Depois de vários adiamentos, eis que chega finalmente às salas portuguesas o mais recente filme de Jacques Audiard, Ferrugem e Osso. E devo dizer que a expectativa em torno do filme é perfeitamente justificável, quer seja por já termos o nome de Audiard sob atenção ou pela nomeação para a Palma de Ouro na última edição de Cannes.

Stéphanie (Marion Cotillard), uma treinadora de baleias, conhece Ali (Matthias Schoenaerts), numa noite em que ele está a trabalhar como segurança. Após um acidente num dos espectáculos com as baleias, a vida de Stéphanie muda radicalmente quando as suas pernas são amputadas, e é a partir desse momento que começa a desenvolver uma relação com Ali.

Tendo como foco essa relação, interrogamo-nos logo sobre o porquê de ela lhe ter telefonado após o acidente. Porquê ele? Porquê naquela altura? Numa fuga à condescendência e pena com que os amigos a tratam após a amputação, Stéphanie encontra em Ali a falta de condescendência e de constrangimentos que lhe é reconfortante. No entanto, rapidamente percebemos o caminho que a relação toma, mesmo que Ali continue a procurar encontros sexuais casuais e Stéphanie continue a fingir que não se importa com isso – antes do beijo entre ambos, já sabíamos há muito que iria acontecer.

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Existem, aliás, muitas situações em que sabemos perfeitamente o que acontece a seguir – não é o argumento que nos deixa impressionados, é a maneira como este  está filmado e interpretado.

A interpretação de Cotillard é ligeiramente dominante, com a actriz a mostrar as suas capacidades de comunicação mesmo sem palavras (como numa das cenas da sua recuperação, quando usa os sinais que usava com as baleias) mas Schoenaerts também está à altura. Ali é egoísta e irresponsável, empurrado para uma paternidade não desejada. Se, por um lado, a empatia é criada pela relação com Stéphanie, por outro quase se desfaz pela forma como trata o filho – mudando essa forma num final quase necessário.

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No fundo, são duas personagens a recuperar de situações, cada um à sua maneira, numa relação que cada vez vai ficando mais fortalecida. São duas almas – e corpos – perturbados que se ajudam mutuamente (como na cena em que AliStéphanie  num instante e vence um combate quando parecia prestes a perder).

Em relação a Audiard, podemos dizer que merece o reconhecimento que tem obtido. Ao conjugar montagem com banda-sonora (começamos e acabamos com Bon Iver), fotografia e interpretação, o sucesso que o filme atinge resulta de uma combinação feliz de todos estes elementos, dominados com precisão, que dão origem a um bom produto final e a um filme que não é propriamente fácil de ver, pelo menos em toda a sua intensidade.

Ferrugem e Osso é então uma  poderosa história de amor mas não se fica por aí: é também uma história de violência, de destino e da força da natureza, bem realizada e liderada por dois actores que lhe conseguem dar consistência.

8.5/10

Ficha técnica:

Título original: De rouille et d’os

Realizador: Jacques Audiard

Argumento: Jacques Audiard e Thomas Bidegain, a partir de um conto de Craig Davidson

Elenco: Marion Cotillard, Matthias Schoenaerts, Céline Salette, Armand Verdure

Género: Drama, Romance

Duração: 120 minutos

*Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.