Iceage

You’re Nothing

Depois de se terem apresentado ao mundo em 2011, com o incendiário New Brigade, os dinamarqueses Iceage conseguiram gerar burburinho suficiente para garantir um contrato com a Matador Records, respeitável casa norte-americana de música independente, e o estatuto de jovens promessas da cena alternativa. Agora, dois anos após a estreia, eis que nos chega às mãos o segundo capítulo da saga discográfica deste quarteto nórdico. O LP, baptizado de You’re Nothing, foi lançado a 18 de Fevereiro, e é dele que vamos falar hoje.

Misturando de forma magistral o Punk e o Post-Punk num insidioso caldo de destruição e caos com sabores reminiscentes dos anos 70 e 80, New Brigade acabou por ser o cartão-de-visita ideal para um grupo de putos escanzelados nascidos no norte da Europa com uma aparente idolatria fervorosa por nomes de referência como Wire, Warsaw/Joy Division ou Minor Threat. A conjugação das tonalidades negras e virulentas com uma postura agressiva e tensa fez do primeiro disco dos Iceage uma obra de excepção e conseguiu converter-me logo ao primeiro contacto.

Não é de estranhar, portanto, que tenha ficado extasiado com o anúncio, feito em finais de 2012, de que a Matador se preparava para lançar You’re Nothing, segundo LP do quarteto. Afinal de contas, estamos a falar do sucessor de um dos meus álbuns favoritos de 2011, e apesar de New Brigade não ter feito de mim um fanboy cego do grupo de Elias Rønnenfelt (voz/guitarra), Johan Wieth (guitarra), Jakob Pless (baixo) e Dan Nielsen (bateria), a verdade é este estabeleceu uma fasquia muito elevada. Contudo, apesar da homérica tarefa, You’re Nothing conseguiu, na minha opinião, ultrapassar em larga escala as expectativas que pendiam sobre si e revelar-se um fabuloso registo.

Apresentando-se com uma versão mais concisa e depurada da sonoridade dos Iceage, que aproxima o grupo de terrenos mais afectos a um Post-Punk/Art Punk “militarista” e anárquico (lembrando os britânicos Crass), You’re Nothing é, ainda assim, uma obra que recusa quaisquer compromissos e que retém, no seu âmago, toda a urgência catártica e todo o apelo primário de New Brigade. Esta combinação de uma renovada consistência com os “velhos” cheiros dos fumos das fábricas e das caves suadas dos concertos faz com que o segundo LP dos Iceage seja, de certa forma, a sequela lógica da estreia do quarteto dinamarquês.

iceage - you're nothing

Ao nível da produção, levada a cabo por Nis Bysted em conjunto com a banda, não existem grandes diferenças em relação a New Brigade; pelo contrário, apesar de um maior “aprumo” nas estruturas e nas dinâmicas das canções, que lhes trazem mais variedade e que são a demonstração prática de dois anos de experiência e maturidade acumuladas, no que diz respeito às opções estéticas os Iceage mantêm toda a sua abrasividade e crueza, produzindo resultados violentos e incrivelmente directos.

No departamento vocal, o jovem Elias presenteia-nos de novo com uma entrega bipolar, que balança entre uma acalmia monocórdica e uma berraria desbragada e a plenos pulmões, numa interessante dualidade que complementa muito bem a agressão sonora dos Iceage. Quanto às letras, em You’re Nothing vemos o quarteto a desenvolver temas a partir de um ponto de vista muito niilista e anómico, de uma maneira paradoxalmente apática e combativa. Em relação a defeitos, não há muito que possa apontar a este LP, tirando um par de peças menos conseguidas que, a meu ver, se afastam da solidez e da consistência geral de You’re Nothing.

Para os destaques individuais deste álbum, devo sublinhar a enérgica Coalition, a monolítica Burning Hand, a apaixonante In Haze, a fulgurante Everything Drifts, a épica Wounded Hearts e a frenética Rodfæstet como os pontos altos de You’re Nothing. No outro lado do espectro, devo apontar as insonsas e sensaboronas Morals e Aware como as únicas faixas que falham, a meu ver, em estar à altura do nível de qualidade das restantes peças deste LP.

Em suma, com You’re Nothing os dinamarqueses Iceage conseguiram fazer algo que era, a meu ver, quase impossível e superaram de forma exímia o sublime trabalho desenvolvido em New Brigade. Mais focados e maduros, os quatro paladinos de Copenhaga trouxeram-nos com este sólido e conciso LP uma versão renovada da sua sonoridade base, conseguindo ainda assim manter toda a sua identidade e familiaridade. Apesar de ainda ser cedo para começar a apontar favoritos do ano, devo admitir que o excelente frenesim Punk/Post-Punk impresso em You’re Nothing pelos Iceage faz deste um dos primeiros grandes álbuns de 2013.

Nota final: 9.0/10

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945

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