Deerhunter

Deerhunter – Monomania

Por vezes, o desejo de alcançar o todo através do pouco dá maus resultados. O novo disco dos Deerhunter pode ser visto como um exemplo paradigmático disso mesmo; a banda encabeçada por Bradford Cox tem em Monomania, quinto longa-duração dos norte-americanos, uma viagem não desastrada, mas bastante desajeitada e desleixada pela vontade de muito querer ser. O resultado disso? Já lá vamos.

É quase unânime dizer-se que os Deerhunter são um dos mais sonantes nomes do panorama indie, e a verdade é que a banda sempre fez por merecer essa posição; a sua discografia, em toda a sua plenitude, sempre enalteceu uma regularidade qualitativa invejável. Além da qualidade, a maneira como a banda exumava por si mesma à procura da sua própria identidade também era um enorme foco de interesse. Por tudo isso e mais alguma coisa (onde se inclui o facto da banda do senhor do corpo estranho ser uma das minhas bandas actuais favoritas), as minhas expetactivas para este novo registo estavam bem lá em cima.

As expetactivas mantiveram-se bem lá no topo até ao momento em que dei por mim a ouvir Monomania pela primeira vez. Às primeiras três faixas dei um simples ok, a partir daí começou a dar-se uma das minhas maiores desilusões musicais dos últimos tempos; existe muita coisa má e no sítio errado, mas o pior e aquilo que mais me custou foi a maneira como o conceito de disco foi esquecido pelos Deerhunter. Aqui não se monta um puzzle de doze peças, aqui existem doze peças soltas sem que haja uma conexão possível entre elas.

Não será hiperbolismo se dissermos que entropia é a palavra de ordem para este disco, por muito paradoxal que esta frase possa parecer. E a verdade é que o nível entrópico deste registo não se fica apenas pelas peças que o compõem; o som está sujo, fruto da produção do lo-fi de Monomania. As guitarras soam ocasionalmente mais arranhadas que tocadas. E, um dos maiores pecados do registo, a maneira como os Deerhunter exploram novos caminhos sonoros, sobretudo se analisarmos ao átomo o trio Pensacola, Dream Captain e Blue Agent, acaba-se por revelar um desastre quase tão grande como aquele em que se encontra o país.

É, sobretudo, aqui que os Deerhunter nos mostram que querem ser muita coisa ao mesmo tempo. No fim de contas? No fim de contas acabam por ser muito pouco, com uma qualidade ultrapassável por meros quinze segundos de qualquer outro registo seu. Há todo um nível tamanho de desordem e pouca coisa aqui está colocada no seu sítio correcto. Até o alinhamento do disco falha: primeiro três músicas que nos soam retiradas de Cryptograms, depois novas três músicas (aquele trio acima referido) que tentam inovar o próprio som dos Deerhunter, mas que caem ali desamparadas, de pára-quedas, que pouco inovam e que tentam um homicídio às próprias influências country (sim, isso mesmo) que lhes serviram de génese e etc. (sendo que pelo meio há uma própria mixórdia cronológica pela obra dos americanos).

É certo que este é o disco mais complexo que os Deerhunter alguma vez fizeram, e isso reflecte-se na dificuldade que temos em digeri-lo, mas a verdade é que a trabalhar com a filosofia estética de som que se trabalhou em Monomania (e esquecendo tudo o resto) só existiam dois caminhos possíveis: um deles passaria por ter músicas de maior duração e fazer de Monomania um disco mais num campo das ambiências, o outro caminho, e aquele que mais se aproxima do legado dos Deerhunter, era explorar aquilo que aqui falta (o barulho) e fazer um disco mais à lá Turn It Up Faggot, rubricando músicas como aquela que serviu de aperitivo para este disco, Monomania. E acaba por ser nisso que Monomania tem a sua salvação: nos momentos. Momentos como Leather Jacket II, The Missing, Sleepwalking, Monomania, Nitebike e Punk (La Vie Antérieure). Momentos que embora não sejam transcendentes, nos elucidam sobre quem e o que são os Deerhunter.

Em suma, Monomania é uma desilusão de todo o tamanho e embora esteja recheado de alguns momentos que estão perto de estar no campo daquilo que é execrável, consegue ter certos argumentos que nos conseguem fazer querer ouvi-lo novamente para confirmar aquilo que na verdade é. Não hesito em apontá-lo como o pior registo de sempre por parte dos Deerhunter, porque uma música não o é se por lá flutuarem apenas notas soltas e não haver nada que as alie. E aqui não flutuam notas, mas flutuam ideias. Flutuam músicas que não se conseguem encontrar nelas mesmas nem em outras. E isso é um tiro no escuro. Saudades de tudo aquilo que é Deerhunter e não é Monomania.

Nota final: 5.5/10

*Este artigo foi redigido, por opção do autor, ao abrigo do acordo ortográfico de 1945

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