Uma viagem à volta do mundo é o que o Espalha-Factos propõe após assistir às sessões desta segunda-feira do IndieLisboa’13. Nos filmes que aqui analisamos passamos por França, Áustria e Brasil. Viajamos respectivamente pelas secções de Competição Internacional, Observatório e Pulsar do Mundo.

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SIMON KILLER – 6,5/10

Integrado na secção de Competição Internacional, Simon Killer de Antonio Campos traz para o grande ecrã a história de Simon (Brady Corbet), um recém licenciado em neurociência que viaja para Paris após o fim da sua relação com a namorada.

Andando sem rumo pela cidade, Simon acaba por entrar num bar e desenvolver uma relação com uma prostituta. A carência emocional do protagonista rapidamente se transforma num jogo de exploração das potencialidades desta ligação entre ambos.

À medida que a trama vai avançando vamos percebendo que Simon esconde um passado obscuro, deixando de ser visto aos nossos olhos apenas como uma vítima do amor. Ele também tem culpa da situação onde se encontra, concluímos.

O filme avança pouco na ação e apenas permite que se vá descobrindo o interior da personagem principal e – indiretamente – o seu passado. Simon Killer estrutura-se a partir de uma repetição constante entre cenas de sexo e momentos do protagonista a andar por Paris em busca de si próprio.

Destaque para a banda sonora que se encaixa perfeitamente nas várias cenas do filme, contribuindo para atribuir ritmo e dinâmica ao mesmo.

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MUSEUM HOURS – 6/10

Jem Cohen tinha todos os ingredientes para fazer de Museum Hours um filme de destaque. Contudo, o realizador avança em várias direções ao mesmo tempo e coloca por terra um conceito que poderia mostrar-se bastante atrativo, mesmo que se mantivesse no registo da ficção.

Johann (Bobby Sommer) é vigilante no Museu de História de Arte em Viena. Enquanto representante de uma profissão que julgamos ter pouco a dizer, percebemos que Johann tem afinal muito para contar sobre o seu quotidiano e sobre a relação dos visitantes com a arte – sempre com um toque de humor inteligente.

Mas é aqui que é introduzida a história de Anne (Margareth O’Hara), uma estrangeira que vem até Viena para visitar uma familiar que se encontra em coma. Perdida numa cidade desconhecida, Anne acaba por encontrar algum sossego dentro do espaço do museu. E é aqui também que conhece Johann, que se oferece para ajudá-la naquilo que for necessário.

A partir deste momento o filme passa para as ruas de Viena e abandona o seu primeiro espaço de ação. Cohen consegue transmitir a beleza da cidade e a essência da relação entre as duas personagens, mas o filme torna-se de alguma forma pesado e perde um pouco o interesse inicial.

À medida que (re)descobrem Viena e a si próprios, Anne e Johann vão estreitando a relação, embora isso nunca se torne tão atrativo como os momentos iniciais do filme. Só quando Museum Hours volta a mostrar a perspetiva de Johann sobre os visitantes e a sua relação com a arte – já perto do final – é que volta a ganhar interesse e a fazer “perdoar” toda a viagem sem rumo por Viena.

Integrado na secção Observatório, o trabalho de Jem Cohens apresenta uma preocupação estética constante que atinge o seu auge nos planos do museu. Também Viena tem uma essência mágica transmitida pela câmara do realizador.

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DOMÉSTICA – 8/10

Como são as empregadas domésticas vistas pelos olhos dos jovens das casas onde trabalham? Gabriel Mascaro deu sete câmaras a sete adolescentes e o resultado é o excelente trabalho de Doméstica, integrado na secção Pulsar do Mundo.

As histórias a que temos oportunidade de assistir são todas elas tão semelhantes entre si por mais que variem os contextos onde se integram. Ao longo de todo o documentário somos confrontados com figuras tão humanas e fortes que o nosso respeito pelo seu percurso se define desde o início.

A boa disposição e as características únicas de cada empregada coexistem com história de vida pesadas e com episódios nada felizes. A profissão surge para todos como uma espécie de escape a essas realidades que assombraram o passado. Define-se uma certeza: todas gostam da sua profissão e não a trocariam por nada.

Torna-se interessante assistir à integração das várias domésticas no seio da família para a qual trabalham, mostrando que as relações de poder dão lugar cada vez mais a ligações afetivas que se constroem com o passar do tempo.

Mesmo entregando a responsabilidade da câmara a adolescentes, não se perde em conteúdo ou em trabalho de pormenores. Antes pelo contrário, temos acesso a uma espécie de diário filmado da vida destas profissionais que contribui para um registo de identificação com o seu quotidiano.

Doméstica não esquece os contrastes sociais entre patrões e empregadas mas também dentro da própria profissão, mostrando vários tipos de locais de trabalho – desde a casa na favela à grande vivenda – bem como as diferentes tarefas que desempenham – assistência a crianças ou idosos, limpeza, motorista.

A naturalidade, a clareza e a simplicidade são os pontos fortes deste trabalho de Gabriel Mascaro. Uma descoberta de realidades que por vezes nos estão tão perto e nem paramos para pensar sobre elas. Uma prova de que todos têm uma história para contar.