Uma montanha de livros. Uma grua. Fatos de treino fluorescentes. Luzes a meio gás. Efeitos de voz. Uma combinação estranha mas que resulta de uma forma tão boa: Fausto, em cena na Sala Estúdio do Teatro Nacional D. Maria II até 2 de junho.

A estratégia passa por misturar Fernando Pessoa e Christopher Marlowe, reciclar a lenda popular alemã e dar-lhe uma roupagem contemporânea, provando assim que há histórias que rasgam o tempo nas questões que abordam.

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Fausto (Pedro Gil) é um sábio que procura no mundo e nos livros todo o conhecimento que lhe é possível. Contudo, sente que lhe falta o reconhecimento e a gratificação imediata pelas suas extraordinárias capacidades cognitivas. Tudo leva tempo demais, a vida parece pequena para quem quer deixar a sua marca no mundo.

Sem certezas face ao futuro e duvidoso quanto à possibilidade de existência do Inferno, Fausto decide fazer um pacto com o Diabo através do seu intermediário Mefistófeles (Pedro Lacerda). O acordo assinado a sangue é claro: Fausto obtém uma vida – supostamente – plena, daí a 24 anos o Diabo virá buscar a sua alma para o Inferno.

O acordo acaba por não se revelar tão bom como Fausto estava à espera e a partir daí inicia-se uma luta da qual não há fuga possível. Cego pela arrogância e pela busca de perfeição, o protagonista logo se apercebe que não há volta a dar.

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Fausto, encenada por Francisco Salgado, explora ao máximo o potencial do cenário, das luzes e dos dispositivos sonoros. Tudo é feito com uma preocupação estética e simbólica que extravasa na simplicidade como a história é contada. Envolvemo-nos não só pelas palavras mas também pelos gestos, pelas interações e pela exploração constante dos elementos do cenário.

À dimensão visual juntemos um texto que, apesar de não recorrer à estrutura linguística atual em alguns momentos, é claro e deixa seguir a história sem rodeios. Se houvesse risco de separação face àquilo que acontece em palco, eis que o registo humorístico contra-ataca e prende os mais céticos.

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A diferença de Fausto está na sua capacidade de entreter e fazer refletir em simultâneo. Mais do que o caso particular do protagonista, o objetivo é que todos os espetadores saiam da peça a estabelecer um paralelo entre o passado e o presente.

Porque Faustos existem cada vez mais na sociedade contemporânea onde o domínio da informação é um requisito essencial. Até que ponto estaremos dispostos a vender a nossa alma como fez Fausto? Perceberemos que é impossível a plenitude? Seremos nós Fausto ou o próprio Diabo?

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FOTOGRAFIA: André Cardoso