Soma um grupo de amigos com tempo livre, uma casa rústica emprestada, uma lareira disposta a combater um inverno chato e assar as melhores iguarias da região e multiplica por três dias recheados (ou barrados) de boas experiências: foi assim que a delegação do Espalha Factos viveu a 22.ª Festa do Queijo de Oliveira do Hospital.

Passar uma tarde numa feira onde se expõem, provam, provam (e voltam a provar) e negoceiam queijos soa-nos agradável (e as excursões de idosos de todo o país contentam-se), mas para uma radiografia a sério das potencialidades desta terra prometedora decidimos investir todo um fim-de-semana de exploração. E num pão com queijo haveria de caber mais qualquer coisa.

Espalha Factos em Oliveira do Hospital

Os cinco

Ficámos alojados na Fazenda da Ribeira, uma casa de férias perdida na aldeia de Cabeçadas (e por isso propensa ao barulho), perto de Oliveira do Hospital. Podemos passar a chamá-la mansão, para sermos fiéis às condições proporcionadas (sim, tivemos uma mesa de snooker só para nós). Não somos meninos da cidade que nunca foram buscar pinhas e lenha para fazer lume, ou que nunca passaram dois dias sem televisão mas com uma paisagem natural espetacular à volta. Mas a verdade é que, às tantas, já eram longínquas estas memórias. A casa foi gentilmente cedida pelo senhor Fernando Brito, e ficámos com muita vontade de voltar. Da próxima vez levamos as raquetas de badminton para aproveitar a oferta completa.

Fazenda da Ribeira

Fazenda da Ribeira

Na noite de sexta-feira só tivemos tempo para atestar o frigorífico, despachar o jantar e ir espalhar o caos para a vida noturna da cidade. Há um equívoco que infelizmente se preserva entre muita gente que não conhece as terras do interior do país: aqui existem muitos traços rústicos, obviamente, mas não ficou toda a gente suspensa no tempo a jogar à malha e ao dominó. A máquina dos finos estava particularmente inspirada e a certa altura demos por nós a sugerir ao vocalista da banda que animava o bar que cantasse Leandro ou Clemente – mas até aqui, com a cara de recriminação do senhor, se notou que há muitos aspetos que não mudam ao longo de toda a faixa lusa: não há como transpor a linha de Xutos & Pontapés e António Variações. Vá, foi só um teste à ousadia dos Paracetamole.

Os conhecimentos que travámos na tarde de sábado é que a distinguem das demais. Provámos tudo o que havia à disposição e investimos as nossas economias numa chouriça, duas farinheiras doces (ou alheiras?) e, claro está, num Queijo Serra Estrela DOP (pois claro!) escolhido depois de uma seleção (degustação) criteriosa e faustosa. O engraçado é que enquanto passeávamos os sacos e íamos sendo apresentados como os amigos da faculdade do Pedro Miguel Coelho (qual boa fama ele deve ter conseguido), conhecemos o senhor Fontes, que fez questão de nos deixar empanturrados. Ele era vinho, ele era pão, ele era queijo, ele era mais um copo de vinho e com ele sequiosos conselhos de vida. Há horas que passam a correr.

Maneira nada má de acabar uma tarde em que já tínhamos ido conhecer – infelizmente num dia de chuviscos – o pequeno pedaço de paraíso que é a praia fluvial de Avô e o avô do Pedro, não menos entusiasmante, uns quilómetros à frente, na aldeia dos abraços apertados. Plenamente lúcido e cativante do alto dos seus 84 anos, deixou-nos uma pequena comoção e conselhos um bocadinho mais sensatos do que aqueles que acompanhámos com bom tinto do Dão. Acontece e não há que esconder: grande momento de tensão entre o grupo de repórteres amadores que, apanhados desprevenidos, não tinham mais do que uma câmara de telemóvel para levar o cenário para casa.

Bifanas

O Hugo Silva frequenta o Mestrado em Práticas de Grelhados

Acrescentámos umas bifanas para temperar o serão e estava o churrasco feito. Sem um poder de compra por aí além, demos por nós na mais convincente sensação de luxo. Conquistados pela boca e quase a rebolar, ainda experimentámos uma das mais conhecidas discotecas da região centro. Temos pena que no Espíritos Club o Pedro não nos tenha apresentado o mesmo número de pessoas que na feira; nem nos importávamos de, desta vez, ser nós a pagar um copito.

Espíritos Club | OliveiraFotos

Espíritos Club | OliveiraFotos

Domingo de arrumações, para deixar o espaço como o encontrámos, almoço em família, dois dedos de conversa com a meritória vereadora da Câmara Municipal, Graça Silva, que muito trabalhou para erguer esta montra da sua terra, e viagem rápida para Lisboa. Algures na A1, fez-se história: vamos registar brevemente a patente de um novo produto, com Queijo Serra da Estrela e bolachas de chocolate (por favor esperem pelo registo da patente até falarem a toda a gente desta receita divinal).

Podíamos ter uma reportagem minimamente profissional desta Feira do Queijo, mas ninguém ia preparado para publicar rescaldo. Afinal, se estivéssemos em trabalho, a experiência era adulterada.

Nova receita

Falta encontrar nome para o pitéu

O melhor de dois mundos era um candidato a slogan para este artigo, mas para quê partir do princípio que as realidades urbanas e rurais não podem passar a vida a encontrar-se? (Ah, é óbvio que aquilo de na sexta-feira termos encontrado a melhor promoção de sempre de cerveja num supermercado em Coimbra, a caminho de Oliveira do Hospital, não podemos contar.)

Texto por Hugo Silva, Pedro Pereira e Simão Chambel