Jeremy Irons visita Lisboa e é o protagonista num dos primeiros filmes estrangeiros a ser maioritariamente gravado em terras lusas. Comboio Nocturno para Lisboa estreia nos cinemas e transporta o brilho da baixa pombalina para a grande tela, numa longa-metragem em que nada mais brilha sem ser a própria da cidade.

Um professor suíço de Berna vê a sua monótona e rotineira vida dar meia volta quando dá de caras com uma mulher portuguesa. Raimund Gregorious (Jeremy Irons) decide deixar tudo para trás e embarca numa aventura ao entrar num comboio com destino a Lisboa para descobrir um pouco da vida de um autor português que fazia parte da resistência ao regime de Salazar. O que Raimund vai encontrar na capital portuguesa vai ajudá-lo a perceber-se melhor e, ao reflectir a história de Amadeu (Jack Huston) nele mesmo, irá encontrar uma porta para o seu coração.

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O facto de termos uma grande produção a gravar na nossa capital e, além do mais, fazer quase toda uma película dedicada à nossa História e à da nossa cidade é mais do que razão para se ver este filme, pois acredito que raras são as vezes que nós, espectadores, temos a oportunidade de ver o Rossio ou o Chiado no grande ecrã, numa produção estrangeira. Por outro lado, infelizmente, não é simplesmente o cenário que faz um filme. Bille August veio carregado de boas intenções, numa tentativa de homenagem àqueles que lutaram contra o nosso regime opressor, mas entrega-nos um filme medíocre e demasiado forçado, feito um pouco às “três pancadas” e com um argumento verdadeiramente preguiçoso onde tudo é demasiado fácil, forçado e artificial.

É inevitável sair-se da sala de cinema desiludido. O filme tinha bastante potencial para ser algo de realmente bom. A história que move toda a acção, a de Amadeu, João Eça (Marco D’Almeida), Jorge (August Diehl) e Estefania (Mélanie Laurent), que juntos faziam parte da resistência e que se envolveram num emaranhado de conflitos amorosos, políticos e morais, era um excelente material para se escrever um bom argumento, mas a forma como foi explorada foi realmente má. Ela é-nos dada aos olhos da personagem de Jeremy Irons que vai deambulando por Lisboa à procura de pistas e de perspectivas diferentes das peripécias que aqueles desconhecidos tinham vivido. Raimund ia de casa em casa, rua em rua como num verdadeiro vídeo lamecha feito pelo Turismo de Portugal com uma voz off detestável que ia citando a obra que Amadeu tinha escrito e que acompanhou o professor durante todo o filme. Se por um lado queria que mostrassem Lisboa com todo o seu esplendor, por outro preferia que não o tivessem feito como se o filme se tratasse de um spot publicitário.

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Mas o que verdadeiramente irrita em Comboio Nocturno para Lisboa nem é o facto de ser uma história contada através de outra (a de Raimund), já que nesse aspecto o argumento não podia fugir ao romance publicado em 2004 por Pascal Mercier, o qual serviu de base para este filme, mas sim a facilidade com que toda a acção se desenrola. Jeremy Irons tropeça em pistas e consegue descodificar toda a história de Amadeu em fracções de segundos, fazendo com que o espectador nem se compenetre no filme, já que chega até nós como algo artificial e ridiculamente óbvio, tornando-se tão previsível que nem o ligeiro twist guardado para o final do filme nos satisfaz minimamente.

Outra questão bastante problemática é a da língua. É uma constante, quando se tratam de co-produções de vários países, ludibriar as diferenças linguísticas que existem no continente europeu ao formatar todo o nosso velho continente ao inglês americano e Comboio Nocturno para Lisboa não fugiu a essa regra. Mas nem é o facto de o filme ser falado em inglês que me faz torcer o nariz, mas sim a confusão de idiomas que o próprio filme vai criando no desenrolar da fita. Numa das primeiras cenas em Lisboa, ainda no Rossio, ouve-se muito o português a ecoar pelo sistema de som da sala de cinema, fazendo-nos acreditar que ouviremos bastante a nossa língua a partir desse momento. No entanto, de um momento para o outro parece que todos os lisboetas sabem, efectivamente, falar num perfeito inglês americano, desde a oftalmologista à senhora do quiosque de revistas. Achei um pouco de mau gosto não se incluir mais o nosso idioma na fita, poderiam até brincar com certas situações como um choque de línguas quando Raimund fosse abordar a mulher do quiosque, pois acredito que haja muitas por aí que não saibam falar num fluente inglês.

Em suma, Comboio Nocturno para Lisboa tem a honra de transportar uma das mais melancólicas e características cidades europeias para a grande tela, mas fá-lo de uma maneira medíocre que nos deixa a pensar se haverá uma próxima oportunidade, onde a nossa cidade possa brilhar mais.

5.5/10

Título Original: Night Train to Lisbon

Realizador: Bille August

Argumento: Greg Latter e Ulrich Herrmann baseado no romance de Pascal Mercier

Elenco: Jeremy Irons, Mélanie Laurent, Jack Huston

Género: Mistério, Romance, Thriller

Duração: 121 minutos

*Por opção do autor, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.