É já na Quinta-feira, dia 25 de Abril, que chega aos cinemas mais uma produção nacional. O Frágil Som do meu Motor, a primeira longa-metragem de Leonardo António, fez parte da selecção oficial da Mostra Internacional de São Paulo, Novos Realizadores e promete trazer muitas surpresas e um novo fôlego para um género quase inexistente no cinema português: o thriller. Com um título sonante e uma protagonista feminina, a longa-metragem é pouco aconselhável aos mais sensíveis, repleta de erotismo, aliado a uma aura pesada e violenta.

Gabriela (Alexandra Rocha) é enfermeira num hospital da capital. Apesar de trabalhar em Lisboa, ela vive num vale frio do norte do país com o marido Pedro, um ex-polícia reformado, vítima de um tiroteio que o deixou paraplégico. Com o casamento em declínio, Gabriela começa a receber cartas de um admirador secreto e rapidamente é conduzida para uma relação intensa e misteriosa, que assenta numa fantasia: vendar-se a si própria, a pedido do amante, para não conhecer a sua identidade quando estão juntos.

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Ao mesmo tempo, Vítor, um investigador que foi colega de Pedro, tem em mãos um complicado caso de assassínios em série, onde as vítimas, todas mulheres, são queimadas vivas nas suas próprias casas por alguém que, meses antes, as engravidara. Gabriela, que trabalha na Unidade de Queimados, está a tratar da única sobrevivente a estes ataques. A enfermeira colabora então com Vítor, cuidando da vítima, e, ao mesmo tempo, de outro internado, um estranho homem, parcialmente queimado e com uma aparente perturbação psicológica. Com o desenrolar das investigações, Gabriela começa a desconfiar que o seu amante poderá ser o assassino. Muitos homens presentes na sua vida serão os seus principais suspeitos.

As desconfianças de Gabriela e da plateia perduram do início ao fim do filme de Leonardo António, que não teve medo de arriscar e veio oferecer ao público português um trabalho que vai muito para além do habitual. O Frágil som do meu Motor tem um mote prometedor, sem qualquer dúvida, com um argumento original e o suspense muito bem construído. As suposições vão sendo feitas mas os mistérios perduram até ao último minuto. O thriller é assim experimentado em português com competência e interesse para um primeiro trabalho. Por outro lado, sente-se alguma divagação ao longo da história, que parece querer complicar sem necessidade, e pode deixar o espectador confuso ou perdido no meio de tantos “ornamentos” desnecessários. Sente-se a presença de uma série de narrativas paralelas ao centro da acção que faz o filme perder algum fôlego. Ideia interessante, apesar de utilizada em excesso, é a do “feto narrador” que inicia a longa-metragem e vai acompanhando a narrativa, como um guia do espectador.

Há outras particularidades curiosas e que distinguem O Frágil Som do meu Motor. É o caso das personagens, todas elas com um passado forte e muito mais presente do que devia. Merecido destaque em especial para o vilão, bem construído desde o primeiro momento, e com uma evolução sempre cativante e surpreendente, e os seus motivos não ficam por explicar.

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Uma simbologia interessante recai num objecto que aparece muito subtilmente e por diversas vezes ao longo da película: as esponjas revelam, mais tarde, ter razão de ser, e fazem-nos estar atentos ao detalhe. O final, esse, é inesperado e quase perfeito, não fosse a insistência em acrescentar algo mais àquela que poderia ter sido a melhor conclusão.

Graças à excelente caracterização, O Frágil Som do meu Motor consegue impressionar até os menos sensíveis, conferindo ao ambiente pesaroso ainda maior intensidade. Por sua vez, a montagem – de Ana Costa – faz um bom trabalho, confere um óptimo ritmo à acção e atrai as atenções, funcionando em conjunto com a forte banda sonora, de Rodrigo Leão. Há, contudo, falhas técnicas a apontar que se prendem com o som – demasiado ruído de fundo e por vezes de difícil percepção – e a direcção de fotografia, com planos pouco conseguidos e uma iluminação demasiado escura, que nada abona a favor de um filme como este.

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O elenco de actores reúne alguns nomes bem conhecidos como Albano Jerónimo, Rui Luís Brás e Gustavo Vargas. A protagonista Alexandra Rocha tem um desempenho mediano, mas não deixa ficar mal O Frágil Som do meu Motor, sendo ela também nossa guia, ao longo do filme, e João Villas-Boas oferece-nos, por seu lado, um competente e apaixonado investigador Vítor. Contudo, o grande destaque vai para Gustavo Vargas, bem à altura do desafio que lhe foi proposto como Pedro. Também Rui Luís Brás, na pele do paciente parcialmente queimado, tem uma interpretação perturbadora e digna de destaque. Já Albano Jerónimo, apesar do pouco tempo de antena, revela-se fundamental para a longa-metragem.

O cinema português tem, nos últimos anos, dado mostras de muito talento, seja por Tabu, José e Pilar, Sangue do meu Sangue, Mistérios de Lisboa ou O Gebo e a Sombra. Mas também os nomes menos conhecidos podem trazer consigo surpresas. É o caso de Leonardo António e o seu O Frágil Som do meu Motor.

6.5/10

Ficha Técnica:

Título Original: O Frágil Som do meu Motor

Realizador: Leonardo António

Argumento:  Leonardo António

Elenco: Alexandra Rocha, João Villas-Boas, Rui Luís Brás, Gustavo Vargas, Albano Jerónimo, Peter Michael

Género: Drama, Thriller

Duração: 129 minutos

Crítica escrita por: Inês Moreira Santos

*Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.