Captura de ecrã 2013-03-28, às 19

‘A Filha do Papa’: um segredo bem guardado

Luís Miguel Rocha já nos convenceu que “sabe tudo sobre Papas”, como diz Jô Soares, e, mais ainda, que é um dos maiores escritores portugueses da atualidade. A Filha do Papa vem corroborar isso mesmo, com uma genialidade que nos obriga a comer as páginas do livro, antes que a falta de ar nos assalte por não termos desvendado um dos muitos nós que a sua narrativa vai criando. Mais uma vez, o Vaticano: os escândalos bem reais, as pontas soltas inspiradoras de uma ficção muito bem construída e personagens robustas que nos guiam por esta maravilhosa viagem.

No centro deste A Filha do Papa encontra-se um misterioso rapto, de um jovem padre, Niklas, o primeiro dos muitos acontecimentos que terão lugar até às oito horas da manhã. Uma madrugada conturbada, na qual se pretende acabar de vez com um dos maiores segredos do Vaticano: a filha do Papa Pio XII. Enquanto a Igreja procura sair ilesa de toda esta situação, Rafael divide-se entre cumprir a sua missão e… bom, cumprir a sua Missão. Mas não nos podemos esquecer que ele sabe sempre demasiado.

Já tínhamos saudades do Rafael e da Sarah. Já são quatro livros e muitos anos a acompanhar as suas aventuras, a conhecê-los melhor e a torcer por eles. Com tantas estórias – e tanta história –, são mais do que simples protagonistas de uma ficção embrenhada nos meandros da Igreja Católica. Tornaram-se personagens verdadeiramente queridas para o leitor, que quer ajudá-los a sobreviver e a fugir daquilo tudo. Será que conseguem, desta vez?

Quer também que eles fiquem juntos, apesar de o saber praticamente impossível. Desde O Último Papa que projetamos ali uma relação próxima, o que nunca é confirmado, mas cuja utopia também nunca é negada. E isso acaba por ser ainda mais estimulante; dá-nos esperança para imaginar à vontade. O lenço dela, como objeto transversal a toda a história d’A Filha do Papa, é um elemento que resulta muito bem nesta construção de sentido.

O romance funde-se no thriller, em personagens ficcionadas como a freira e o outro jovem raptado (tentando não ser spoiler), mas também nas históricas, como o Papa em questão e a sua Pasqualina. Grandes mulheres ao lado de grandes homens, que sem elas não seriam quem foram. E não é fácil viver num mundo de homens. Luís Miguel Rocha homenageia-os também: um Papa totalmente diferente da imagem que a maioria tem dele, preocupado e defensor dos fiéis, e uma madre corajosa, trabalhadora e determinada que sempre o amou.

Um amor que mancha a imagem de um Papa no Vaticano, o que não deixa de ser paradoxal, dado o egoísmo que com ele contrasta nas ações da própria Igreja Católica. Sempre com ironia na ponta da língua, o autor mostra-nos um mundo altamente administrativo e burocrático que se preocupa apenas com a imagem que passa para o exterior, com a eliminação de alvos indesejáveis e o restabelecimento da ordem. Proteger os interesses da Santa Sé, acima de tudo. Egoísmo, se quisermos, também das mulheres que agiram apenas em prol da sua felicidade e entre aqueles que não mediram os seus atos e se deixaram levar pelo amor – embora estes não mereçam essa culpa.

Luís Miguel Rocha abre-nos a porta a um mundo de escândalos neste A Filha do Papa. Em primeiro lugar, aos filhos dos padres (e das freiras), que não são verdadeiramente alvos de condenação. Depois, ao Banco do Vaticano, às lavagens de dinheiro e aos titulares com pseudónimos. Leva-nos também a conhecer o complexo e minucioso processo de canonização, a rivalidade existente entre a Gerdarmaria Vaticana e a Polizia di Stato de Roma, e a relação algo conturbada destas com o serviço de espionagem da Igreja, através de personagens como Guillermo, Comte e Cavalcanti, que introduzem um certo humor na trama.

São personagens sempre muito ricas na sua caracterização, sobretudo com o fascínio do autor pelas histórias dos vilões. Este tem uma paixão insaciável por livros raros, é mudo e no fundo não tem mau coração. Já o inspetor da policia tem um fascínio por mulheres comprometidas. Anna é uma mulher sobre a qual pensamos saber tudo, mas que vai deixando um rasto de mistério em tudo o que diz. Simpatizamos com Jacopo. De JC nem se fala. É o maior vilão e o maior herói, ao mesmo tempo. Nunca sabemos bem o que pensar dele.

Ao contrário dos três primeiros livros, nesta aventura não conseguimos colar-nos de forma semelhante a Sarah e descobrir, ao mesmo tempo que ela, as pequenas verdades que constituem a história. Sarah está longe, sempre protegida da verdade, enquanto Rafael continua muito à frente de todos. Por isso vamo-nos agarrando às personagens que vão despoletando essa descoberta, num ping-pong constante de revelações e novas pistas, de rostos e nomes conhecidos que vão surgindo e ressurgindo. Rafael continua a proteger-nos, também, do que vamos temendo que aconteça de seguida. Sabemos que ele tem sempre uma solução.

Nunca é fácil escrever sobre coisas reais ou históricas, muito menos quando envolvem uma instituição como a Igreja Católica. A verdade aqui é sempre muito relativa. Mas o jogo está nesse equilíbrio de forças entre a realidade e a ficção, dando sempre uma margem para se acreditar no que se quiser. Diga-se, como a própria fé. O entretenimento é garantido, através de uma construção inteligente do thriller, com muita ação, não desprezando a reflexão em longas descrições ou diálogos históricos.

Quatro livros provam o sucesso desta fórmula Vaticano, que deve muito também a esta capacidade de se dizer apenas o necessário para se apresentar uma ideia, sem a explicar totalmente. A meio do livro tive a sensação de que este volume tinha algo de diferente dos outros: talvez mais emoção, mais suspense, mais ironia. Mas a sensação advém apenas desta força que nos impele a ler mais um capítulo; que nos faz querer acompanhar a escrita viciante e fascinante. Não a experimentamos em todos os livros e é bom recordar que o autor tem a capacidade de nos “inflamar” desta maneira.

Luís Miguel Rocha marca já um estilo inconfundível de escrita, mais até do que característico de um género literário. A Filha do Papa é o culminar deste génio que imprime à escrita. Podia ser o último da saga, mas cheira-nos que os leitores ainda não vão deixar. Porque quando acabamos de ler, por muito que esse tenha sido o nosso desejo desde a primeira página, parece que ficamos desamparados, que não queríamos que tivesse acabado.

E ficamos sempre à espera do próximo.

Podes conhecer melhor o autor aqui.

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