Little Boots, nome artístico pelo qual é conhecida Victoria Hesketh, desapareceu durante muito tempo. Apresentou-se à indústria musical em 2009, com o primeiro disco batizado como Hands, depois de ficar em primeiro lugar na escolha dos críticos na lista Sound of da BBC. Demorou quatro anos para lançar um novo disco e distraiu o público com apenas lançamentos de músicas e telediscos a acompanhar, acabando por plantar a questão: o que aconteceu à Little Boots?

Torna-se arriscado afastar-se do público durante tanto tempo com apenas um disco no bolso, quando os ouvintes da era digital exigem aos artistas novos discos e reinvenções a uma velocidade frenética e em tempo recorde, sem paciência para a inspiração e até para a respiração. Para Nocturnes, o novo álbum de Little Boots, a cantora foi buscar influências à disco music, desapegando-se da electropop que caraterizou tanto o Hands, e são poucos os produtores que estão por detrás neste novo trabalho.

Não há nada de complicado nas letras escritas por Little Boots. Motorway abre o disco num ambiente fantasmagórico e eletrónico e ficam unicamente na cabeça as palavras “meet me on the motorway” como se nada mais importasse. O mesmo acontece com as restantes nove músicas de Nocturnes. Ouve-se demasiadas vezes “I hear your voice like a broken record” no single Broken Record ou a frase “shake until your heart breaks” na remisturada Shake, um dos pontos mais altos e dançantes deste álbum. As dez canções de Nocturnes contêm frases elaboradas, posicionadas e são repetidas vezes sem conta para ficarem coladas no pensamento dos ouvintes, o que não é necessariamente mau. Não é fácil cozinhar um álbum inteligente, subtil e com capacidade para ser colocado nas pistas de dança. Nocturnes está longe de ser um disco cheio de adornos sonoros e poluído com berreiro e efeitos como muitas cantoras fazem, como Lady Gaga com o seu Born This Way, ficando assim coladas ao mercado mainstream e prontas para serem um produto de vendas recheado de sucesso.

Nocturnes photo LittleBoots-Nocturnes_zps6bceebbc.jpg

Até chegar a Beat Beat, confundida com uma canção perdida da Madonna nos anos 80 ou com qualquer uma da Kylie Minogue, há minutos extasiados e mais calmos na sonoridade e uma referência constante à noite, aos clubes prontos para receber seres humanos com vontade de dançar e aos desgostos amorosos. Every Night I Say a Prayer, produzida por um dos elementos da banda Hercules and Love Affairs, é o exemplo perfeito da mistura de desgostos amorosos e as pistas de dança com música disco. E é a partir desta sexta canção, num disco com dez músicas, que o ouvinte entra num terreno mais calmo. Crescendo serve como o início de uma pista de aterragem, depois do êxtase alcançado com as músicas anteriores, e Strangers serve para acalmar graças à sonoridade eletrónica mais calma. “Cause we dance like strangers, we dance like strangers to night” é cantado constante por Hesketh e serve como forma de preparação para uma pequena viagem ao seu interior.

All for You e Satellites não constituem os pontos mais altos de Nocturnes, só contribuem para torna-lo num álbum relativamente calmo mas pronto para ser colocado para as pistas de dança de qualquer clube, longe das músicas comerciais. Os êxtases ficaram nas primeiras canções, como é o caso de Confusion, Broken Record ou com a perfeita Shake.

Little Boots não regressou com um disco perfeito. Está recheada de letras simples e sem complexidade, com uma sonoridade longe de ser fabricada para um elevado número de ouvintes. As inspirações nas grandes estrelas da disco music ou mesmo nas bandas atuais do género e também da música eletrónica (como é o caso dos Azari & III ou mesmo dos Hercules and Love Affairs) estão bem presentes. Nocturnes não é disco para ser colocado no mercado mainstream mas as canções têm a mesma fórmula do universo da pop: são feitas para se colarem aos pensamentos de qualquer ser humano e são, consequentemente, ouvidas demasiadas vezes.

Nocturnes é colocado à venda a partir do dia 5 mas podes ouvir aqui, em stream, todo o álbum.

Classificação final: 7.5/10