Não é Versalhes, mas não lhe fica nada atrás. Depois de se transformar na artista mais visitada no Palácio de Versalhes dos últimos 50 anos – cerca de 1,7 milhões de visitantes em três meses – Joana Vasconcelos ruma agora ao Palácio Nacional da Ajuda.

Em Lisboa, a artista plástica apresenta 38 peças da sua autoria, tendo um terço delas sido criada propositadamente para esta exposição, produzida em 5 meses (um tempo recorde a comparar com Versalhes, com um ano e meio).

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A escala e o facto de o Palácio da Ajuda ser pouco conhecido dos portugueses levaram Joana Vasconcelos a responder afirmativamente ao desafio. Uma “grande ousadia” mas também um “privilégio”, assegura a artista que sente “um gosto especial” por trabalhar com o património nacional.

Basta entrar na primeira divisão para perceber que nos aguarda uma visita memorável. Petit Gateau, um bolo criado com formas plásticas de praia em formato de morangos, peras e maçãs, é a primeira peça. Um colorido que se mantém para a sala seguinte, num jardim às escuras cuja única iluminação é dada pelas plantas elétricas que lá estão. Se a princípio o labirinto parece complicado, rapidamente o olhar se ajusta.

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A cada sala que se segue descobrem-se novas facetas da obra de Joana Vasconcelos. Na ala do rés-do-chão uma inspiração constante: faianças Bordalo Pinheiro revestidas de renda em croché dos Açores. E são animais de todos os tipos: cães, serpentes, caranguejos, sapos, cavalos, touros. Todos eles com o seu nome, prontos para que lhes possamos criar histórias de vida.

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A exposição não falha na sua adaptação ao palácio, quer ao nível de cores quer ao nível de funcionalidade. As obras parecem ser parte integrante do espaço que outrora foi habitado pela família real, distinguindo-se apenas pelo seu traço de contemporaneidade. Atinge-se o “discurso entre o tradicional e o contemporâneo” bem como a vontade de “conectar o espaço com as obras e o seu significado” que Joana definiu como objetivo.

Contudo, por vários momentos, é-se assolado pela sensação de que a beleza do Palácio não deixa respirar as obras, pelo menos nesta ala. A fusão é tão perfeita que chega a ser necessário procurar as obras no meio de toda aquela decoração real. Mas, quando se encontra, a sensação é de que a peça ali faz todo o sentido.

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Veja-se o exemplo da vespa, baptizada de Maria Pia, que habita agora no quarto de cama da rainha, ou a peça Airflow constituída por gravatas que esvoaçam na Sala do Despacho. É uma maneira diferente de descobrir o Palácio Nacional da Ajuda, adicionando-lhe um cunho completamente novo. O público e o privado encontram-se nos mesmos corredores.

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Joana Vasconcelos não esquece a portugalidade nas cores, nas formas e nas histórias. Ainda na ala do rés-do-chão a artista brinda-nos com Destinos Cruzados, uma guitarra portuguesa revisitada com croché na Sala da Música, juntando-se à harpa e ao piano que lá habitam desde sempre. No Quarto de Cama do Rei, encontra-se Vitral, recuperando as tradições das tapeçarias de Portalegre.

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A exposição vai-nos preparando gradualmente para o que virá a seguir. Todo o Vapor, uma instalação com vários ferros a vapor, em movimento, é disso exemplo. Sente-se o cheiro obrigatório na atividade de engomar. É uma forma de Joana Vasconcelos mostrar uma faceta mais divertida e bem humorada que atinge o seu cume em War Games. O Morris Oxford VI junta no mesmo espaço armas, peluches em movimento e luzes LED vermelhas a piscar. O resultado é aquela estranheza que cheira a novo e sabe bem.

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Mas é no primeiro piso que a exposição atinge o seu estado apoteótico. As salas são monumentais, as obras também. Recupera-se de uma sensação de repetição após se ter percorrido o piso anterior. A cada peça a renovação e a vontade de ver mais. De ver, ouvir e cheirar mais, não fosse esta uma exposição que convoca vários sentidos. Os objetos do quotidiano são convertidos em peças de arte pela apropriação que a artista deles faz.

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Aqui se encontram peças que vieram de Versalhes, mas também uma especial por lá ter sido censurada. A Noiva, o lustre gigante feito com tampões, marca presença nesta mostra da artista assumindo a criatividade e a visão arrojada de Joana.

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Na Sala Real apresenta-se Marilyn, os sapatos de salto alto feitos a partir de panelas e tampas, mas a grande rainha desta exposição é Lilicoptère – o helicóptero revestido a penas cor-de-rosa de avestruz e cristais Swarowski que surpreende pela sua diferença e pela sua localização. Também Perruque esteve em Versalhes e ocupa lugar privilegiado em Lisboa – se em França esteve no quarto de Marie Antoinette, em Portugal ocupa a sala com o retrato de Maria Pia.

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No primeiro piso não se sai de expectativas defraudadas, antes pelo contrário. A sensação é de descoberta a cada nova peça que se encontra, seja pela sua adequação ao espaço ou pela sua capacidade de romper com ele e com os próprios padrões de arte do visitante.

Coração Independente, Stripes, Royal Valkyrie, Deslunado, Brise ou Eurovisão são mais algumas das peças para ver nesta ala da exposição que não consegue deixar ninguém indiferente. Adaptação de materiais e objetos do quotidiano são uma presença constante.

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Joana Vasconcelos no Palácio Nacional da Ajuda é de facto uma “grande ousadia” nos tempos que correm. Com maior número de peças do que as apresentadas em Versalhes é a grande oportunidade para se ficar a conhecer a obra da artista que tem dado que falar em Portugal e lá fora na área das artes plásticas.

Goste-se ou não de Joana Vasconcelos é impossível negar a intimidade que se sente ao percorrer um palácio com tanta história e património. Alie-se isto a uma visão arrojada, a obras criativas, às tradições portuguesas reinventadas. Sim, a mistura é deliciosa e vale muito a pena ver. Porque a diferença é o verdadeiro lugar onde habita a arte.

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Fotografias por Andreia Martins

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