O destaque para o segundo dia do IndieLisboa ’13 vai para a estreia do novo filme de João Canijo, É o Amor, que apresenta a visão feminina da comunidade piscatória de Caxinas. Grande Auditório da Culturgest cheio para o evento.

O Espalha-Factos passou ainda pela sessão  de Starlet, de Sean Baker, integrado na secção Cinema Emergente.

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STARLET – 7,5/10

A dose certa entre o humor e o tratamento de assuntos mais sérios. O novo filme de Sean Baker conta a história de Jane (Dree Hemingway), uma rapariga que encontra uma pequena fortuna dentro de um termo comprado numa venda de garagem.

Após esta incrível descoberta, Jane volta à casa da idosa que lhe vendeu o termo. Com uma espécie de ‘peso na consciência’, tenta aproximar-se de Sadie (Besedka Johnson) e perceber melhor a origem do dinheiro.

E é aí que ambas as personagens se revelam interessantes, na tentativa de confiarem uma na outra. Jane entra a matar, Sadie desconfia mas acaba por ceder à simpatia da jovem. Descobrem-se os segredos do passado e os sonhos nunca concretizados. Todos estes momentos com a companhia constante de Starlet, o pequeno chiuaua de estimação de Jane – que consegue uma “interpretação” digna de destaque ao fazer esboçar sorrisos em vários momentos da história.

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É o equilíbrio entre uma Jane jovem e dinâmica e uma Sadie gasta pelo tempo, pela solidão e pela sua recusa em abandonar as memórias – mas que ainda assim mantém um caráter vincado – que faz o filme funcionar. A história pouco mais avança do que tratar o desenvolvimento desta relação, contudo fá-lo de forma dinâmica e sem parecer repetitivo.

Starlet não deixa contudo de inserir Jane num mundo secreto e considerado pouco moral. Há uma duplicidade contrastante na personagem que a torna misteriosa, por mais simples e direta que ela mostre ser.

O novo filme de Sean Baker mostra-se assim uma boa proposta para um momento em cinema. A junção das características do cinema independente com uma história de traços bastante americanizados torna Starlet agradável de assistir. Pela sua capacidade de fazer rir, pensar e acreditar que é possível dois mundos diferentes coexistirem na perfeição.

É O AMOR – 7,5/10

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Naturalidade é a palavra para descrever o novo filme de João Canijo, É o Amor, que tem a comunidade piscatória de Caxinas como cenário. A atriz Anabela Moreira junta-se a um grupo de mulheres que trabalham na pesca – mas em terra – para tentar perceber a sua dinâmica quotidiana e assim construir a sua personagem.

A cumplicidade que se faz sentir leva-nos para um Portugal cujas origens estão em mutação, apesar de não cortarem completamente com o passado. Estas mulheres já não são as mulheres sofredoras do passado que trabalhavam em Caxinas. Elas agora são confiantes, donas de si próprias, prontas a abraçar todos os desafios.

O contraste entre Sónia Nunes e Anabela Moreira transparece, apesar da amizade forte que se vai construindo entre elas. Se Sónia acredita na possibilidade do amor na íntegra, Anabela vem trazer o seu desconforto face aos sentimentos e à entrega ao próximo.

A atriz mostra o seu pouco à vontade perante o quadro de felicidade que se lhe apresenta, nunca encaixando na totalidade nele. Apesar dos avanços nessa integração, mantêm-se ao longo do filme duas visões diferentes e contrastantes de amor, que nos provam que por vezes aquilo que procuramos é mais simples do que parece.

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Com uma banda sonora que surge como símbolo das relações humanas, É o Amor traz os contrastes sociais sem ser pejorativo face a eles. Pelo contrário, valoriza as diferenças entre aquela comunidade piscatória e Anabela Moreira – que surge como elemento representante de um contexto exterior.

Os pescadores de Caxinas mostram-se unidos, trabalhadores – como um todo. Dá vontade de entrar dentro do filme e experimentar aquele ambiente – mesmo que seja por um pouco – e trazer algum ensinamento para a nossa própria vida.

Contudo, Canijo também falha e chega a colocar em causa todo o excelente conceito que tem para o filme. Sequências demasiado longas e repetitivas que pouco adiantam ao nível de informação, as quebras contínuas de raccord resultado da procura de construção de linearidade bem como os momentos de diário gravado de Anabela Moreira – em que explica o seu processo como atriz – são alguns dos exemplos.

A realidade apresenta-se em cena sem artifícios em É o Amor. Os sentimentos mostram-se puros, a entrega total. Canijo consegue transmitir uma essência tão pura que poucas vezes se consegue quando se retrata Portugal. Um filme humano, porque o país é bem mais do que as aparências do quotidiano.