lawrence of arabia

Lawrence of Arabia

Por ocasião do seu 50º aniversário, a extraordinária obra de David Lean chega aos ecrãs de cinema do século XXI numa versão restaurada, e com muito para (re)descobrir. Eis então que, pela mão de um primoroso restauro digital, a história do oficial britânico Thomas Edward Lawrence (aka Lawrence da Arábia) e dos seus feitos na Arábia da I Grande Guerra Mundial vem transparecer para os nossos movimentados dias, e com todo o fausto, um tipo de cinema que hoje já não se faz.

Há dois pensamentos em mente antes de entrar para uma sala de cinema onde sabemos que permaneceremos nas quatro horas seguintes. Em primeiro lugar, o da garantia de que estamos perante um dos mais magníficos e esplendorosos filmes jamais feitos; e, não menos importante, o da esperança de que o restauro se revele efectivamente um apontamento novo na visualização da película – que seja, em suma, algo pelo qual valha a pena sofrer dos joelhos.

Vale. O épico de Lean pode finalmente ser visto por uma nova geração de amantes do cinema, com uma qualidade e detalhe que agigantam o filme. Não é só pela dimensão do ecrã, é mesmo pelo detalhe que a avançada tecnologia de restauro digital 4K permitiu. Para aqueles que estão familiarizados com Lawrence da Arábia, trata-se no fundo de apreciar pormenores fantásticos que anteriormente escapavam. À monumentalidade do filme, acresce uma visualização límpida que lhe vem potenciar o assombro puro dos seus múltiplos cenários.

É sempre reconfortante tomar consciência de que a tecnologia é colocada ao serviço do cinema clássico com rigor e seriedade. Não se trata aqui de uma falácia nem de uma mera estratégia comercial, trata-se realmente de conferir um acréscimo de qualidade à obra original, tornando-a ainda mais merecedora de uma visualização atenta. O último restauro datava de 1988, sendo que o actual vinha sendo levado a cabo desde 2009, o qual já beneficiou dos enormes avanços verificados nesta área nos últimos anos.

O espectáculo épico de Lean é, todo ele, puro deleite. Poderá não ser consensual entre os frequentadores das salas de cinema verem-se compelidos a ir ver um filme com meio século, que lhes poderá provocar problemas ao acordar no dia seguinte. Mas neste caso é com certeza uma experiência a que vale a pena dar uma oportunidade. Lawrence da Arábia é sobretudo um épico para saborear, para nos deixarmos ser propositadamente esmagados pela beleza dos cenários, pelas multidões de figurantes em movimento e, claro, pela mítica banda sonora de Maurice Jarre.

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É a inigualável história de T. E. Lawrence, uma lenda do século XX, um homem admirado no seu tempo e fora dele, cuja fascinante vida redefiniu o mapa político e a balança de poder no Médio Oriente. Um homem intrépido, diferente, uma daquelas figuras cujos feitos estão apenas ao alcance de uns poucos predestinados da História. Ao incentivar e liderar a revolta das tribos árabes contra o inimigo turco ao longo a I Guerra Mundial, T. E. Lawrence contribuiu para a estratégia britânica na guerra e para a derrota final do Império Otomano em 1918.

Profundo conhecedor e admirador da cultura árabe, T. E. Lawrence tornou-se próximo do príncipe Faisal, um dos principais líderes da Revolta Árabe, e futuro primeiro rei do Iraque. Coordenou e executou diversas operações armadas de guerrilha contra os turcos, e foi decisivo em operações militares que levaram, entre outras, à conquista do porto Aqaba e da cidade de Damasco. Estes são dois dos principais episódios retratados pelo filme de David Lean, demonstrativos do carisma da figura de T. E. Lawrence, e da forma como foi capaz de conquistar a confiança da liderança árabe rumo a uma improvável vitória final.

A política franco-britânica de mandatos do pós-guerra viria a desfazer em parte os sonhos de T. E. Lawrence, eliminando a possibilidade de uma união política de povos árabes, com consequências reais que se arrastaram até aos nossos dias. Mas o respeito pela figura, esse, permanece intocável.

Pela temática tratada e pelo elogiável trabalho de restauro, Lawrence da Arábia reaparece-nos hoje em todo o seu esplendor nas salas, numa experiência de grande cinema altamente recomendável tanto para novos como velhos públicos.

9/10

Ficha Técnica:

Título Original: Lawrence of Arabia

Realizador: David Lean

Argumento: Robert Bolt, Michael Wilson

Produção: Sam Spiegel

Elenco: Peter O’Toole, Alec Guiness, Omar Sharif, Anthony Quinn, Jack Hawkins

Género: Drama, Aventura, Biografia

Duração: 216 minutos

 

*Por opção do autor, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.

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