To Match é o nome da mais recente coleção de Vitor Gouveia para o Inverno de 2013. A terminar a formação no MODATEX, Porto, e em fase de estágio numa empresa, esta é a segunda coleção que o designer de moda vimaranense apresenta em nome próprio.

Na sequência de Rust, o primeiro trabalho apresentado ao público, Vitor decidiu cruzar distintos movimentos e tribos urbanas, tempos e gerações, sendo o streetwear o mote para uma reflexão sobre as mutações sociais das formas de estar e pensar bem como a despolarização do estilo.

A primeira ideia que Vitor introduz é a inserção da maioria branca, caucasiana, nos ghettos norte-americanos, o que mudou irreversivelmente a cultura de bairro, provocando a sua ascensão nos media e tornando-se uma moda entre as classes médias. O estilo dos gangsters torna-se cada vez mais comum e o hip hop toma de assalto as tabelas da Billboard.

To Match regressa aos anos 80 e 90 do século póstumo e traz o “bling bling”, expressão que denomina uma estética independente, profundamente decorativa, que, associada aos descendentes africanos, foi monopolizada pelos jovens brancos, e está na base de um novo movimento urbano que se reflete na moda ao nível do streetwear e do sportswear. Na coleção esta referência percebe-se no styling, na atitude e essencialmente nos materiais dourados ou com reflexos iridescentes.

A segunda referência para este trabalho surge no desporto, concretamente no futebol americano. O corpo, a volumetria das silhuetas e as cores compactas e contrastantes são claramente retiradas desta premissa.

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“O meu processo criativo é um bocado industrial: trabalho por peças e depois faço styling e defino coordenados”, sublinha Vitor Gouveia. Isto faz com que cada peça, independentemente do enquadramento numa coleção, tenha um valor próprio assente nos seus detalhes de confeção e soluções de design.

Os materiais refletem algum ecletismo e a preferência pelo produto de origem portuguesa. Sarja da Riopele, uma das maiores empresas têxteis nortenhas, felpas americanas utilizadas do avesso, jerseys e outras malhas também de produtores portugueses, assim como as peles de cabra e cordeiro. Apenas a malha de tule foi encomendada em Londres. Um estampado de reflexos dourados, feito manualmente através de uma técnica denominada foile, adorna o avesso das felpas.

Paralelamente à coleção, Vitor estabeleceu uma parceria com a artista portuense Maria Lima, que acompanhou todo o processo de elaboração para, no fim, desenvolver uma série de colagens ilustrativas da ambiência e das linhas gráficas das peças de vestuário.

Residente no Porto, onde estuda, Vitor já estagiou residualmente com Ricardo Dourado e auxiliou no backstage do designer em duas edições da ModaLisboa. Habituado ao ritmo extenuante do curso, que o levou a participar em concursos internacionais como o Skills, em 2012, e à lida da indústria, Vitor, como muitos jovens designers acabados de completar a sua formação, anseia por um trabalho estável na área que lhe permita, ao mesmo tempo, desenvolver a sua marca e as suas coleções. Um dos objetivos deste ano passa ainda por desfilar uma coleção no Espaço BLOOM do Portugal Fashion, apesar da concorrência renhida. “Tentei,  na ultima estação, entrar no Espaço BLOOM, mas ainda não tinha um trabalho consistente e um conceito da marca totalmente definido, para além de haverem muitos outros designers a querer entrar”, conta.

Para ver crescer a sua marca o jovem criador aposta essencialmente num design comercial. “As minhas peças têm um grande carácter comercial e atualmente aquilo que estou a explorar é atribuir o mesmo valor de design a todas as peças da coleção. Mas pretendo, sim, evoluir para as ditas “peças-conceito” para abrir um desfile, uma performance ou uma produção. Essas peças, no entanto, praticamente não são vendidas, servem exatamente para informar e explorar o tema da coleção. Todavia é algo que pretendo fazer só em desfile, quando tiver essa oportunidade.”

painel A4 menos opacidade

O line up da coleção com as colagens de Maria Lima e o desenho de alguns coordenados, amostras de tecido, etc.

Entretanto, segundo Vitor, a experiência inicial em empresas da área confere-lhe muitos conhecimentos ao nível da comercialização, da comunicação e do marketing, dos contactos, permite-lhe viajar para desenvolver shopping e pesquisa e fomentar o seu crescimento criativo e empresarial. Ainda assim, tem consciência que, tal como acontece com a maioria dos designers em ascensão em Portugal, a marca não será auto-sustentável, tão pouco poderá depender dela nos primeiros anos, e que para chegar a esse patamar são necessários muito esforço e dedicação.

A divulgação desta coleção tem sido intensa nas plataformas online, contando inclusivamente com uma publicação no blogue Artur in the woods, um dos blogues de referência para a moda nacional. Para tal, contribuiu também a participação do fotógrafo de moda Élio Nogueira, responsável pela criação das imagens e do vídeo da campanha, no qual se percebem a ambiência e as ambivalências estéticas exploradas. O fotógrafo Sal Nunkachov, criador do Paper View, acompanhou o backstage da sessão. Vitor consta agora entre os dez selecionados para o Fórum Novos Talentos da próxima edição do Modtíssimo, um evento que coloca os estudantes de design de moda diretamente em contacto com a indústria têxtil da região Norte.

A próxima coleção de vestuário já está delineada na sua cabeça e, pelo que nos adianta, seguirá a mesma linha estética: “Existe um fim e um inicio, e o que as une [as coleções] são as formas, a maneira como trabalho as peças, sempre com encaixes e materiais em contraste. Mantenho sempre a mesma linguagem, meio street meio sport, e trabalho-a tendo em conta tendências, etc.”

Por agora, o designer tem peças à venda na Loja The, no Porto, e na MUUDA, projetos associados à promoção de novos talentos. Para a primeira criou duas peças exclusivas, adaptadas ao briefing da loja, e na segunda está disponível a coleção Rust para esta estação. A de inverno ainda não está disponível, mas em procedimento está também a internacionalização do seu trabalho. Para acompanhar o trabalho de Vitor Gouveia, este possui um Tumblr oficial, onde disponibiliza vídeos, lookbooks e moodboards que possibilitam uma aproximação entre o processo de design e o consumidor.

O lookbook completo da coleção, fotografado por Élio Nogueira:

O conjunto de colagens levadas a cabo por Maria Lima, no qual a ilustradora recorreu às texturas dos materiais usados por Vitor nas peças de vestuário e a detalhes de elementos associados à rua e ao urbanismo, como o asfalto ou betão rachado, para criar uma espécie de moodboard através de colagens, explorando o ritmos e contrastes diferentes.