Harmony Korine, esse foco de atenção do cinema dito independente feito em território americano, traz-nos Spring Breakers: o seu filme que em 2013 surge rodeado de hype e expectativa acrescida. Esse entusiasmo encontra paralelo na antecipação com que aguardamos The Bling Ring de Sofia Coppola. Estes são dois filmes que aparentam ter alguns aspectos em comum, apostando em talentos jovens para papéis arrojados e de espírito audaz e transgressor. A premissa pode fazer recordar um certo universo de filmes de série B, mas a realização de Korine promete fazer de Spring Breakers um filme de alma jovial sem que isso lhe retire mérito.

Agrupando jovens actrizes entre as quais figuram Selena GomezVanessa Hudgens, o realizador concebe um elenco de protagonistas que só por si desperta moderada curiosidade, pois é sabido à partida que um filme com esta temática irá implicar excessos de várias ordens (como o trailer tão bem deixa antever). Ao longo de 90 minutos de duração, o espectador é exposto a uma sequência de cenas que primam pelo conteúdo que se celebra a si próprio, pelo consumo de substâncias, corpos esbeltos e uma veneração do espírito que se considera típico em viagens de finalistas. Mas não só.

O início marca desde logo o tom rude e heteronormativo que irá monopolizar toda a longa-metragem, sendo esta rica em imagens de praias da Flórida inundadas de jovens em nudez parcial; imagens essas de cor tão saturada como o nível de compressão sonora que as músicas de Skrillex possuem, resultando numa banda sonora bastante adequada e que espelha, com mérito, aquilo que os jovens de hoje tendem a considerar como “música de festa”. Cliff Martinez (responsável por grande parte da banda sonora de Drive) assegura a maioria das ambiências instrumentais, eficientes o suficiente para gerar um clima soturno, perfeito para que as mesmas linhas de diálogo se vão repetindo sobre planos diferentes – planos alternativos, flashbacks e também previsões do que irá acontecer a a curto prazo na narrativa.

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A estética pop de Korine (que nada tem a ver com o requinte de Xavier Dolan) caminha de mãos dadas com uma vertente trashy, sendo essa mistura forte o suficiente para servir de base a um desfile de personagens baseadas em estereótipos pouco originais, acreditando que estes sejam convincentes o suficiente para conduzir o filme: jovens aborrecidas com a vida pacata, uma rapariga católica que se inicia em experiências mais acesas e um traficante manipulador (James Franco). Toda a narrativa gangster da segunda metade do filme surge como que uma forma de recompensa bem americana para aqueles que decidiram ver Spring Breakers graças ao factor eye-candy do trailer. Repensando, talvez esta segunda narrativa tenha lugar porque a premissa inicial de uma viagem de finalistas, por si só, não é fértil o suficiente para constituir uma longa-metragem.

O desenvolvimento do filme acontece de forma que obrigatoriamente lembra a série britânica Skins, em quase todos os aspectos menos num: a complexidade das personagens é claramente inferior no filme de Korine. A título de exemplo: a pistola-de-água apontada à boca, disparando álcool, é uma peça chave das primeiras duas temporadas de Skins e por várias vezes é um elemento que interfere com as protagonistas de Spring Breakers. Essas mesmas personagens surgem posteriormente com balaclavas cor-de-rosa, exactamente como as Pussy Riot, só que ausentes aqui de qualquer componente ideológica relevante e isso é algo que nos faz pensar que o resultado final de Spring Breakers estará condenado a não ser levado muito a sério, ainda que seja agradável e estimulante em termos visuais (a luz mostra-se especialmente irrepreensível). As técnicas de filmagem utilizadas são interessantes e dinâmicas o suficiente para que o espectador não note a magreza do argumento do filme, deixando-o sempre expectante pela próxima transição de planos e suas consequências.

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Spring Breakers promete atrair atenções (e público) nem que o faça pelas razões menos artísticas (instinto voyeurístico, nudez parcial, promoção da rape-culture?) mas talvez seja esse o anzol apropriado para que se injecte no espectador uma dose de consciência sobre aquilo que povoa a mente dos jovens de hoje no que toca às suas noções de prioridades, valores e “espírito livre”.

Sendo um filme que entretém de forma inegável, ficaremos à espera que The Bling Ring nos proporcione uma experiência mais completa.

Nota: 7/10

Ficha Técnica:

Título Original: Spring Breakers

Realizador: Harmony Korine

Argumento: Harmony Korine

Elenco: Selena Gomez, Vanessa Hudgens, James Franco

Género: Drama

Duração: 94 minutos

 

*Artigo escrito, por opção do autor, ao abrigo das normas do acordo ortográfico de 1945.