Deolinda

A Deolinda arrisca nova sonoridade e ganha aposta

É com Algo Novo que a Deolinda se apresenta neste regresso aos álbuns. Este é o nome da contagiante primeira música de Mundo Pequenino, mas é também um reflexo das novas sonoridades que a banda traz consigo, de horizontes alargados depois das digressões que fez pelo mundo nos últimos anos.

Segue-se no álbum o brilhante jogo de palavras de Concordância, que enquadra a individualidade e o medo de compromisso numa lição gramatical, e que conta com um rufo a manter o ritmo do princípio ao fim. A bateria é, aliás, um elemento constante no novo disco da banda, que quer mostrar que pode ser «mais do que quatro pessoas a tocar» – quem o diz é o contrabaixista José Pedro Leitão, num webisódio lançado pela Deolinda.

Continuando o percurso por Mundo Pequenino, surgem Gente Torta e Há-de Passar, duas faixas bem ao jeito do que já se tinha visto nos dois primeiros álbuns. Já Medo de Mim faz ressurgir um lado mais sombrio, quer pelas notas graves do violoncelo quer pela abordagem acutilante ao preconceito da sociedade portuguesa. É um dos melhores momentos do disco, e enquanto a voz robusta de Ana Bacalhau entoa que «a lição de bem-estar é não incomodar quem veja incómodo em mim» é impossível não ficar com sede de mais músicas neste registo.

Deolinda Mundo Pequenino

Tal como a banda tinha feito anteriormente com Movimento Perpétuo Associativo, volta a abordar o tema da inércia bem típica dos portugueses: ora pede uma Musiquinha para abanar a anca e esquecer que «não há mais vibração», ora exige que a mudança Seja Agora (primeiro single). Pelo meio, a Deolinda dá um salto ao Semáforo da João XXI, mistura Proust e uns ténis Reebok ao som do piano de Joana Sá e entrega uma das faixas mais divertidas deste novo conjunto de originais. Pelo contrário, em Pois Foi está talvez a música menos inspirada. É rica em humor, sem dúvida, mas o refrão excessivamente repetitivo é meio caminho andado para que, alguns meses depois da edição deste Mundo Pequenino, seja esta a faixa que se passa à frente. Outro fado terão certamente Balanço e Doidos, a primeira uma canção de embalar e a segunda um hino ao prazer.

E finalmente chega Não Ouviste Nada, a chave de ouro com que a banda encerra o álbum. É um lindíssimo dueto de Ana Bacalhau com o convidado António Zambujo, de melodia tão triste como bela. Assim a Deolinda coroa este regresso ao estúdio, mostrando que o mundo está cada vez mais pequeno para uma banda que cresce e se afasta do fado e refrões orelhudos com que veio ao mundo, mas mesmo assim não perde a identidade que apaixona o povo português.

Nota final: 8/10

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