A expectativa era muita. Esta era, afinal de contas, a 10.ª edição do Moita Metal Fest. O festival tem crescido a olhos vistos de anos para ano, e tal é a importância tem no underground que até vêm excursões de camioneta do Porto até à Moita com metaleiros e malta do hardcore, todo um grupo sedento de música pesada e cavaqueira não muito amena. Casa cheia durante os dias 22 e 23, como seria de esperar, mesmo tendo em conta que o mui respeitável (claro…) Tony Carreira teve um duplo espetáculo no Pavilhão Atlântico nas mesmas datas.

Será que a malta dos Switchtense, banda organizadora do festival, cumpriu o que prometeu? Claro que sim, impecável, desde as bifanas deliciosas à qualidade de som. Mas passemos à música (desde já pede-se perdão pelo artigo ser tão grande e compreender os dois dias, mas o autor, ou seja, eu, esteve fora e sem computador, tendo de escrever tudo de empreitada antes que o artigo em si se torne irrelevante).

1.º dia

A primeira banda a tocar na Moita foram os Aernus, a demontrar um Death Metal progessivo interessante, com dinâmica entre as transições com guitarras sem distorção e os riffs angulares e intensos, fazendo–me lembrar uns Opeth meets The Faceless. Seguiram-se os Terror Empire. A banda conimbricense de Thrash Metal provocou as primeiras movimentações em frente ao palco. Deu um show bastante enérgico e musculado, a pedir por mais pessoas que tardavam em chegar, terminando com a portentosa Last Fire.

Os Atentado deram simultaneamente o concerto mais fácil e mais dificil de analisar. É difícil se quisermos dissecar cada música, fácil se simplesmente dissermos que foi meia hora de porrada alimentada pelo Crust com Grindcore destes senhores. No entanto, tendo em conta  que as novas músicas contam com partes mais arrastadas e pesadas, fica-se com um bom prenúncio do que o próximo álbum poderá ser, porque não basta só moer com violência supersónica, há que depois mandar os golpes finais na vítima incauta. Fatality.

Os Process of Guilt foram toda uma experiência. Há uma razão para o album Faemin destes eborenses ter sido considerado o melhor álbum nacional do ano passado. Riff após riff cataclísmico, estes senhores criam uma aura hipnótica, com uma repetitividade que não aborrece mas encanta e com a bateria a providenciar uma diversidade fenomenal de padrões. Seria um crime se os PoG não figurassem no Roadburn deste ano, dado o buzz que andam a gerar. Terminaram com Faemin, e deu-me, pom isso mesmo, fome por mais.

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Process of Guilt

A última banda a subir ao palco no primeiro dia foram os Bizarra Locomotiva. O que dizer sobre estes senhores? Aqueles que costumam ler estas linhas (os 5 ou 6 de vocês, eu sei, não mintam) sabem que este que vos escreve tem uma relação de fanboyismo inveterada pelos Bizarra, e este concerto foi mais uma razão para tal obsessão. É que eles não sabem mesmo dar maus concertos, até irrita. Um concerto que foi mais curto, mas incluiu os clássicos de sempre, e até a menos habitual Grifos de Deus. Qualquer pessoa que ache que a música pesada não é dançável, que se aventure num concerto destes tresloucados, que não tendo aquela qualidade açucarada irritante dos Rammstein, assentam a sua base no Rock Industrial, e a partir daí apenas o tornam mais pesado. Outra coisa que os separa dos alemães é o intimismo que criam com a audiência, sendo um exemplo o Rui Sidónio a saltar para o meio da plateia e a cantar O Escavarelho a meias com o público. Se ainda restam dúvidas, eu deixo aqui o testemunho de dois dos três colegas que assistiram o concerto comigo, que nunca tendo visto a banda ao vivo, confessaram-me ter sofrido “Out of Body Experiences”.

