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IndieLisboa’13: Curtas Cinema Emergente

Entre trabalhos estrangeiros e nacionais, o IndieLisboa’13 apresenta vários nomes que começam agora a assumir-se no panorama cinematográfico. Neste artigo revisitamos curtas-metragens integradas na secção Cinema Emergente. As três curtas portuguesas aqui referidas integram-se ainda na Competição Nacional de Curtas (descobre mais aqui).

1

THE BOOKSELLER OF BELFAST – 8,5/10

John Clancy, um antigo vendedor de livros, é o protagonista deste documentário assinado por Alessandra Celesia. The Bookseller of Belfast vai contudo muito mais longe do que nos contar a vivência deste homem e explora questões que à partida nos pareceriam separadas do percurso de John.

Um adolescente amante de canto lírico, um rapper a tentar descobrir o seu registo e uma jovem à procura de uma carreira no mundo da música pop juntam-se a John Clancy neste filme. A mensagem torna-se clara: nunca devemos desistir dos sonhos por mais surreais que eles pareçam.

As sequências apresentam-se com uma beleza estética única e que caracteriza o ambiente desta comunidade irlandesa bem como o interior das próprias personagens – os seus anseios, sonhos, expectativas. The Bookseller of Belfast traz uma história poderosa com personagens recheadas de força e capacidade de agarrar quem assiste.

Há um contraste permanente entre passado, presente e futuro ao longo do documentário. Os livros surgem como elemento que ultrapassa esta luta de tempos. São 55 minutos de envolvimento permanente e que, no final, sabem a pouco – queremos ver mais, descobrir o caminho daquelas personagens tão reais.

The Boolseller of Belfast vai à frente na competição de curtas-metragens e percebe-se bem o porquê.

2

O FACÍNORA – 8/10

Antes de mais aplauso a Rita Red Shoes e The Legendary Tigerman pelo excelente trabalho na música que acompanha toda a acção de O Facínora – grande parte do impacto fica a dever-se a eles. Depois aplaudamos Paulo Abreu por um trabalho diferente e capaz de surpreender.

O Facínora recupera o filme perdido de Conrad Wilhelm Meyersick, um engenheiro e cineasta alemão que filmou a história em 1920 aquando da sua visita a Guimarães. Sente-se de facto a inspiração expressionista alemã ao longo do filme.

Um trabalho de fotografia impecável, assente nos contrastes e na oposição entre luzes e sombras. Um ambiente misterioso e intimidante, mas que não deixa de guardar um sentido de humor refinado com o desenvolvimento da ação.

A história é também ela simples e compreensível, utilizando os mecanismos do cinema mudo: Frei Domingos é um herói adorado por toda a comunidade vimaranense. Contudo, ao ser apanhado na tentação do amor – e depois de procurar libertar-se dele várias vezes – acaba por se transformar num vilão que aterroriza toda a comunidade.

Realizado para Guimarães Capital Europeia da Cultura 2012, O Facínora revela-se uma excelente prova do talento nacional, tanto na área do cinema como na música.

3

GINGERS – 7,5/10

O que torna os ruivos tão únicos? António da Silva, em Gingers, procura mostrar os traços que têm contribuído para que estes sejam discriminados ou, paradoxalmente, considerados atraentes. Junta-se um twist a este traço genético: a homossexualidade.

Com personagens integradas duplamente em minorias, o realizador conjuga em cena os depoimentos – que nos contam as peculiaridades dos portadores deste gene recessivo  – com os traços que evidenciam este seu ADN – a pele, o cabelo e o esperma.

Num registo constante de homoerotismo, António da Silva faz este processo de descoberta com muita classe. Apostando na estetização dos planos, vai mostrando o corpo destes vários ruivos que posam para si e que lhe contam o impacto que esse traço teve na sua vida.

O interesse em descobrir o que esta característica traz de novo define-se desde o início. A sua beleza é mostrada no ecrã sem artificialismos ou truques. O corpo humano – no seu todo – é exibido para realçar a diferença de quem transporta este gene.

António da Silva complementa o conceito com os jogos de luz, os ângulos e os planos apertados para conseguir um efeito estético ainda mais poderoso. É a abordagem clean que torna Gingers mais interessante do que à partida poderia parecer.

4

I REMEMBER: A FILM ABOUT JOE BRAINARD – 6,5/10

Num registo de documentário televisivo com estética vintage, I Remember: A Film About Joe Brainard, revela-se um álbum de memórias envolto em ambiente nostálgico.

Matt Wolf mistura fotografias, filmes de época e registos sonoros para reconstruir o percurso de Joe Brainard, artista plástico americano, dos anos 50 a 90. Misturam-se os depoimentos de Ron Padgett, amigo do artista, e do próprio Joe Brainard.

I Remember: A Film About Joe Brainard é um registo intenso sobre uma amizade, ao mesmo tempo que revisita a luta pelo sonho da arte bem como a descoberta da própria identidade e sexualidade do artista.

O contraste entre a comunidade rural e uma Nova Iorque é presença constante ao longo de todo o filme, revelando o caráter do artista e a revelação do seu génio. São vários os episódios descritos, envolvidos sempre num registo de cumplicidade.

Fica-se com uma sensação daquilo que terá sido a essência deste artista americano. Através dos seus depoimentos, acabamos por perceber um Joe Brainard focado nos pequenos detalhes da vida e da felicidade.

A nostalgia e a memória misturam-se a um registo visual que nos transporta para as décadas descritas. Ainda assim, I Remember: A Film about Joe Brainard é um filme atual e que confirma que a arte é capaz de rasgar o tempo.

5

SIZÍGIA – 5/10

Apesar de muito bem filmado, Sizígia de Luís Urbano não consegue ser atraente. A curta metragem acompanha a rotina do funcionário responsável pela manutenção do Complexo das Piscinas das Marés, em Leça da Palmeira.

O aspeto mais interessante de Sizígia prende-se com o realce das linhas arquitetónicas desenhadas por Siza Vieira, mostrando-a de diversos pontos de vista. A rotina da manutenção acrescenta uma dimensão humana ao espaço, ainda que não explore qualquer característica deste protagonista.

De resto, pouco mais há a contar. Sizígia vale pela abordagem estética. É um filme apenas para realçar as linhas deste projeto e que nada traz de novo.

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