Desde 24 de março, e em cada domingo, o Espalha-Factos tem uma nova iniciativa. Depois de, com o A Recordar, termos relembrado grandes atores e atrizes que não viram o seu talento reconhecido (ou apenas tardiamente tal aconteceu) ou caíram no esquecimento, desta vez iremos destacar algumas dos nomes mais Queridos de Hollywood, numa rubrica com o mesmo título.

Com uma das carreiras mais duradouras de Hollywood, Henry Fonda é ainda hoje uma figura incontornável do cinema e cultura norte-americanas. Os papéis enigmáticos que desempenhou e as distinções dos seus filmes e peças ao longo de mais de cinquenta anos de carreira justificam a presença de Henry Fonda nesta ilustre lista dos Queridos de Hollywood.

Fonda nasceu a 16 de maio de 1905 em Grand Island, Nebraska, onde viveu grande parte da sua infância. Estudou jornalismo na Universidade de Minnesota, e pensava ser essa a sua vocação, mas não chegou a concluir o curso.

Aos vinte anos, Fonda inicia-se no teatro numa comunidade amadora em Omaha, depois de ter sido indicado para um papel principal por Dodie Brando, mãe de Marlon Brando e amiga de longa data da família Fonda. A paixão pelos palcos levou-o até à Broadway em 1926, onde passa os difíceis anos da Grande Depressão com James Stewart, colega de quarto e amigo que o vai acompanhar no decorrer dos anos.

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James Stewart e Henry Fonda

Com um caráter muito reservado desde os tempos de escola, Fonda descobre a profissão de ator como uma forma de “colocar a máscara feita pelas palavras de outra pessoa” e “sair de uma postura tímida”, como o próprio admite num momento mais tardio da sua carreira.

Na peça The Farmer Takes a Wife (1934), que conta com uma notável prestação de Fonda, merece grande destaque no meio teatral e é adaptada aos grandes ecrãs no ano seguinte. Muitos dos atores que a haviam interpretado em palco foram, tal como Fonda, transportados para as telas no ano seguinte, pela mão da 20th Century Fox e do realizador Victor Fleming.

E este foi o papel que levou Fonda até Hollywood, onde se mantém firme nos anos seguintes. Na sua filmografia inicial destacam-se os clássicos como You Only Live Once (1937), de Fritz Lang, Young Mr. Lincoln e Drums Along the Mohawk (1939), de John Ford.

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Henry Fonda em Jezbel (1938)

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Henry Fonda em “Young Mr. Lincoln”

As Vinhas da Ira (1940) foi outro dos filmes que nasceu do laço cinematográfico entre Fonda e Ford, talvez uma das películas mais notáveis e reconhecidas da carreira de ambos e que retrata as expetativas e desilusões de uma família rural de Oklahoma no início dos anos 30, que se vê desterrada e obrigada a seguir em direção à terra prometida, Califórnia, onde passa as dificuldades e injustiças próprias dos anos que se seguiram à Grande Depressão.

A adaptação da obra literária de John Steinbeck recebeu dois prémios da Academia e foi nomeado para outros cinco – entre os quais está a primeira nomeação de Henry Fonda para o Oscar de Melhor Ator.

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Henry Fonda interpreta o papel de Tom Joad em The Grapes of Wrath (As Vinhas da Ira)

A carreira do ator é subitamente interrompida ao ser listado nas tropas norte-americanas para a Segunda Guerra Mundial durante três anos, uma função civil que o próprio encarou como inevitável mas honrosa, até porque não queria “fazer guerra a brincar num estúdio” enquanto uma guerra séria decorria.

Os anos que se seguiram à participação no exército foram mais calmos para Fonda, que decide aprender piano, aproveitar a vida civil e ficar-se pelas aparições periódicas em filmes como The Long Night (1947) ou Forte Apache (1948). Entretanto, o contrato com a Fox termina e o ator regressa aos palcos da Broadway para a peça Mister Roberts, que lhe vale um Tony Award.

Mister Roberts foi adaptada ao cinema em 1955 e Henry Fonda volta a transitar para Hollywood pelas mãos de John Ford – rodagem que ficou marcada pelo desentendimento e agressões entre o ator e realizador, dando fim a uma década de colaborações profícuas entre ambos. Em causa está o facto de Fonda ter criticado em vários momentos as opções da realização de Ford, que levou mesmo à imediata substituição do protagonista no cast estabelecido.

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Mr. Roberts (1955)

Dois anos mais tarde, Fonda aventura-se na produção do filme 12 Angry Men no qual também participa como ator. Apesar das condições de gravação bastante adversas e dos poucos meios financeiros disponíveis, recebeu, para além de uma crítica muito favorável, várias distinções, tal como as três nomeações para os Oscars e o BAFTA atribuído a Henry Fonda. Mesmo com o sucesso fortuito, o ator afastou-se definitivamente da produção de filmes, justificando-se com o “medo de sacrificar a carreira como ator”.

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A década de sessenta foi a época alta dos westerns épicos e dos filmes de guerra para Henry Fonda que definiriam mais tarde o seu lugar no panorama cinematográfico e no imaginário comum norte-americano. São os exemplos de The Longest Day (1962), Harms Way (1965), Battle Of the Bulge (1965), ou o clássico Aconteceu no Oeste (1962), que, apesar do fracasso de bilheteiras no ano de lançamento, é hoje aclamado como um dos melhores westerns de sempre.

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Apesar de idade já avançada, a entrada nos anos 70 e nos seus setenta anos foi feita com um novo regresso aos palcos, bem como alguns trabalhos pontuais em televisão. No entanto, os problemas de coração agravam-se consideravelmente em 1974 e Fonda afasta-se em definitivo da Broadway – mas não antes de ser novamente nomeado para um Tony Award pela sua prestação na peça Clarence Darrow (1975).

Com uma saúde cada vez mais débil, os projetos cinematográficos em que se insere são cada vez menos. E mais desastrosos. A carreira e vida de Fonda culminavam para um fim previsível, para uma reta final na velhice em que pouco ou nada haveria a acrescentar.

Mas é no ano anterior à sua morte que o ator representa um dos seus papéis mais emblemáticos, a que o New York Times chamou de “uma das grandes prestações da sua longa e verdadeiramente distinta carreira”. A Casa do Lago (1981) vale ao actor norte-americano um dos poucos prémios que ainda não tinha conseguido vencer: o Oscar da Academia para Melhor Ator. É, ainda hoje, o ator mais velho de sempre a merecer esta distinção.

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Henry Fonda e Katharine Hepburn em A Casa do Lago

Um ano depois, a 12 de agosto de 1982, aos 77 anos, a doença de coração prolongada e o cancro na próstata levam a vida do lendário ator norte-americano. Para trás, deixa o legado de uma personalidade pouco aclamada durante o tempo de vida, mas cujo valor começou a ser realmente reconhecido nos anos após a sua morte. Henry Fonda é hoje considerado um dos atores mais importantes da era clássica do cinema nos Estados Unidos, tendo percorrido com notoriedade as várias correntes do século XX. Ao cinema, deixa também uma dinastia de importantes atores: os filhos Jane Fonda e Peter Fonda, e a neta, Bridget Fonda.

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Henry Fonda com os filhos, Peter Fonda e Jane Fonda