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Gabriel o Pensador: um concerto “Sem Crise”

O Teatro Tivoli BBVA recebeu, ontem a noite, o concerto de apresentação do novo trabalho de Gabriel o Pensador. Sem Crise é o álbum que marca o regresso do rapper brasileiro ao panorama musical.  O público impaciente com o atraso aplaudia e gritava exigindo a presença do músico no palco. Ao som dos protestos a banda começa a tocar e ouve-se os primeiros versos de Sem Crise – “Eu ‘tava muito busy mas aqui não tem crise/Aqui só tem crazy” – música que dá título ao álbum, e a escolhida para o arranque.  De seguida veio Linhas Tortas, que também integra o novo trabalho. As novas composições,  ainda pouco conhecidas do grande público, não permitiu que o concerto tivesse um arranque grandioso.  Foi com Cachimbo da paz, um dos clássicos do rapper carioca – tema de Quebra-Cabeça (1997),  que a maresia invadiu o Tivoli. O público cantava e acompanhava, com os braços no ar, o ritmo da música.  A história do cachimbo da paz abriu espaço para as músicas mais politizadas como Nunca Serão e Pátria que me pariu,  temas respetivos de Sem Crise e Quebra-Cabeça.

Lavagem Cerebral , tema de Gabriel, o Pensador (1993), e Tás a ver?, música do álbum Cavaleiro Andante (2005), traz ao palco um Gabriel tolerante, preocupado com os problemas de inclusão social. O rapper brasileiro aproveita o momento para falar e saudar os “irmãos africanos e lusitanos do outro lado do oceano”.

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O pessoal do Porto pediu para tocar esta música em homenagem ao jovem que morreu. Descansa em paz Marlon”, foi assim que Gabriel o Pensador apresentou a música Pra onde vai?, do álbum Quebra-Cabeça. O tema mostrou que Gabriel é, para além de rapper, um grande comunicador. A emoção na sua voz, conjugada com o sentimento da letra e a melancolia do ritmo, fez do tema um dos momentos altos da noite, tendo sido aplaudido de pé.

De pé o público estava e, de pé continuou para assistir o improviso. Alguns membros da banda, juntamente com Gabriel, fizeram rondas de improvisações. O Tivoli transformou-se num clube underground: no palco os Mc’s, com as suas rimas, incitaram o público, que com as mãos no ar gritaram “oh, oh”. “Levanta a mão mais uma vez/Porque eu quero sentir a energia de vocês”, foram com estas palavras que Gabriel o Pensador concluiu este momento completamente dedicado ao hip hop old school.

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Palavras Repetidas,  de Cavaleiro Andante (2005), marcou o regresso após uma pequena pausa. De seguida veio Surfista SolitárioSem Crise (2013), com um refrão nada solitário –  foi acompanhado, e no ritmo certo, por todo o público.  Seguiu-se Boca com Boca e Tudo certo, temas do trabalho mais recente de Gabriel o Pensador.

A versatilidade musical de Gabriel ficou comprovada com  a sua nova composição, Bate na palma da mão. Uma música com uma forte levada de pandeiro e acordeão, resultando numa mistura bem brasileira que inclui “hip hop, forró e baião”.

O Rap do Feio, tema de Cavalheiro Andante (2005), deu lugar ao tema 2345meia78: um clássico de 1997, tema de Quebra-Cabeça, que contou com a participação especial de duas raparigas que estavam a assistir. O refrão da música – “2345meia78!/Tá na hora de molhar o biscoito/Eu tô no osso mas eu não me canso/Tá na hora de afogar o ganso” – foi cantado com convicção pelos fãs presentes no Tivoli.

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Num estilo mais  voltado para o reggae seguiram-se as músicas Astronauta, música de 1999,  do álbum  Nádegas a declarar e uma versão portuguesa de Get Up , composição de Bob Marley. Eu e a tábua, presente em Quebra-Cabeça (1997), veio logo atrás.  No refrão Gabriel o Pensador deu dois passos, não rumo ao paraíso, mas sim em direção ao público. Quando voltou ao palco veio acompanhado por um fã. Deu-se novamente início a mais um momento de hip hop puro e duro – rondas de improvisação.  O concerto acabou com a  Festa da música, tema de Quebra-Cabeça (1997).

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Os fãs presentes queriam mais, por isso começaram a gritar e a bater os pés, fazendo com que o Tivoli estremecesse. A banda e, Gabriel o Pensador, voltaram para um pequeno encore com os temas Resto do Mundo, tema de 1993, de Gabriel o PensadorFDP música do álbum Ainda é só o começo (1995).

Se liga aí e Até quando?, temas finais e, os mais emblemáticos do álbum de 2001,  Seja você mesmo (mas não seja sempre o mesmo),  encerraram o concerto.  Sob o refrão  “Até quando você vai levando? (Porrada, porrada)/Até quando você vai ser saco de porrada”, Gabriel anseia por “mudanças positivas para Portugal”.

Gabriel o Pensador mostrou neste show que é muito mais do que um simples rapper. É compositor, é músico, é contador de estórias e é, acima de tudo, um comunicador. Gabriel Contino é um músico capaz vestir várias peles. Passa pelo hip hop politizado, faz uma paragem num pop mais comercial, nunca esquecendo daquele namoro com a brasilidade, mas sendo sempre fiel ao seu estilo. É mesmo caso para dizer que o artista brasileiro é  ele mesmo, mas não é sempre o mesmo, por isso é que vive a vida sem crise.

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