Todos nós já nos sentimos heróis a cavalo ao ouvirmos aquelas bandas sonoras que suprimem a noção de vazio. Todos nós  já tivemos, algures, aquela sensação majestosa de uma ressurreição momentânea. E, ao mesmo tempo, todos nós já nos deparámos com a nossa pequenez perante uma peça de piano com contornos de uma autoridade divina. “Todos nós” refere-se, é claro, a quem já parou para ouvir Ludovico Einaudi. Na noite de ontem, os que estiveram no Centro Cultural de Belém sabem bem do que falo. 

Numa primeira parte, o pianista italiano prendou-nos com o mais recente álbum, In a Time Lapse, um inventário arrojado que contempla um classicismo desregrado e autónomo. Da mesma maneira que o teocentrismo deu lugar ao antropocentrismo, In a Time Lapse fala-nos talvez da necessidade de rompimento com um desenho musical imaculado e subjugador, tudo num estalar de dedos, num lapso de tempo, melhor dizendo. Abram fileiras, estendam o tapete vermelho: vêm aí os violinos electrificados, a percussão rebelde dos bombos e das pandeiretas, os sons digitalizados.

Temas como BrothersExperience Newton’s Cradle são bons exemplos de um discipulado que tomou as rédeas da criatividade, assumindo-se como mestre de uma nova doutrina. Mozart, Chopin e Szpilman sentir-se-iam ultrajados se pudessem ouvir este Ludovico Einaudi. São composições ricas em dicotomias como silêncio/intensidade, compasso linear/compasso disforme, resguardo/ousadia e sossego/devassidão. São composições de um pianista que a toda a hora amestra e é amestrado pela sua orquestra. 

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Este é um exemplo magnânimo de que o clássico não é a típica musiquinha anacrónica para a terceira idade consumir. E comprovam-no os muitos jovens que ontem assistiram atónitos àquele casamento de sonoridades melodramáticas com outras mais amenas, que remetem para uma paleta de cores e tonalidades angelicais, onde não cabem os pretos e os cinzentos. Seja de uma forma ou de outra, prevalece a delicadeza com que Ludovico pressiona as teclas e nos passeia de uma ponta da escala à outra, ora privilegiando os agudos, ora os graves, ora o contraste entre ambos.

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Já num segundo momento, o compositor italiano percorreu álbuns como DivenireUna Mattina  Nightbook. Com o auditório principal do CCB completamente lotado, a familiaridade do público com temas como Fly, Divenire e Primavera criou um ambiente solene, para o qual contribuiu também o jogo minucioso de luzes: não era por acaso que, em certas músicas, nos deixavam às apalpadelas no escuro, quase que acicatando-nos a fechar os olhos e flutuar por cada nota. No entanto, tive mesmo que abrir bem os olhos para apreciar aquela técnica de pizzicato do cello. 

Aquele público faminto não iria perdoar Ludovico se este não regressasse ao palco, depois da primeira despedida. O próprio sentiu essa necessidade quando percebeu que o aplauso, que já durava há uns minutos, não iria terminar tão cedo. Com  o Padrão dos Descobrimentos mesmo ali ao lado, o final do concerto fez, por breves momentos, lembrar o adeus das naus: «Partimo-nos assim do santo templo/Que nas praias do mar está assentado (…)».

Texto: Rui Ramalho

Fotografias: Andreia Martins