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Espalha-Factos entrevista Kim Longinotto

A realizadora Kim Longinotto é protagonista da Retrospetiva Kim Longinotto, Histórias no Feminino que, depois de passar pelo Cinema Passos Manuel no Porto, ruma a Lisboa, a partir do próximo dia 4 de abril, no Cinema City Classic Alvalade. O Espalha-Factos teve o prazer de entrevistar a britânica e descortinar algumas especificidades do seu trabalho.  Conheça aqui os bastidores da própria Kim.

Kim Longinotto esteve recentemente presente no ciclo que se desenrolou no Porto, de 28 a 30 de março.  No entanto, para os que não puderam estar presentes e confraternizar com a realizadora, aqui ficam algumas das questões que os poderiam intrigar mas não tiveram oportunidade de esclarecer.

Espalha-Factos (EF): A Kim tem despendido grande parte da sua vida a viajar, com o objetivo de documentar diversas situações frágeis que vão ocorrendo por todo o mundo. De onde surge esse espírito de aventura e paixão?

Kim Longinotto (KL): Os filmes são frequentemente uma exploração da paixão e espírito aventureiro de indivíduos corajosos. São pessoas que assumem um grande risco ao desafiarem a cultura e tradição, como é visível em The Day I Will Never Forget, Pink Saris ou Divorce Iranian Style. Ou encontram-se a trabalhar incansavelmente em condições difíceis e extenuantes como os professores dedicados em Hold Me Tight, Let Me Go.

EF: Os argumentos dos seus filmes concentram-se principalmente nos direitos das mulheres e das crianças. Porquê esta preferência?

KL: Eu gosto de filmar a mudança e a esperança; Eu quero filmar sobreviventes em vez de vítimas. Estou interessada em filmar lutas que as pessoas travam contra poderosas autoridades. Não me refiro a confrontos militares, antes prefiro as mais privadas, as batalhas escondidas que ocorrem no núcleo de uma sociedade e que vão ecoar em cada um. Todos nós nos deparamos com as mesmas escolhas mascaradas por diferentes aparências, onde quer que estejamos. Então, se olhares para o mundo como ele é agora, suponho que a cultura e tradição favorecem profundamente os homens, logo são as mulheres e crianças que terão mais tendência para se revoltar.

EF: Algumas vez considerou alargar o seu alvo ao sexo oposto ou mesmo a causas totalmente diferentes, como o ambiente ou os direitos dos animais, por exemplo?

KL: Hold Me Tight, Let Me Go foca-se principalmente em jovens rapazes. Não vejo os meus filmes como obras sobre temas ou causas. Tento contar uma história desafiante de modo a que os espectadores possam identificar-se com as pessoas dos filmes e sintam que essas histórias possuem algum significado para as suas vidas.

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EF: Pessoalmente, quem considera responsável pela visibilidade limitada que as mulheres enfrentam na vida contemporânea?

KL: Onde quer que vá, fico sempre maravilhada com as extraordinárias mulheres e crianças que conheço. São decididas, imaginativas e desembaraçadas. Elas são muito mais interessantes que as “estrelas” que poluem os media.

EF: Nos seus documentários, toda a gente envolvida parece agir muito naturalmente. De facto, esta é uma das características que fazem o seu trabalho sobressair. Como gere este tipo de interação?

KL: As pessoas ficam geralmente encantadas por poderem dar o seu testemunho após vários anos a serem um outsider, uma voz solitária.  Por vezes somos os seus confidente, por outras, essas pessoas sentem-se encorajadas pelo simples facto de estarmos presentes. Estas mulheres são pioneiras, e isto é, regra geral, uma experiência isoladora, são excluídos da sociedade em que se inserem.

EF: Como surge um novo projeto? Já aconteceu ser abordada por alguém no sentido de ajudar a revelar determinada situação?

KL: Sim, as maravilhosas Rough Aunties entraram em contacto comigo. Elas passaram dificuldades com as equipas de filmagem sul africanas, que eram geralmente autoritárias e insensíveis. No entanto, elas poderiam perceber que um filme acerca do seu trabalho iria viajar mais depressa e atingir um público maior do que o que podiam esperar.

EF: Como desempenha uma atividade de caráter algo intervencionista, alguma vez enfrentou obstáculos ao tentar desenvolver o seu trabalho?

KL: Não é minha função intervir. Eu tento e conto uma história tão claramente e o mais próximo da verdade que posso. Filmo eventos de uma forma que impele o público a sentir que está comigo naquela na situação e, espero, sentindo algumas das mesmas emoções. Embora, claro, todos vão assistir ao filme consoante a perspetiva das suas próprias vidas. Por exemplo, enquanto montávamos Hold Me Tight, Let Me Go, as cenas que presenciámos levaram o Ollie Huddleston (o montador) a questionar as suas próprias aptidões como pai, enquanto que a mim me levaram a revisitar a minha infância e os erros que cometi ao longo da minha vida.

EF: Há uma crescente reconhecimento da sua arte, que é traduzido nos vários prémios que tem recebido. Que feedback obtém da parte do público? Sente-se concretizada?

KL: O público costuma apaixonar-se pelos personagens. Se viajo com alguns dos intervenientes do filme, estes são frequentemente abordados por uma grande quantidade de espectadores depois da sessão! É muito entusiasmante de se ver.

EF: Por agora, que projetos tem em mente?

KL: Se tudo correr bem, o próximo será nos Estados Unidos da América.

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