Não é por acaso todo o sucesso conquistado pelos Deolinda, não só em Portugal, como além fronteiras. Ontem, o Coliseu dos Recreios, em Lisboa, recebeu o estilo único e a energia contagiante de Ana Bacalhau e companhia, para quase duas horas de um concerto com tempo e espaço para temas dos três álbuns de originais, com novas sonoridades e músicos convidados.

Com cerca de vinte minutos de atraso, a banda subiu ao palco, vestida de negro, e foi com Algo Novo – tema que abre Mundo Pequenino, o seu mais recente disco – que a noite começou. Fazendo jus à letra, o melhor ainda estava para vir. Se, em disco,  Mundo Pequenino pode não convencer logo nas primeiras audições, ao vivo os temas ganham uma nova vida, com a ajuda da secção de metais e do piano de Joana Sá, deixando toda a gente rendida. Foi o caso de Concordância e Gente Torta, temas que se seguiram.

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Com a percussão de Sérgio Nascimento e António Serginho, foi tempo para Não tenho mais razões, tema de Dois Selos e um Carimbo (2010), que pôs todo o Coliseu a dançar com o rufar dos tambores. De seguida, Medo de mim foi um excelente exemplo da versatilidade vocal de Ana Bacalhau, cantando em diferentes dinâmicas numa afinação poderosíssima. Apesar de ter sido lançado há menos de dois meses, o público do Coliseu dos Recreios mostrou já ter decorado alguns dos temas de Mundo Pequenino, como Pois foi, uma “pequena vingança feminina” à indiferença por parte do sexo oposto. Passou por mim e sorriu marcou um dos momentos mais intimistas e arrepiantes da noite, mas a energia alegre voltou logo de seguida, com Há-de Passar, música que canta o conformismo tipicamente português e a súbita vontade de mudar de rumo que, lá está, acaba sempre por passar.

Mal por mal não fugiu à regra dos temas mais antigos, tendo sido cantado em coro por toda a plateia das portas de Santo Antão, ainda que os lugares sentados limitassem as danças, cenário que continuou para o clássico single Um Contra o Outro“Esta é para todos os pequeninos deste mundo, que nos tentam calar e não conseguem”, disse Ana Bacalhau introduzindo Fade Out, tema menos conhecido pelo público, ao contrário de Fado Toninho, provavelmente a canção que fez a grande maioria da plateia conhecer Deolinda. “Muita forte!”, comentou Ana durante o tema, impressionada com a afinação do público lisboeta que cantava de cor e a plenos pulmões este tema.

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Num tom provocatório face aos “puristas do fado”, foi tempo para Fiscal do Fado, tema interrompido por vários “Ah, fadista!” dirigidos a Ana Bacalhau. Fon Fon Fon pôs o Coliseu dos Recreios a abanar, tendo direito até à presença de uma tuba e de um tubista, como o descrito na canção. Seguiram-se A Problemática Colocação de um Mastro e Semáforo da João XXI, que antecederam um dos pontos altos da noite: Não Ouviste Nada, em dueto com António Zambujo, músico muito admirado pelos Deolinda, não só como cantor (tendo “um verdadeiro Stradivarius na goela”), mas também como amigo. “A lambreta hoje ficou em casa, moro aqui perto!”, respondeu António às brincadeiras do público. Impossível não se ficar arrepiado com a cumplicidade entre os dois cantores, como que numa partilha de segredos, numa harmonia vocal absolutamente irrepreensível.

Continuando no novo álbum, houve ainda tempo para Balanço e para o single Seja Agora, com a sua aura de positivismo a irradiar todo o Coliseu. Depois dos agradecimentos a todos os músicos convidados e a toda a equipa de apoio à banda, foi tempo para Movimento Perpétuo Associativo na suposta reta final do concerto (mal sabíamos que o encore teria dose tripla). “Quem não abanar a anca, ou tem uma boa desculpa ou é um ovo podre!” desafiou Ana Bacalhau em Musiquinha. De facto, é impossível não abanar a anca ao som deste tema.

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A banda sairia de palco pela primeira vez, mas rapidamente voltaria para Clandestino e Doidos, temas aplaudidos de pé por todo o Coliseu durante a segunda saída de palco do grupo. “Deixaram-me sem palavras, o que é raro!”, comentou, emocionada, Ana Bacalhau, antes do tema Quem tenha pressa. Personificando a letra, houve quem “fosse andando”, mas a banda ainda voltou uma terceira vez, possivelmente para aquele que foi o melhor momento de todo o concerto: a repetição de Musiquinha, com Ana a descalçar-se e com todo o Coliseu de pé, a abanar a anca como o tema merece.

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Os Deolinda provaram, mais uma vez, todo o seu potencial. Sendo uma “família feliz”, a combinação perfeita entre as letras de Pedro da Silva Martins, a voz poderosa e a energia única de Ana Bacalhau em palco, a juntar ao talento de Luís José Martins e José Pedro Leitão, ao qual se juntaram António Zambujo, Sérgio Nascimento (“o quinto Deolindo”), António Serginho, teclas e metais, resultou numa combinação bombástica, que torna merecido todo o sucesso do coletivo por todo o Mundo. É um tremendo orgulho ver a música portuguesa singrar além fronteiras e os vários estrangeiros que estiveram a assistir ao concerto no Coliseu dos Recreios. Afinal, o Mundo Pequenino dos Deolinda é bem maior do que pensávamos.

Fotografias por Sónia Pena