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Mogwai – Les Revenants Soundtrack

Os Mogwai são inquestionavelmente uma das bandas que mais beleza, essência e particularidade dão ao movimento que conhecemos como post-rock. Foram, sem dúvida, uma das bandas pioneiras a estruturar a sua música com alternâncias súbitas entre ambiências mais calmas e rasgos de guitarras angulares estrondosos, como o fizeram, em expoente máximo, com Young Team, lançado em 1997. Desde essa altura, grande parte das bandas dentro do género fazem brotar cá para fora as influências nítidas dos escoceses na sua sonoridade e a verdade é que mais de dezena de anos depois a vitalidade permanece: os Mogwai não sabem como fazer má música.

Não é novidade nenhuma que se associe música post-rock a uma qualquer banda sonora; os dois podem perfeitamente viver em simbiose e, além disso, pouca música de cariz instrumental (sendo que nem todo o post-rock é unicamente instrumental) se pode revelar tão visceral ao ponto de marcar as nuances que convergem com a acção propriamente dita de uma forma tão bela e única. Os Mogwai são tudo isso. Para a banda sonora de Les Revenents a música dos escoceses é essencialmente triste, fazendo jus àquilo que o movimento nos costuma mostrar.

Les Revenants Soundtrack é um disco composto por catorze faixas e traz-nos, sobretudo, arranjos de teclas, passagens fugazes pelas guitarras e alguns ruídos de fundo que se fazem acompanhar pela misteriosidade, escuridão e incerteza inerentes à sonoridade aqui apresentada. Aqui não existe o barulho em forma de crescendo, não existem rasgos de guitarras, não existe uma bateria demoníaca que nos atormenta os ouvidos. Tudo isso foi desviado para segundo, terceiro, quarto plano. Aqui o ruído é menos directo, mais incorporado na estética sonora e é servido de um modo menos frio que outrora; mas a verdade é que ele por lá continua a permanecer. É quando despertam as guitarras, fundidas com as teclas, e se ecoam, em plano de fundo, reverbs que este disco mais apelativo se torna. É certo que isso provavelmente se dê devido ao facto de ser um apaixonado pelo barulho, mas a realidade é que é em faixas como Wizard Motor ou Modern que este disco mais me aprisiona a ele.

Porém, não nos esqueçamos que este Les Revenants Soundtrack é um registo que enfatiza, sobretudo, pianos e teclas como máxima orientação filosófica do som. Nesse prisma, impressiona a capacidade em criar mistério. Kill Jester ou Jaguar podem perfeitamente servir de exemplos maiores disso mesmo, mas, imaginemos, é numa faixa intitulada Portugal que atingimos o clímax relativamente a esse parâmetro: a maneira como esta música se inicia é calma e pouco densa, mas rapidamente vai incrassando o seu corpo num crescendo ininterrupto até ao seu fim, sob moldes tristes com um violino a puxar a lágrima ao canto do olho. É uma música inegavelmente triste; que começa leve e abrasiva, mas que se vai asfixiando em si própria à medida que corre.

A verdade é que nos tempos que correm poucas músicas se esquivaram tão pouco da proximidade realística de espelhar Portugal através de uma música com uns meros quatro minutos. A verdade é que o reflexo de Portugal está todo lá dentro, mesmo não estando; um país perdido, onde a esperança surge cada vez mais em plano de fundo, tal como o ruído que por lá habita, asfixiada pelas más condutas éticas de quem nos governa. E a mais pura das verdades é que se foi preciso uma série que pouca gente quer saber para que se fizesse um hino português musicado por estrangeiros. Só desejo que os Mogwai façam muitas mais bandas sonoras. É óbvio que neste trabalho não há perfeição, há um vazio saudosista de barulho, mas a prova que aqui é dada é que, uma vez mais, os Mogwai não sabem como fazer má música. E isso, meus caros, isso é louvável.

Nota final: 7.7/10

*Artigo redigido, por opção do autor, ao abrigo do acordo ortográfico de 1945

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