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Virgem Suta exportam tristeza no Ritz Clube

Imaginem uma sala de estar. Um armário. Um sofá. Uma televisão. Uma garrafa de tinto, do bom. Agora, imaginem tudo isto feito de cartão, exceto o tinto que era real. Foi à frente deste cenário idílico que os Virgem Suta atuaram ontem à noite, no Ritz Clube, em Lisboa. Uma suta (instrumento para medir ângulos) teria-nos dado bastante jeito no final do concerto, para medir a boa disposição de cada pessoa no público. 

Foi de braços abertos que nos receberam: «Bem-vindos ao lar dos Suta». O silêncio pairava. A circunspecção era percetível do lado de cá. Talvez estas palavras tenham ajudado a quebrar algum gelo: «quando um porco engorda e sai da pocilga, há que ter cuidado porque há outro que entra e engorda ainda mais». Jorge Benvida lançava a sua farpa a Miguel Relvas. Logo a seguir, tocaram RessacaNão Sou Deste Lugar. Mas, foi com Toma Conta Desta Tua Casa que a plateia despertou em definitivo.

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Vocabulário pacato, raciocínios simples com deduções expressivas, pensamento satírico sem fins cosméticos. São estes os ingredientes de uma virgem que de virgem só deve ter o signo… Uma virgem atrevida, mordaz e que dispensa preliminares: vamos direto ao assunto, colocar o dedo na ferida. Quem precisa de uma guitarra eléctrica quando dois ou três vocalizos e um ou outro som nasalizado cumprem essa tarefa com distinção? O vinho dentro do copo a respingar, o adufe e o triângulo: era tempo de brindar, ser Galdério, ser Anjo em Descenção.

Vamos repetir o exercício de há pouco: imaginem um vulcão. O magma no seu interior. Um borbulhar. Um crepitar. Uma convulsão repentina. Um abrir e fechar de olhos. Aí têm a erupção, a lava que queima, mas lava. Agora, pensem nas músicas dos Suta como esse vulcão. Em vez disso, imaginem Gogol Bordello num registo menos abrupto, mais aportuguesado, com os arpejos típicos do fado e as linhas folclóricas do baixo, com uma balada ou outra pelo meio. Gogol Bordello é à volta da fogueira, Virgem Suta é no bailarico da freguesia, no copo-de-água, na tasca com os tremoços e a mini.

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«Contra a pobreza exporto a minha tristeza, contra a miséria ja nem faço cara séria. Se estou com fome canto o fado p’ra esquecer» são as palavras de Exporto a Tristeza e foram o lema da noite de ontem. E, já que a Manuela Azevedo não esteve, coube ao público ajudar a traçar as Linhas Cruzadas, single do primeiro álbum da banda bejense. Para revisitar ainda mais a tradição, iniciou-se quase espontaneamente uma desgarrada entre o público e os Virgem Suta, com vozes a fazer ecoar as últimas palavras de cada verso. Reinou o improviso: um hino à cultura.

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Este é o último parágrafo e estou tão exausto quanto fiquei ontem depois de perder a minha virgindade no galopear dos Virgem SutaO suposto era ter-se terminado com Playback de Carlos Paião. Eles prometeram «mais uma». Da plateia responderam «mais três». Eles brincaram: «três ou quatro?». O povo foi soberano: «quem canta quatro canta cinco». Assim foi. Terminaram repetindo Toma Conta Desta Tua Casa. Ontem não esteve frio. Ali dentro já era verão. 

Fotografias: Catarina Abrantes Alves