Terminou esta sexta-feira, dia oito, o Talkfest’13O fórum sobre o futuro dos festivais de música em Portugal acabou com chave de ouro, depois de um segundo dia a meio gás. As bandas Ciclo Preparatório Cavaliers of Fun abriram para os PAUS, que revolucionaram a Aula Magna com uma energia arrebatadora. O Talkfest’13 prometeu, mas não cumpriu.

Não há muito a dizer em relação a Ciclo Preparatório Cavaliers of Fun, a não ser que, tanto uma como outra, foram o “prato preparatório” para o remate de PAUS. Tanto uma como outra, são de facto escolhas que destoam de um cartaz composto por Capitão Fausto, Salto, DoismileoitoPontos Negros PAUS. Apesar de ainda nem terem sido editados, os Cavaliers of Fun procuraram imprimir genica na sua atuação, trazendo-nos um formato algo insólito, com um som obtido através de uma produção meio real, meio artificial.

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Muito Mais Gente foi o tema escolhido pelos PAUS para dar início ao concerto. Na verdade, os PAUS conseguiram pôr Muito Mais Gente em pé do que todas as bandas que passaram pelo Talkfest’13Aliás, não só o conseguiram, como o conseguiram sem sequer terem necessidade de o pedir. O som ensurdecedor daquela bateria siamesa revolucionou por completo a Aula Magna, onde poucos lugares havia por ocupar. Quim Albergaria Hélio Morais levam a lição muito bem estudada. Cada movimento é determinante para que se consiga uma perfeita sincronização entre ambos e uma simples pancada ao lado deita qualquer música por terra.

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Mas, aquilo que verdadeiramente sobressai na técnica destes dois bateristas vai muito para além da destreza e da velocidade de execução. PAUS são sinónimo de barulho, mas antónimo de ruído. Este barulho é fruto de uma preocupação obstinada com a dinâmica musical e o que o distingue do ruído é precisamente o facto de ser controlado e aplicado numa lógica de acentuação propositada. Aquilo que o torna suportável é que, ao ser utilizado com o intuito de robustecer a música, ele percorre todo o caminho desde o molto pianissimo até ao molto fortissimo. E para se conseguir isto é preciso excelência e, sobretudo, sensibilidade.

A acrescentar a tudo isso, os PAUS também beneficiam, e muito, da soberania das linhas de baixo, que norteiam praticamente toda a percussão. Aliás, é muitas vezes o baixista quem tem a tarefa de dar o trecho introdutório para cada música, algo que não é assim tão frequente em grande parte das bandas deste género, onde são principalmente as guitarras a desempenhar tal função. Depois de ter dado um verdadeiro abanão na multidão com Deixa-me ser, a banda deu liberdade ao público para invadir por completo o palco. Já completamente rodeados do calor humano e das muitas palmas que acompanhavam os bombos, tocaram Mudo e Surdo Pelo Pulso de forma entusiástica e bem disposta. Terminava assim o concerto e, com ele, esta edição do Talkfest.

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Quanto ao festival, há a lamentar a incapacidade clara para satisfazer as expetativas que alimentou. Com um cartaz, sem dúvida alguma, recheado de grandes bandas e com todo o fluxo publicitário que antecedeu o evento, acaba por ser dececionante o número de pessoas que passou pela Aula Magna durante estes três dias. Provavelmente, se o festival tivesse decorrido entre sexta-feira e domingo teria sido tudo bem diferente. Além disso, ficou muitas vezes patente que a grande maioria deste público não vinha preparado para uma dose tão grande de música portuguesa recente e pouco comercial. Pareceu, de facto, existir um desfasamento entre os objetivos que o festival se propunha atingir e o seu público-alvo, que nunca conseguiu apanhar o comboio. E é claro que quem vê cadeiras almofadadas se senta nelas.

(Fotografias cedidas pela organização)