Era uma vez uma menina que via muito ao longe e um senhor que via muito ao perto. Resumamos a história de Olhos de Gigante nesta frase para daí se partir para um universo mais amplo.

Sente-se a exploração espacial quando se entra na Sala Estúdio do Teatro Nacional D. Maria II. Primeiro numa engrenagem colocada estrategicamente no meio do palco, depois nos figurinos do elenco composto por Ana Brandão e Raúl Atalaia. Talvez o nosso planeta seja pequeno demais para a mensagem que esta história quer transmitir.

Há toda uma possibilidade de vida para além da uniformização de quem insiste em fazer o mundo funcionar. Se o mundo funciona por si próprio para quê continuar a dar à manivela que julgamos fazê-lo trabalhar? A menina quer provar ao senhor que há muito mais para descobrir por onde a imaginação se estende.

As portas abrem-se a um universo repleto de novidades quando sonhamos. Apela-se assim ao abandono da crença numa realidade que não é mais do que aparenta, a uma vontade de ver mais além, de largar os rituais que devoram a nossa individualidade. O encontro entre opostos em palco leva à necessidade de ir mais além, sem medo de falhar.

Olhos de gigante ©Filipe Ferreira

A falha de Olhos de Gigante está precisamente em apresentar uma história que praticamente não avança e que insiste em reforçar o seu intuito. Há qualquer coisa que não deixa agarrar ao que se passa em cena. Não se sabe bem definir se é a infantilidade ou o exagero com que se constroem as personagens. A verdade é que elas também não fariam sentido sem ele.

Ainda assim, somos confrontados de minuto a minuto com algumas lições de vida e conselhos para colocar a nossa imaginação a funcionar. No meio de um texto que soa a rebuscado sabe bem reconhecer as palavras da obra de Almada Negreiros. Sente-se uma brisa fresca que nos vem provar a intemporalidade das palavras dos poetas.

As palavras fundem-se com a música de Gil Gonçalves e o resultado é uma estranheza que a princípio resulta mas que acaba por cansar, por repetir fórmulas e levá-las ao extremo. A peça quer desconstruir os padrões da normalidade teatral – em busca de uma imaginação que apregoa – contudo há um ponto em que o exagero deixa de saber a novidade.

Há toda uma beleza escondida na engrenagem principal. Nos momentos de transição, conjugada com a luz e a música, ela demonstra todo o seu potencial e faz-nos acreditar que é possível a peça dar o salto em frente que se anseia sentado na plateia. Mas, de facto, a abordagem é praticamente a mesma ao longo de todo o espetáculo.

Em cena até 21 de abril no Teatro Nacional D. Maria II, Olhos de Gigante seguirá para Palmela, onde terá sessões de 24 a 28 de abril no Teatro O Bando.

Fotografias: TNDMII