Nasceram no Reino Unido no final dos anos 60 como protótipo de banda de blues, mas depressa se tornaram num dos maiores êxitos de sempre na história da música popular. Os Fleetwood Mac sobreviveram ao constante abandono de vários membros, ao insucesso de alguns álbuns e às graves dissidências no seio da própria banda ao longo de mais de quarenta anos. Lançaram na passada terça-feira o EP Extended Play, que marca o seu regresso, depois de mais de uma década praticamente inativa. O Espalha Factos viajou por uma das histórias mais conturbadas e confusas da música popular, percorrendo os êxitos e fracassos desde os primeiros passos da banda até hoje.

As quatro novas faixas da banda são bem diferentes entre si e representam, de certa forma, as mudanças recorrentes desta banda com mais de quarenta anos que aqui colocamos em perspectiva. Enquanto It Takes Time experimenta um Lindsey Buckingham a solo, acompanhado apenas pelo piano, algo de novo na banda, Sad Angel, Miss Fantasy e Without You vão beber dos Fleetwood das décadas de 70 e 80 e podiam muito bem passar como músicas retiradas de Rumours ou Tusk.

httpv://www.youtube.com/watch?v=pG34ZycDMbw

A música The Chain, integra o histórico Rumours e não foi um dos singles do álbum de 1977 mas, nem assim, deixou de ficar conhecida como o hino do grupo. The Chain expressa a vontade comum de Mick Fleetwood, John McVie, Christine McVie, Lindsey Buckingham e Stevie Nicks em continuar nos Fleetwood Mac, mesmo quando as restantes músicas do álbum constituíam ataques diretos de uns membros para outros. Até hoje, apenas Christine McVie deixou esta “corrente”. O restante alinhamento clássico continua a reunir-se de tempo a tempo para produzir novas músicas e relembrar as antigas.

Uma banda de blues

Apesar de serem os elementos integrantes mais conhecidos, também por terem sido os que alcançaram maior reconhecimento mainstream, os Fleetwood Mac nasceram num contexto bem diferente, com músicos e um género irreconhecível daquele que vieram mais tarde a assumir e com o qual identificamos geralmente a banda.

Elementos comuns entre a atualidade e as suas origens só mesmo o baterista Mick Fleetwood, um dos membros fundadores, e John McVie, baixista que se juntou à banda semanas mais tarde. Jeremy Spencer e Peter Green integraram também o grupo dos fundadores e juntos deram os primeiros concertos.

Fleetwood-Mac

John McVie, Mick Fleetwood, Peter Green, Jeremy Spencer e Danny Kirwan (1970)

Guitarra e a parte vocal ficaram entregues a Peter Green, cuja influência no processo criativo foi tão significativa que a banda chegou mesmo a ser conhecida pelo nome Peter Green’s Fleetwood Mac, numa fase inicial. Com a saída de Green e Spencer, no final de 1970, muitos outros artistas passaram pela banda até 1974: exemplo de Danny Kirwan, Bob Welch, Bob Weston e ainda Christine McVie, esposa de John McVie, que integrou oficialmente a banda desde 1970 e acabou por prolongar por mais tempo a sua estadia que os restantes.

Este foi o primeiro momento de grande sucesso que os Fleetwood Mac conheceram, com singles como Need Your Love So Bad, o instrumental Albatross e Oh Well, entre outros singles, que ultrapassaram surpreendentemente os Beatles nos tops da Grã-Bretanha e garantiram à banda o alcance de um estatuto considerável na Europa e Estados Unidos.

httpv://www.youtube.com/watch?v=Viqr6KHwJjc

Por esta altura, o conteúdo musical estava bastante distante dos traços pop que a banda viria a assumir. Nos três primeiros álbuns produzidos – o álbum homónimo, Mr. Wonderful (ambos de 1968) e Then Play On (1969) – nota-se bem a influência dos blues ingleses de finais da década. Este foi, de resto, um período muito produtivo para a banda: de 1968 até 1974 os Fleetwood Mac lançaram nove álbuns de originais.

Los Angeles e a constituição clássica da banda

O ano de 1974 trouxe mudanças decisivas para os Fleetwood Mac. Depois dos consecutivos abandonos de guitarristas e vocalistas, a banda então formada por Mick Fleetwood, John McVie e Christine McVie parte para Los Angeles à procura de um novo guitarrista.

Não encontrariam apenas um substituto, mas sim dois, que vieram a constituir a formação “clássica” dos Fleetwood Mac e alteraram profundamente o rumo da banda. Na altura, Lindsey Buckingham e Stevie Nicks trabalhavam como empregados de mesa e gravavam as primeiras músicas em conjunto. Mick Fleetwood ouviu acidentalmente alguns desses demos e convidou o casal a entrar no seu projecto.

Estava então constituído um grupo peculiar para a época, não só pelo facto de se tratar de uma banda rock com duas mulheres, mais ainda por ser formada por dois casais.

Ironicamente, os membros que já pertenciam à banda e que chegaram aos Estados Unidos, vindos de Londres foram os que tiveram menor impacto nas direcções que a banda percorreu nos anos seguintes. As sonoridades do folk-rock americano dos anos 70 na guitarra de Buckingham aliada à voz característica do rock & roll e forte presença em palco de Nicks definiram os novos Fleetwood Mac. Como John McVie confirmou em 2009, em entrevista à BBC: “Naquela altura, mantivemos a bateria e o baixo o mais simples possível, e deixámos brilhar as vozes e a guitarra de Lindsey”.

httpv://www.youtube.com/watch?v=MtPyk8_onO8

O primeiro trabalho desta banda regenerada foi um novo álbum homónimo em 1975, que contou com os êxitos Rhiannon ou Say You Love Me e alcançou os primeiros lugares nos tops da Billboard, foi platina por cinco vezes nos Estados Unidos e antecedeu o momento incontornável da história dos Fleetwood Mac: o álbum Rumours, de 1977.

