O Campeão do mundo ocidental ©Jorge Gonçalves_10

Há um Campeão no D. Maria II. Ou não.

Sobe a cortina. A vontade de descobrir quem é este campeão cresce à medida que as primeiras palavras ecoam pela Sala Garrett. As luzes estão já acesas e diante de nós, luminosa na noite escura irlandesa, uma taberna está atolada de coisas: pratos, copos, espelhos, passagens que dão a lados desconhecidos sem razão aparente.

Uma interpretação quase irrepreensível do quadro de atores que asseguram o protagonismo e o desenrolar da história acompanha as gargalhadas que o público não hesita em soltar. São poucas as personagens essenciais da história e muitos os atores que a compõem – um contra-senso, parece, nestes tempos de pouco apoio ao teatro produzido em Portugal, mas os aspirantes a atores da Escola Superior de Teatro e Cinema parecem merecer saber o que é pisar o palco do D. Maria II, mesmo que só o façam uma vez.

No espaço cénico, há uma empregada de balcão, filha do dono da taberna, que se apaixona por um jovem que diz “que matou o seu próprio pai” e que se gaba de tal proeza: matar o senhor da terra é um ato heróico nos tempos que correm.

O Campeão do mundo ocidental ©Jorge Gonçalves_6

Em 1871, nasce na Irlanda John Millington Synge, o autor do poético texto que nos é apresentado. Cheio de críticas entrelaçadas no palavreado erudito, o texto entrecruza uma crítica à sociedade pobre e rural daqueles tempos em que uma burguesia em ascensão começava a tomar conta dos campos agrícolas. Tudo parece ser dinheiro, num prenúncio à sociedade capitalista que havia de emergir

Na porta infiltrada no complexo cenário, que dá a passagem para o exterior, uma praia e uma vila onde as mensagens e os acontecimentos passam de boca em boca até ao conhecimento total, entrelaça-se a realidade com a ficção do jovem rapaz que, inocente, tenta ganhar a confiança e conquista os corações das donzelas da aldeia – o campeão do mundo ocidental, cujo significado não é compreensível nesta encenação.

A mentira e a representação vencem nesta obra. Como talvez aconteça ainda hoje. Valoriza-se um assassínio como um acto de rebelião contra os senhores rurais e quem o fez torna-se um prodígio. Mas para isso talvez não fosse preciso uma simples boa interpretação do que nos diz o texto, cujo significado escapa aos mais distraídos.

O Campeão do mundo ocidental(2) ©Jorge Gonçalves_3

Esperava-se um pouco mais de Jorge Silva Melo. É o eterno mal contraproducente de fazer muito bem com muita coisa, num tempo em que cada vez mais se pede simplicidade. Este espectáculo peca por isso mesmo: de criativo tem pouco e de simples muito menos. A enorme quantidade de actores para o pequeno espaço de cenário, bem como o elevado número de pormenores que preenchem uma taberna, numa tentativa de contextualizar a época retratada, para além de pressupor um público ignorante fá-lo sentir-se perdido entre tanto movimento e adereços.

A peça escrita algures pelo século XX tem um potencial quase inimaginável e não pede uma reprodução realista e pormenorizada da sociedade da época: talvez com um aliviar do cenário, bem como de movimentações confusas, também se conseguisse retratar a época. É impressionante como só a linguagem é capaz de o fazer, e parece que Jorge Silva Melo se esqueceu disso.

O Campeão do mundo ocidental(2) ©Jorge Gonçalves_3

Em conjunto, o espetáculo apresentado na Sala Garrett do Teatro Nacional é bom, mas muito o é devido ao texto e à boa interpretação dos actores que a compõem. No mais, impregnados numa linguagem já difícil de compreender muitas vezes, “graças a Deus”, é também difícil perceber para onde olhar e para quem. Tanta coisa em pouco espaço deixa-nos perdidos: um desperdício. O público riu-se com as expressões das personagens principais muito bem conseguidas e com o texto, que o permite. Falta só o resto de que é feito o teatro. Perde-se a ligação com o público e trata-se só de uma reprodução de uma história. O teatro é “sempre frágil, sempre ferido”, falta a simplicidade necessária para curar as feridas. Parece reinar a ideia de que para se fazer teatro “tradicional” é preciso ser-se “tradicional”, o que é de facto uma pena.

O Campeão do Mundo Ocidental não é campeão nenhum, mas é bom para passar uma hora e 40 minutos a rir e a divertir-se. Está em cena na Sala Garrett do Teatro Nacional D. Maria II de 16 de maio a 9 de junho. Apesar de tudo, vale sempre a pena, porque a nossa alma nunca é pequena.

Fotografias cedidas pelo Teatro Nacional D. Maria II.

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