequenos objetos vão realçando a presença do pequeno Danny e ajudando Becca a afundar-se ainda mais na tristeza. Por outro lado, Howie vê nessa ‘presença’ o conforto de que precisa para ultrapassar a morte do filho.

O casal tenta, então, ultrapassar a dor mas de forma isolada e separada. Enquanto Becca vai entrar em contacto com universos paralelos que, de alguma maneira, ajudam-na a redefinir obstáculos e colmatar a dor, Howie tenta refugiar-se nos braços de outra mulher.

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Apesar do esforço de ambos para reaprenderem a amar-se e a viver um com o outro, o drama vai intensificando-se e, aos poucos, o desgaste das personagens é o desgaste dos próprios espectadores. É a gravidez da irmã de Becca, o esvaziar repentino da casa onde cresceu Danny, o encontro com Jason, o cão Taz que traz nele toda uma culpa, os confrontos com a mãe, a banda desenhada, as sessões de terapia de grupo, a tentativa e consequente falhanço de regresso à normalidade. É, sobretudo, a falta de amor entre eles. A relação, outrora intensa, está agora a ficar gasta.

Mas é também todo esse cansaço emocional que John Cameron Mitchell quis mostrar ao longo de 90 minutos que torna o filme apelativo e que faz com que o espectador queira saber mais; queira acompanhar de perto a vida do casal; como vão superar a morte do filho; como vão arranjar tempo para voltarem a estar juntos como duas pessoas que se amam verdadeiramente; o que vai acontecer a seguir.

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Todo o filme atribui-nos um olhar intimista. É o desvendar da cortina de uma casa silenciosa. De um drama de uns pais que se agarram, ainda, a vídeos do filho que todas as noites assistem para se sentir bem consigo próprios. É tentar abdicar da tristeza para ficar felizes com o que de bom acontece às pessoas que os rodeiam…

Quanto aos atores, Nicole Kidman transmite ao mesmo tempo angústia e paz, o que faz com que exista imediatamente uma ligação entre ela e os espectadores. Aaron Eckhart também mantém as expectativas altas ao representar o pai que tenta, a todo o custo, ajudar a mulher a sair do fundo do poço. 

Adaptado do livro de David Lindsay, Abaire, e vencedor do Prémio Pulitzer na categoria de Drama, este filme não é um filme fácil. No entanto o realizador consegue atribuir alguma sobriedade à forma como a história é contada, evitando e bem, a meu ver, o drama pesado que a maioria dos filmes sobre estes assuntos acarretam. Além disso, este Rabbit Hole põe-nos, certamente, a pensar…

7/10

Ficha Técnica:

Título original: Rabbit Hole

Realização: John Cameron Mitchell

Argumento: David Lindsay-Abaire

Elenco: Aaron EckhartNicole KidmanDianne Wiest, Giancarlo Esposito, Miles Teller, Sandra Oh e Tammy Blanchard

Género: Drama

Duração: 91 minutos