Em Rumours, os Fleetwood Mac transformaram os seus tumultos privados em arte pública, melódica e brilhante”, escrevia a Rolling Stone em Maio de 2012. De facto, enquanto Rumours batia recordes de vendas (mais de 40 milhões de vendas em todo o mundo, o 9º álbum mais vendido de sempre até à data) e vencia o Grammy de melhor álbum em 1978. Porém, as relações pessoais dentro da banda definhavam: no tempo que decorreu desde 1975 até ao lançamento de Rumours, os McVies divorciaram-se, Fleetwood separou-se da sua mulher, e Lindsey Buckingham e Stevie Nicks terminaram a complicada relação.

O contexto pessoal crítico em que o álbum foi concebido definiu as suas linhas principais e conferiu-lhe maior popularidade: Rumours é um conjunto de composições musicais de um elemento da banda para outro. São os exemplos dos êxitos Go Your Own Way (de Lindsey Buckingham), Dreams (de Stevie Nicks),  Don’t Stop; You Make Loving Fun (ambos de Christine McVie) e The Chain (a única canção  desse álbum assinada por todos os elementos).

httpv://www.youtube.com/watch?v=0GN2kpBoFs4

Se os produtores dos Fleetwood Mac esperavam uma continuação confortável de Rumours no trabalho seguinte, a banda fez exactamente o contrário em Tusk (1979), um álbum experimental em que Buckingham tanto investiu, influenciado pelas bandas new wave, folk-rock e punk-rock que então emergiam nos Estados Unidos. Apesar de tanta variedade e do sucesso de alguns singles (Sara ou Sisters of the Moon) Tusk foi considerado um fracasso, não só por ter ficado muito aquém dos resultados de Rumours, mas também pelos custos envolvidos, tendo sido um dos álbuns rock mais dispendiosos de sempre.

O insucesso de Tusk e as duras críticas ao experimentalismo exagerado de Buckingham por parte da imprensa, promotores da banda e dos próprios colegas, levaram a um regresso ao estilo convencional no álbum de estúdio que se seguiu, Mirage (1982), altura em que os Fleetwood Mac demonstravam já alguma desmotivação e saturação e preferiam apostar nas suas carreiras a solo, com destaque para os trabalhos discográficos de Stevie Nicks e Christine McVie.

httpv://www.youtube.com/watch?v=UwGQKuUeQC8

Decisões e Indecisões dos anos 80

Depois de cinco anos fora de actividade, o alinhamento de Rumours reúne-se novamente para gravar um novo álbum em 1987, Tango in the Night, este que foi o último trabalho de estúdio a alcançar relevância comercial. Após esta reunião, Buckingham abandona a banda e é substituído pelos guitarristas Billy Burnette e Rick Vitto, mudanças bem recebidas pela Rolling Stone: “Burnette e Vitto são o melhor que podia ter acontecido aos Fleetwood Mac”. Esta nova formação não alcança, no entanto, grande sucesso, e depois da saída anunciada de Christine McVie e Stevie Nicks em 1991, os Fleetwood Mac estão novamente irreconhecíveis e o colapso da banda faz-se adivinhar.

É o convite de Bill Clinton aos cinco elementos clássicos dos Fleetwood Mac, em 1993, para cantar o seu hino da campanha eleitoral, Don’t Stop, que os vai inspirar a voltar a trabalhar em conjunto. O êxito não advém, no entanto, do novo álbum de originais de 1995, mas sim de um álbum ao vivo dois anos mais tarde, The Dance, que vai voltar a colocar a banda nos tops internacionais e popularizar alguns temas antigos até então ignorados, como Landslide (1975) e Silver Springs (1977).

httpv://www.youtube.com/watch?v=NsLykJ17Oxc

1998 é o ano em que os Fleetwood Mac são reconhecidos pelo Rock and Roll Hall of Fame, actuam nos Grammys e recebem um BRIT Award. Este é também o ano em que Christine McVie abandona permanentemente da banda, com o propósito de se focar na sua carreira.

Os Fleetwood do novo milénio

O início do novo século trouxe à banda o último álbum de originais, lançado em 2003: Say You Will. Desde então, realizaram-se algumas tours, em 2004 e 2009. Em abril do ano passado, Mick Fleetwood expressava, em entrevista à Playboy o seu receio em não voltar a reunir os Fleetwood Mac e culpava directamente Stevie Nicks e Lindsey Buckingham, pelos “anos de atraso causados pelas suas carreiras a solo”.

Um ano depois, não só os Fleetwood Mac se encontram numa tour mundial, mas lançaram também as primeiras quatro músicas originais em dez anos esta terça-feira, 30 de abril. O novo EP, Extended Play foi lançado sem qualquer aviso prévio e já alcançou o top 10 das vendas digitais do iTunes.

Os atritos internos e o passar do tempo parecem não afetar esta banda mutante, que continua a encontrar forças para se reunir em palco e cantar os êxitos de outros tempos que a eternizaram. Quanto à possibilidade eminente de um novo álbum, só dependerá do sucesso destas novas músicas. Em entrevista à Billboard, Stevie Nicks refere que apenas seria plausível gravar um novo álbum com a certeza de uma resposta positiva por parte dos fãs, até porque “hoje em dia, ninguém quer ouvir álbuns longos”. No entanto, não é uma hipótese totalmente descartada pela vocalista: “Se sentirmos que as pessoas querem mais músicas nossas, pensaremos no assunto”.

fleetwood-mac-band-image

Fleetwood Mac em 2013 – foto promocional da World Tour.