8 ½ Festa do Cinema Italiano, dia 6. I primi della lista e Bellas Mariposas emergiram do país do Renascimento, deambulando entre a comédia e a fantasia. Resultado: uma tarde e um serão bem passados.

A Festa do Cinema Italiano vive e renasce todos os dias. Algures no século XVI, Leonardo da Vinci diria que “A vida bem preenchida torna-se longa”. As várias horas despendidas a acompanhar as sessões de cinema deste festival levam-nos a concordar com a afirmação do pai do Renascimento. A cada filme que passa sentimo-nos enérgicos, revigorados, revitalizados.

Ontem, a batuta foi apontada para dois sentidos distintos. Bellas Mariposas, de Salvatore Mereu – integrado na secção Competitiva -, vê a sua ação centrada em Cagliari, em torno das vivências juvenis de duas raparigas (Cate e Luna). Mergulhadas num mar de pobreza e degradação, evocam sentimentos de inquietação aliados a uma inesgotável vontade de sonhar e fantasiar, própria da adolescência. A exploração da ténue e pueril fronteira entre imaginação e realidade, profundamente enraizada nos mais novos, é uma das propostas trazidas por Mereu com este filme. A sessão, que decorreu no Cinema São Jorge, contou com a presença do realizador, e repete quarta-feira, às 19h00, na sala 3 do mesmo cinema.

I primi della lista – integrado na secção Competitiva –, de Roan Johnson, foi o outro contemplado pelo toque da batuta. Passado no início dos anos 1970, o filme narra a fuga verídica que juntou três jovens ativistas do movimento estudantil de Pisa, seguros da preparação de um golpe militar fascista por parte do exército Italiano. Amedrontados pela possibilidade de serem prontamente perseguidos, decidem partir de carro para a Áustria, em busca de asilo político. Mas, afinal de contas, tudo não passava de um falso alarme…

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I PRIMI DELLA LISTA – 9/10

“Contra cabeludos e comunistas, tanques e paraquedistas”. Esta frase, pintada numa cabine telefónica surgida pouco depois do início do filme, reforça o sentimento de medo que consumia os jovens amigos, invadidos pela certeza da existência de uma ofensiva fascista e de um ambiente de perseguição política da extrema-esquerda. Masi, Gismondi e Lulli, três ativistas do movimento estudantil de simpatia maoísta, partilham o sonho de ganhar a vida tocando pela resistência, de se dedicarem à luta política através das suas guitarras. Masi, afamado compositor de música de intervenção, diz ter contactos que lhe garantem estar a ser preparado um golpe militar fascista, à semelhança do que ocorreu em 1967 com os coronéis gregos.

Os três jovens, protótipos do estilo característico dos revolucionários no início dos anos 70 (fartos cabelos e bigodes, calças à boca de sino), põem-se em fuga até à fronteira com a Áustria, decididos a requerer asilo político num “país democrático” e a singrarem como cantores de resistência. Durante a viagem, parados numa estação de serviço, cruzam-se com militares a caminho de Roma, situação perturbadora e que confirma as suspeitas de golpe militar. Masi, um “teórico da conspiração”, inquieta os companheiros com a ideia de que podem estar a ser procurados, amedrontando sobretudo Lulli, um inexperiente e ingénuo rapaz de 19 anos. Outro dos exageros surge quando Masi obriga Gismondi a cortar o cabelo, justificando-o com a necessidade de passarem despercebidos.

Os três são presos na Áustria por falta de documentos, depois de terem provocado um conflito diplomático entre italianos e austríacos. O filme, uma comédia cativante, tem um desfecho, no mínimo, insólito. Os militares estavam a caminho de Roma porque, a 2 de Junho, se realizavam as comemorações do dia da República Italiana. Afinal, o golpe militar não passava de um rumor hiperbólico perpetrado por Masi, um ativista incapaz de diferenciar a obsessão da realidade. O ridículo da situação é divinamente trabalhada por Roan Johnson, retratando uma época histórica em que as precauções e os cuidados exagerados tomavam contornos caricatos.

A 6ª edição da 8 ½ Festa do Cinema Italiano tem hoje o seu antepenúltimo dia, com as atenções viradas para Il Futuro, de Alicia Scherson – integrado na secção Competitiva -, com hora marcada para as 19h15 no Cinema São Jorge. Às 21h15, também na Avenida da Liberdade, decorre a Especial Il Corto Alessio Di Zio, sessão dedicada à passagem de três curtas metragens. A Festa do Cinema Italiano decorre em Lisboa até à próxima quinta-feira, seguindo para mais cinco cidades – Coimbra, Porto, Funchal, Loulé e Luanda.