Há um encanto nas tragédias românticas, a necessidade de alimentar o público com filmes recheados de acontecimentos trágicos entre um casal mantém-se e arrasta-se na história do Cinema. Basta começar com Titanic, de 1997. Jack e Rose embarcam no maior e imponente navio alguma vez construído, apaixonam-se em alto mar e veem as existências afundadas com o poderoso barco, em 1912. Existe também a versão mais recente do Anna Karenina, com Keira Knightley a encarnar a dama russa da alta sociedade, vítima do amor que começa com o conde Vronsky em 1874. E agrafado a estas tragédias românticas aparece O Profundo Mar Azul que estreia hoje nas salas de cinema portuguesas, com Rachel Weisz a protagonizar este drama realizado por Terrence Davies.

A fórmula presente no filme é igual a tantas outras em obras do mesmo género: uma jovem casada, sem amor pelo marido que acaba por se apaixonar por um outro homem. Mas são os pormenores que acabam por fazer a diferença em qualquer enredo. Desta vez, temos Hester Collyer, casada com o juiz William Collyer, a apaixonar-se pelo oficial da Royal Air France, Freddie Page. Os primeiros minutos mostram a jovem Collyer a preparar o suicídio. Ouve-se uma passagem da carta a ser deixada ao amante e pouco depois as vozes de pessoas preocupadas e à procura de Hester. Partes do passado são mostradas ao público, um puzzle para compreender a decisão trágica do presente: momentos do primeiro contato entre os amantes, o choque de William ao descobrir a traição da esposa e a mudança de vida da protagonista.

O Profundo Mar Azul não oferece qualidade no enredo, é necessário ter em atenção os pormenores quer nas personagens quer na banda sonora, de Samuel Barber, tão bem colocada no filme. O ingrediente que marca a diferença desta vez é a demonstração de amor de William Collyer pela mulher que o abandona. Existem tentativas para fazer com que Hester regresse ao lar e esqueça o amor pelo militar, que combateu na Segunda Guerra Mundial. Desta vez não existe uma conotação negativa associada ao marido abandonado, carregado de raiva e ódio contra a ex-mulher numa sociedade tão ligada aos escândalos de casamentos naquela época. Contar a história através de um puzzle de memórias é o condimento para esta obra cinematográfica, desmembram-se ervas e árvores para compreender a razão para a tentativa de suicídio.

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Mas apesar dos esforços para não existir monotonia no enredo existem momentos demasiado parados que retiram valor ao filme. A perturbação de Freddie, graças à guerra, equivale a um acessório, não há sentimento transmitido ao público. A qualidade da interpretação do ator Tom Hiddleton não é das melhores ao longo de todos os minutos, assiste-se a um amante não tão disposto a lutar e a amar para a eternidade a jovem Hester. Já Rachel Weisz e Simon Russell Beale equilibram a balança ao interpretarem papéis brilhantes. A jovem casada, pronta para abandonar um casamento miserável e assustada com tantas responsabilidades que lhe acabam por cair em cima, e o velho juiz, a insistir pelo seu regresso. E não há mais nenhum papel relevante, a cerca de hora e meia de filme é deles.

O Profundo Mar Azul está longe de ser um filme brilhante. Contém alguns ingredientes que o fazem mais saboroso do que todos os dramas românticos mas não consegue elevar-se. É uma fórmula para ser visualizada uma vez e para ser colocada no fundo da prateleira, para o público esquecer. O encanto neste drama romântico permanece apenas em alguns momentos.

6,5/10

Ficha Técnica:

Título Original: The Deep Blue Sea

Realizador: Terrence Davies

Argumento: Terrence Davies

Elenco: Rachel Weisz, Tom Hiddleston, Simon Russel Baele, Ann Mitchell e Harry Hadden-Paton

Género: Drama

Duração: 98 minutos