Opomos Models a Campo de Flamingo sem Flamingos – um estrangeiro, o outro nacional. A oposição vai para além disso: se um se foca numa abordagem cultural de uma profissão, o outro explora a natureza e o homem enquanto parte dela.

models

MODELS – 7/10

Ulrich Seidl foi o nome escolhido para uma retrospetiva no âmbito da secção Observatório. Para além da trilogia Paradise (Faith, Hope, Love), outros trabalhos do realizador austríaco marcaram presença no IndieLisboa’13. Models, de 1999, foi um deles, com direito a uma das sessões esgotadas.

Models viaja até ao mundo da moda e apresenta-nos Vivian, Lisa e Tanja, três modelos em busca do sonho. Apesar de algumas sequências com duração excessiva e de apresentar uma estrutura muito repetitiva ao nível de organização de cenas e de temas, o filme consegue transmitir uma mensagem bastante clara sobre os anseios e os perigos do meio. Não é um documentário, mas fica-se com essa sensação.

Debate-se a droga, o amor e o sexo, o álcool, o corpo perfeito e as respetivas consequências. Tudo isto enquanto se procura alcançar o sonho e subir na carreira. Models mostra o impacto de uma cultura cujos padrões definem como é a mulher perfeita, rodeada de exigências inconcretizáveis.

Assistimos ao processo de transformação da mulher em mercadoria num mundo dominado por homens (em cujas mãos estão as oportunidades de sucesso). Explorando os mitos da profissão – e caindo em alguns clichés –, Ulrich Seidl consegue criar um trabalho que deixa a refletir sobre os verdadeiros contornos da profissão.

Models consegue fazer-nos entrar na dinâmica de um universo feminino muito peculiar. É mais do que a típica história de modelos que fazem tudo para subir na vida, contudo, sem deixar de sê-lo.

campodeflamingos_01


CAMPO DE FLAMINGO SEM FLAMINGOS – 4/10

Integrado na Competição Nacional e na secção de Cinema Emergente, Campo de Flamingos sem Flamingos de André Príncipe apresenta-se como uma proposta difícil de acompanhar e compreender na sua totalidade.

O filme parece-nos uma colagem de cenas aleatórias. A natureza – num estado um tanto ou quanto primitivo – é o principal cenário deste trabalho, mostrando-se como um meio de interação entre diferentes espécies.

O humano transforma-se – quase – num animal que luta pela sua subsistência. Prova disso são as inúmeras cenas de caça ao longo de todo o filme. Contudo, elas pouco mais conseguem transmitir do que isto. O lado humano – e aquilo que o diferencia – é introduzido em alguns momentos mas sem uma ordem definida ou desenvolvimento que nos faça ir mais além.

Os cinco elementos japoneses – terra, água, fogo, vento e vazio – têm lugar de destaque neste filme. Sequências longas mostram as peculiaridades destes componentes da natureza sem todavia lhes clarificar o sentido ao longo do mesmo.

Depois, já perto da reta final, entramos numa espécie de bastidores da produção do próprio filme – ao género de piada privada – que também nada acrescenta ao nível de informação.

Sendo um documentário, não se percebe de facto para onde Campo de Flamingos sem Flamingos quer ir ou aquilo que quer mostrar. Falta informação, rumo e sentido para quem assiste.