Decorreu ontem no Auditório do Mar da Palha do Oceanário de Lisboa mais uma edição das Conversas Voxmar: O Mar em escuta ativa, desta vez sobre a relação entre a Moda e o mar. Presentes estiveram quatro oradores: Eduarda Abbondanza, fundadora da Associação ModaLisboa, o designer Nuno Gama, Bárbara Coutinho, diretora do MUDE – Museu do Design e da Moda, e o empresário Mário Maciel, fundador da Cabo d’Mar.

O azul está sempre na moda? Há uma cor que cheira a mar? A perguntas em line-up eram pobres mas os quatro convidados e algumas vozes no público souberam dar a volta ao tema e ditaram um rumo rico e interessante para uma conversa que tocou em pontos muito diversos.

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Depois das introduções e da contextualização habitual, Bárbara Coutinho foi a primeira a suscitar burburinho na plateia. A diretora do MUDE propôs um novo olhar sobre o mar, não como uma inspiração direta, mas como uma matriz de motivação e impulso, que rejeite o lado imperialista e colonialista e se concentre na ultrapassagem das barreiras naturais. Mais à frente, abordou a “parca cultura estética” dos portugueses e a falta de reflexão que dificulta o surgimento de produtos inovadores.

Por outro lado, Mário Maciel falou da importância da casualidade, que motivou a criação da Cabo d’Mar. Com apenas dez meses, esta marca portuguesa tem uma loja online e está presente em 18 pontos de venda por todo o país. Lá fora, estão representados em Paris, Madrid e Milão e contam, no final do ano, ter 40 pontos de venda em Itália. O que está por trás do seu sucesso?  Simples pulseiras feitas com cabos náuticos e outros apetrechos ligados aos desportos marítimos.

José Cabral, nome que rapidamente associamos ao blogue O Alfaiate Lisboeta, encontrou Mário e os outros sócios da empresa por acaso e decidiu fotografá-los. Reparou nas pulseiras que traziam e decidiu fazer uma publicação sobre estas. Telefonou-lhes e pediu-lhes que criassem rapidamente uma marca e dois dias depois havia nascido a Cabo d’Mar.

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Abbondanza enfatizou este sentido de oportunidade e a importância dos timmings e das respostas às solicitações do mercado. Rejeitou a existência de tendências e apelou a uma visão alargada da Moda, defendendo-a como uma área abrangente que toca em todas as outras disciplinas, como inclusiva e aberta à mudança e sublinhou que “fenómenos” como o da Cabo d’Mar são cada vez mais frequentes.

A fundadora do maior certame de moda nacional falou também da importância do trabalho em equipa e da criação de networks. “O mar dá-nos coragem. [O desporto náutico] quando não é sozinho, implica o trabalho em equipa.”. Deu como exemplo a rápida internacionalização revista Dsection ou dos criadores que apresentam o seu trabalho na plataforma LAB, da ModaLisboa, como Marques’Almeida ou Saymyname.

Habituado às feiras internacionais, Nuno Gama suscitou algumas “comichões” nos restantes oradores e na plateia, quando alertou para a dificuldade de afirmar o design português no exterior, porque o público estrangeiro não está familiarizado com a História e a cultura de Portugal. O criador é exímio na utilização da iconografia nacional, desde os azulejos aos lenços de Viana, passando pela atenção cuidadosa às técnicas de alfaiataria tradicionais. Esta ideia é amplamente partilhada por Mário Maciel, que apelou à criação de empresas com nomes portugueses e à construção de conceitos fundamentados pela História e pelos costumes nacionais.

Nuno Gama estabeleceu vários paralelos. Ao nível do design falou sobre a preferência natural do público estrangeiro na escolha do produto italiano, em detrimento do português. No entanto, tanto Gama quanto Abbondanza salientaram a queda eminente do design italiano.

Apesar destas barreiras, Bárbara Coutinho sublinhou o surgimento, nos últimos anos, de figuras de proa nas artes nacionais que se têm tornado muito conhecidos lá fora. Mariza, António Zambujo, Joana Vasconcelos, Souto MouraSiza Vieira ou Paula Rêgo são apenas alguns nomes que podemos apontar.

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Tanto Bárbara Coutinho quanto Abbondanza foram acutilantes quando se referiram à imprensa portuguesa, acusando-a de não dar “tempo de antena” para que os espectadores ficassem a conhecer projetos de sucesso, e de não saírem do “espectro da crise e dos problemas do governo”. “É inaceitável que os portugueses não saibam que somos o maior produtor mundial de caiaques. É inaceitável que não conheçam os Caiaques Nelo. É inaceitável que não saibam que somos líderes na produção de moldes industriais de pranchas ou de bicicletas personalizadas!”, apontou a diretora do MUDE. E de facto, entre a plateia a imprensa era escassa.

Sem se obter nenhuma conclusão específica, o debate tinha como objetivo levantar algumas questões pertinentes. E foi desta forma que terminou, deixando aos presentes motivação para continuar a discussão nas redes sociais e, acima de tudo, fomentar o empreendedorismo no Design português.