2.º dia

Começou o segundo dia, às 15 horas, com uma tarde chocha, naquele pára-arranca de chuva irritante. Ainda bem que o festival é indoor ou tinha sido deveras desagradavel. Quem teve a honra de dar o início às festividades foram os Awaiting the Vultures. Contando com Xinês dos Switchtense na bateria, os Awaiting the Vultures presentearam os ainda poucos presentes com uma bela demonstração de Death Metal Progressivo Instrumental, com dinamismo e sem nunca cair em devaneios desnecessários. Um óptima maneira de começar o segundo dia.

Meia hora depois, estavam os Nuklear Infektion a dar seguimento ao festival. Esta rapaziada muito jovem de Lisboa continua a crescer a olhos vistos, com o seu Thrash Metal inspirado na velha guarda a ganhar cada vez mais consistência e garra ao vivo. Perante a insistência do vocalista João Teotónio em fazer acordar o Moita, surgiram as primeiras movimentações junto ao palco, ao som de covers dos Sepultura e Motorhead e também de malhas originais como We’re on Command ou Preachers of Lies.

Sendo a primeira das duas bandas de Hardcore do dia, os Shape vieram a seguir, trazendo consigo um alinhamento pendente entre o material mais à antiga da demo de 2011 e o material recente, mais melódico e com um pendor mais emocional, mas mantendo um peso assinalável, como se pôde ver com toda a dança a decorrer em frente ao palco. Tendo começado com ligeiros problemas técnicos (uma raridade no Moita, diga-se), assim que engataram a segunda, foi sempre a abrir, tendo só parado com a mais recente Lost & Dead, a acabar o set de forma demolidora e antémica.

Estando neste momento a gravar o primeiro álbum, os Primal Attack foram a próxima banda e deixaram um bom prenúncio do que podermos contar: Groove/Thrash que não sendo particularmente inovador, encontra-se assente numa parede rítima bruta, com meios tempos e breakdowns impiedosos, causadores de devastação por toda a plateia. Digamos que não eram poucos aqueles a abanar a cabeça quando Pica, dos Seven Stitches, a comandar as tropas da danação, apelou a malta a manter o ritmo. “Esta bitola não falha” disse ele, e teve razão.

Antes do já merecido intervalo, especialmente para aqueles estavam lá desde o início e tinham estado lá no dia anterior (EU!), houve ainda uma dose dupla de javardice, com os Brutal Brain Damage e os Dementia 13. Se os Gwydion proporcionaram o maior bailarico do Moita no ano passado, este ano essa honra foi para os BBD. Possuidores de um imponente Death/Grind, estes proponentes da glorificação do acto porco e obsceno colocaram toda a gente em alvoroço na forma como convidaram os presentes a comportarem-se como T-Rex’s retardados, criando uma das maiores adesões a nível de público do dia. Já os Dementia 13, a carregar o estandarte do Death Metal mais ortodoxo, exploraram a natureza potencialmente sanguinolenta do ser humano, pintando um quadro demente (harharhar) sobre a tela de riffs em tremolo e blastbeats tão típicos mas tão apetecíveis deste género, destacando-se ainda a óbvia influência na escolha de uma cover de Six Feet Under, The Enemy Inside.

Intervalo, tempo para recuperar energias e níveis etílicos, que isto de andar a fazer trabalho jornalístico no meio dos moshes cansa, especialmente se a pessoa em causa for gorda. Acabado este período, subiram os The Firstborn ao palco, e com eles subiu boa parte da audiência para outro plano de existência. O seu metal extremo de inspiração budista vociferado por Bruno Fernandes convida para uma audição mais cerebral, tornando-os algo polarizantes. A sua performance serviu para descansar o corpo e activar a mente, especialmente no destrinçar de pormenores, como na dinâmica das três guitarras ou na beleza da cítara, num quadro de aguarelas algo distanciado do resto do cartaz mas muito bem vindo.

Numa volta de 180º em relação à banda anterior, vieram os Omission. Os nuestros hermanos, provenientes da capital espanhola, tocam Black/Thrash e vestem-se a rigor para a ocasião, com toda a indumentária do demo que isso implica. Mas fora de aspectos estéticos, o concerto destes madrilenos foi uma torrente profana de thrash, ou não tocassem músicas como The Slaughter Hour ou Satanic Feelings. Destaque para o baixista Surt, com os seus solos e com os mids do amplificador lá para a cima, a fazer lembrar o Lemmy, tornando o baixo tão acutilante que até dava para se ouvir em Lisboa.

