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8 ½ Festa do Cinema Italiano: A existência humana virada do avesso

O antepenúltimo dia da 8 ½ Festa do Cinema Italiano deu a conhecer Il Futurofilme que ficou aquém das expetativas.


Terça-feira, sexto dia da Festa do Cinema Italiano. Foi uma sala Manoel de Oliveira quase cheia que recebeu Il Futuro, de Alicia Scherson, em pleno dolce far niente proporcionado pela interrupção letiva de Páscoa (dirigimo-nos aqui aos estudantes, privilegiados que gozam de tal descanso!). Antes da sessão, a considerável fila que se formava para a bilheteira do Cinema São Jorge permitia compreender a expetativa criada em torno do filme.

Baseado no conto Una novelita lumpen do escritor chileno Roberto Bolaño, a película parece ter defraudado os anseios dos espectadores.

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IL FUTURO – 6.5/10

“Tudo era futuro. O próprio presente tinha-se tornado uma parte do futuro…” Uma frase profundamente reflexiva, dita a certa altura pela protagonista, e que serve para caraterizarmos este Il Futuro. Bianca e Tomas, jovens adolescentes de Roma, são bombardeados com a notícia da morte dos pais num acidente de viação. Um acontecimento trágico que mudaria por completo o rumo das suas vidas. Uma mutação astral, uma destruição do seu chão. Mas a vida continua. Entregues a si próprios, discutem o futuro e as perspetivas por ele desenhadas. Bianca começa a trabalhar num cabeleireiro do bairro, expressando, em conversas com o irmão, a vontade de um dia abrir o seu próprio salão. Por sua vez, Tomas é um entusiasta das tecnologias da informação, revelando especial interesse pelo ramo da inteligência artificial. Quando ingressa à experiência num ginásio, conhece dois irmãos – Libio e Boloñes– que alberga em casa, contrariando a vontade de Bianca.

Bianca é uma adolescente deprimida e insegura, que se fecha na sua redoma, longe do resto do mundo. Contudo, a sua vida daria novamente uma volta de 180º: apaixona-se por Maciste, uma ex-estrela de cinema norte-americano, residente numa mansão dos arredores, e que Libio e Boloñes conheciam por treinar no ginásio. Os dois irmãos haviam-lhe proposto que conquistasse a confiança de Maciste, com o intuito de descobrir o cofre forte da casa para assim darem o “golpe do baú”. A jovem começa a frequentar a mansão do antigo ator (e em tempos “Mister Universo”), um homem solitário, que mergulha no marasmo quando perde a visão. Entre serviços sexuais e longas conversas sobre a existência humana, Bianca perde-se de amores, relegando para último plano a procura do cofre.

Bianca, cansada da pressão de Libio e Boloñes , decide expulsá-los de casa e abandonar o plano. Ao mesmo tempo, a sua relação com Maciste deteriora-se, fruto do desprezo que ele lhe concede depois de ela lhe confessar o seu amor. O “Mister Universo” está acabado, definha. Um drama capaz de nos fazer refletir sobre a condição humana e a atuação face aos maiores constrangimentos da existência, mas que tem um desfecho pobre, do ponto de vista da narrativa.  O principal problema do filme é a inexistência de uma relação final de causa-efeito, como se tudo se atribuísse à inércia e falta de forças de Bianca, invadida por uma necessidade de viver num mundo à parte. A banda sonora também não ajuda, notando-se um desfasamento entre a sua veemência e a ação da película.

A 6ª edição do 8 ½ Festa do Cinema Italiano termina esta quinta-feira em Lisboa, com o destaque a recair sobre a sessão de encerramento no Cinema São Jorge, prendada com La migliore offerta, filme de Giuseppe Tornatore – integrado na secção Panorama. O Espalha-Factos estará a acompanhar a sessão. A Festa do Cinema Italiano segue depois para mais cinco cidades – Coimbra, Porto, Funchal, Loulé e Luanda.

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