Depois de, em 2011, A Árvore da Vida ter chegado aos cinemas para dividir opiniões, mas também para oferecer um filme com uma dimensão muito poderosa, Malick regressou com A Essência do Amor (To the Wonder). A espera não foi grande – principalmente se tivermos em conta filmes anteriores, já que entre Dias do Paraíso e A Barreira Invisível tivemos de esperar 20 anos -, mas o resultado não é tão marcante como se poderia fazer esperar.

O amor e a fé são o centro da questão, num filme, apesar de tudo, cheio de características que o tornam singular no cinema actual. A espiritualidade continua a envolver o trabalho de Malick que, mais uma vez, convida o espectador a reflectir sobre o que vê no ecrã mas, ao mesmo tempo, sobre si mesmo e a sua forma de encarar a vida.

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A Essência do Amor centra-se na relação entre Neil e Marina, uma mulher europeia que viajou para os Estados Unidos para estar com ele. Contudo, o reencontro com Jane, que conhece desde jovem, faz reacender uma velha chama. A par destes três protagonistas, e relacionado com eles surge o Padre local, que coloca uma série de questões a Deus.

Não tão brilhante como o seu antecessor, A Essência do Amor não deixa contudo de cativar atenções, seja pelo estilo, sempre profundo, do realizador que nos consegue fazer arrepiar. Mais uma vez, Malick joga com os nossos sentidos e com as nossas emoções – seja através da grandiosidade das imagens que nos oferece, seja pela realidade das relações humanas que filma. Nesta longa-metragem, sente-se que o rumo não está totalmente definido – muito possivelmente será essa a vontade do realizador -, no entanto, um série de más opções – a montagem muito contribui para tal – deixarão o espectador sem norte a partir da metade da película.

Ao mesmo tempo, as personagens constroem, ou pelo menos ajudam a construir, a narrativa. Neil parece-nos, desde o primeiro momento, incapaz de amar, distante e de poucas palavras ou gestos de carinho. Por outro lado, ambas as mulheres protagonistas – Marina e Jane – apesar das claras diferenças e experiências que as distinguem, são apaixonadas e entregam-se por inteiro à pessoa amada. A fé entra em jogo com o surgimento do Padre Quintana, que atravessa uma crise e se questiona a si mesmo, pedindo a Deus provas da sua verdadeira existência e bondade. A Quintana ligam-se todas as outras personagens – Marina (presença assídua na Igreja) e Jane, muito religiosas e crentes -, ao contrário de Neil que aparenta não ter fé.

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Curiosa é a atenção dada às duas mulheres desta película. Junto de Neil, na grande maioria das vezes, são Marina e Jane as grandes protagonistas da cena, com a câmara a foca-las a elas e colocando-o quase como um mero elemento – aparecendo diversas vezes cortado ou de costas. Esta opção parece vincar uma ideia, já concebida em A Árvore da Vida, da mulher como uma espécie de divindade ou de um ser com sentimentos puros e verdadeiros – pelo menos nos filmes de Malick.

São muitos os tipos de amor presentes no novo filme de Terrence Malick. Para além do amor romântico e da paixão, aqui encontramos o amor de mãe para filha e o amor de e a Deus – que tanto é realçado por uma das frases mais marcantes de A Essência do Amor: “O amor que nos ama”. O amor pode salvar ou destruir e é isso que Malick nos mostra, sempre com uma subtileza que deixa de lado clichés. O final, numa espécie de redenção, faz-nos tirar as nossas próprias conclusões.

Tecnicamente – e apesar dos problemas já apontados à montagem -, Malick continua a ser único pelos sentidos que faz despertar na plateia que assiste ao seu filme. Ao mesmo tempo, a direcção de fotografia, a cargo de Emmanuel Lubezki, volta a fazer um trabalho fabuloso. Os cenários são deslumbrantes, filmados e levados a um patamar quase divino. A câmara, como o realizador nos tem acostumado, flui, desliza, e realiza os movimentos mais inacreditáveis, contribuindo para a total envolvência do espectador, que passeia à beira mar numa praia em França, ou corre por entre as searas em Oklahoma.

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O elenco conta com quatro nomes sonantes: Olga Kurylenko na pele de Marina, Ben Affleck como Neil, Rachel McAdams encarna Jane e Javier Bardem é o Padre Quintana. Kurylenko oferece uma interpretação interessante, na pele de uma mulher apaixonada – por Neil e pela filha Tatiana, de quem sente visível falta -, extrovertida e impulsiva. Por seu lado, Ben Affleck não se destaca especialmente, na pele deste homem distante, descrente em Deus e, aparentemente, no amor. Todavia, o verdadeiro destaque vai para Rachel McAdams no papel de Jane, uma mulher doce e muito mais contida do que o habitual na actriz. O pouco tempo de antena a que McAdams tem direito faz as nossas delícias e ser-nos-á impossível não desejar que a sua personagem regresse. Também Bardem merece elogios na pele deste padre que atravessa uma crise de fé, perante toda a miséria e desânimo com que vai lidando.

A Essência do Amor é, como a obra de Malick, profundo e repleto de espiritualidade. Apesar das fraquezas que se lhe possam apontar, o filme proporciona uma experiência muito pessoal e que terá um significado especial em cada um que o assista.

7/10

Ficha Técnica:

Título Original: To the Wonder

Realizador: Terrence Malick

Argumento: Terrence Malick

Elenco: Olga Kurylenko, Ben Affleck, Rachel McAdams, Javier Bardem

Género: Drama, Romance

Duração: 112 minutos

Crítica escrita por: Inês Moreira Santos

*Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.