Nick Cave é um dos mais incontornáveis singer-songwriters do universo indie, e isso é um dado adquirido há já muito tempo; não espanta, por isso, que o seu novo registo com os The Bad Seeds, intitulado Push The Sky Sway, fosse esperado com tanta ânsia. Tendo sido disponibilizado para o grande público no mês de Fevereiro, é sobre ele que hoje nos vamos debruçar.

Push The Sky Away é o primeiro registo onde Nick Cave trabalha com os The Bad Seeds desde Dig, Lazarus, Dig!!!, de 2008, e a verdade é que após cinco anos desde o último disco as diferenças que aqui se sentem nem são assim tantas como isso. A mais assinalável prende-se, sobretudo, ao facto do cantautor estar mais contemplativo: as melodias que aqui existem denotam-se mais abrasivas e decadentes e fazem jus àquilo que a mestria da veia poética do australiano aponta. Que Nick Cave é um homem de emoções, poucas dúvidas existirão; ele sente-as, fabrica-as e presenteia-nos com elas. Mas neste seu novo LP, ele consegue ir além daquilo que era já uma certeza; o espaço emocional pelo qual percorre impressiona pela visceralidade que consegue ter e o senhor cancioneiro transcendeu o exercício emocional, transformando-o, com viagens melancólicas pelas ambiências dominantes que aqui mais se exsurgem, num acto deliciosamente introspectivo.

E nisso, a ajuda dos The Bad Seeds foi preciosa: Mermaids, We No Who U R, Higgs Boson Blues ou Finishing Jubille Street são paroxismos da conexão exímia que aqui existiu. Há aventuras pelo gospel, spoken-word constante (Finshing Jubilee Street serve de exemplo maior), mas todos os desvios aventureiros da principal temática deste disco acabam por confluir com a própria – a melancolia. E poucas maneiras existiam de trabalhar tão sapientemente um disco nesse campo como Nick Cave aqui o fez.

Porém, não o pintemos de perfeição; Push The Sky Away consegue ser um disco brilhante, mas apenas se se olhar para ele em certos e determinados momentos; existe um alto nível de discrepância entre as faixas que o compõem. Existe  uma música monumental, digna de estar presente na lista das melhores músicas do novo século, Jubilee Street, quatro músicas boas, Mermaids, Finishing Jubilee Street, We No Who R U e Higgs Boson Blues, e o resto das faixas acaba por passar um pouco ao lado se comparado às demais. E foi apenas nesse ponto que o disco acusou imperfeição, ou, melhor ausência de perfeição. Faltou trabalhar mais em algumas músicas, faltou dar corpo ao seu esqueleto e incrassá-las. E, imagine-se, faltou que Nick Cave se medisse emocionalmente ao ponto de não ser tão emotivo como aqui por vezes o foi.

Em suma, Push The Sky Away não desdoura a imagem que temos de Nick Cave – um autêntico senhor canção e senhor de si mesmo; sempre a conservar o seu perfil idiossincrático. É certo que este disco podia ser melhor, e tinha potencial para tal, mas mais certo ainda é que a beleza das coisas parece maior se vista por momentos; e aqui isso acontece: é nos momentos que este disco mais beleza radia. Momentos como Jubilee Street, depois de um “Look at me now, I’m Flying” e consequente crescendo instrumental. Podemos não ver Cave a voar, mas o que voa é a certeza que este é um daqueles senhores que dá verdadeira acepção do que é uma canção e uma melodia. E nós agradecemos, e por isso vamos todos ao Optimus Primavera Sound para lhe prestar o culto que ele merece.

Nota final: 7.9/10

*Este artigo foi redigido, por opção do autor, ao abrigo do acordo ortográfico de 1945