Após o término dos The Czars e depois de um vitorioso disco de estreia a solo, é em 2013 que reencontramos John Grant com novidades um tanto quanto inesperadas. Desde sempre associado aos campos mais folk da música alternativa, o músico optou por explorar as suas preferências músicas enquanto adolescente, adaptando-as ao contexto actual. Pale Green Ghosts é o resultado final.

Queen of Denmark, o primeiro disco a solo de John Grant, evidenciou a sua clara aptidão para a construção de canções que primem pelo cruzamento de noções melódicas associadas à folk, conjugando-as com letras explicitamente autobiográficas. Foi quanto bastou para chamar a atenção da crítica e de Sinéad O’Connor, que acaba por participar mesmo em Pale Green Ghosts, onde muito parece ter mudado. Certamente que não se almejou aqui uma tentativa de alienação face ao passado, ou de semear o desconforto entre os fãs que apreciem Fleet Foxes, mas a tentativa de expansão de horizontes é inegável.

Pale Green Ghosts

É desde os primeiros minutos do disco que somos expostos a esta pequena grande revolução na música de John Grant: o advento da electrónica. De acordo com o autor, a sua juventude aconteceu cercada da sonoridade dos Human League Eurythmics, entre a habitual lista de culpados pela frescura sintetizada na qual a pop navegou durante a segunda metade dos anos 80. Desse saudosismo momentâneo, terá resultado a curiosidade pelos elementos electrónicos que podem intervir na construção musical. Assim, grande da duração de Pale Green Ghosts é ocupada com a exploração desses ditos elementos.

A faixa que dá nome ao disco e Black Belt servem de antevisão desta nova tela de John Grant. A sua palete faz-se agora de aspectos tão refrescantes como sintetizadores em andamento pulsante, alternância de compassos e ritmos que pendem entre o discreto e abrasivo. O realismo cru continua a doirar ao longo de todas as faixas do alinhamento, algo que pode jogar a favor ou contra a empatia do ouvinte. Com Black Belt, o panorama torna-se realmente dançável e menos esparso. Apesar da ausência de um refrão memorável, os truques de produção asseguram o valor da faixa que quase poderia pertencer ao 2º disco de Justin Timberlake.

Mas John Grant não dissolveu a sua identidade, e GMF é o single delicioso que resgata a sonoridade acústica de Queen of Denmark, num magnífico conjunto de melodias apelativas graças a uma guitarra clássica rítmica muito bem pensada, mas de uma naturalidade de execução quase infantil. Em fundo surgem ideias mais eléctricas, mas mantém-se sempre em segundo plano, perfazendo uma canção completa e segura de moldes vincados, através dos quais se torna tão eficiente.

O alinhamento prossegue numa viagem que oscila entre a electrónica e a indie folk, e vários são os momentos em que as duas se diluem. Mais adiante, You don’t Have to prima pelos sintetizadores que inequivocamente fazem lembrar Violator dos Depeche Mode. Já Sensitive New Age Guy é um claro piscar de olhos à sonoridade dos discos de LCD Soundsystem. Ernest Borgnine, por sua vez, mistura vocoder com metais de sopro.

De certa perspectiva, pode parecer que assim se testemunha uma crise de identidade na forma de canções que tentam pontuar de todas as formas possíveis, com os trunfos mais variados. Na realidade, o disco é bastante suave nas oscilações que faz entre as várias ideias sonoras de John Grant. Ainda assim, não é um álbum de tão fácil audição como se poderia prever: há abordagens pouco directas e arranjos que podem requerer paciência.

Indiscutível será o carácter verdadeiramente humano que a música de Pale Green Ghosts encerra em si. Não só nas letras que retratam uma realidade humanamente cruel, mas também no impasse e desejo de mudança que se tornam audíveis através dos recursos utilizados nestas canções.

Soa a “missão cumprida” no final e de facto é um disco com bastante mérito. Repetir a sonoridade do primeiro disco por inteiro era uma armadilha tentadora mas John Grant afasta-se dela com elegância, criando um dos conjuntos de canções mais versáteis do ano.

Nota final: 7,3/10

*Artigo escrito, por opção do autor, ao abrigo das normas do acordo ortográfico de 1945.