Do Porto vieram os Web, a continuar com a toada Thrash, mas mais groovy e moderno. Tendo já bastantes anos de experiência em cima e um culto já acentuado, os Web deram um espetáculo bastante consistente e profssional, mas, e desculpem-me os fãs e os próprios Web, talvez mesmo por cansaço, o concerto destes veteranos do Thrash não me causou particular impressão. No entanto, músicas como Awake e (In)Sanity (esta última pedida pelo colaborador do Espalha-Factos Gonçalo Paralva, que passou mais de metade do tempo no palco do que na plateia durante o festival) causaram um regonzijo visível na malta, terminando gloriosamente o concerto com If Only There Was Light.

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Revolution Within

Trazendo uma intensidade fora do comum, os Revolution Within causaram provavelmente o mosh mais concorrido dos dois dias. Nada de inesperado, dado o Thrash fortíssimo que expeliram. Petardos como Revenge Now e Pull the Trigger, que contou com a participação de Hugo dos Switchtense, foram os ingredientes para a caldeirada que se verificou em frente ao palco com Raça, qual cozinheiro endiabrado, a gesticular como se estivesse mexer a sopa a ser preparada no pit. Para acabar em beleza, fez-se um wall of death na Stand Tall, assinalado assim o fim de uma bela prestação do gang de Santa Maria da Feira.

Já iamos na recta final, mas o melhor ainda estava para vir, o cansaço podia esperar. Os For the Glory foram iguais a si próprios, com um concerto de enorme entrega e cumplicidade com os fãs da banda, o que ficou demonstrado quando o palco ficou cheio de gente lá para o fim. Armour of Steel deu o tiro de partida para a série de hinos que se seguiriam com All the Same e Some Kids Have no Face. Por entre músicas, como é certo, o vocalista Congas aproveitou para falar sobre o que lhe ia na alma, sendo a destacar o apelo à união entre o Metal e o Hardcore, naquele que é o festival de Metal por excelência, mas que felizmente dá abertura a outros géneros musicais. O concerto teve o seu fim de forma apoteótica, com Life is a Caroussel (outra vez com Hugo dos Switchtense) e Survival of the Fittest a testar os limites do palco da Sociedade Filarmónica Estrela Moitense.

Last but not least, as lendas vivas que dão pelo nome de Simbiose presenteram os que ainda ficaram com uma demonstração imparável de Crust carregado de esteróides. Descarga após descarga furiosa e com o d-beat em completo funcionamento, o concerto dos Simbiose apenas pecou pela falta da ligação entre a banda e o público que este tipo de concertos pede, mais por culpa do público, já cansado, onde poucos ainda tinham a capacidade de moshar e ir ao palco, do que da banda, já que Johnie Simbiose esteve continuamente a atiçar o público e até a ajudar alguns a subir para o palco. Num set repleto de micro-músicas, houve espaço para percorrer a maior parte das fases da carreira como em Zoo (Não) Lógico ou O Seu Lugar, com destaque, tendo em conta a situação actual do país, para as mais recentes Reage à tua Frustração, Total Descontrolo e Parados, Humilhados e Calados, terminando com a pujante Information Overload.

Enfim, mais um ano, mais um Moita Metal Fest, mais um fim de semana de camaradagem e boa música. O Moita assume-se como um festival de enorme importância para o underground português, não só pelo profissionalismo da organização, como também pela diversidade das bandas e a oportunidade de exposição que lhes oferece, sendo certo que, quem lá for, vai sempre descobrir novas bandas para seguir com atenção. O saldo deste ano é muito positivo; o ano passado levei um pontapé na nuca no mosh, este ano um senhor que costuma ser um habitué, sempre num estado de ebriedade pouco recomendado, deu-me um beijo no pescoço depois de o ter ajudado a levantar-se do chão. Porque o Metal também é amor.

Fotografias por Diogo Oliveira

(Actualização 27/03/2013 – Inclusão de fotografias)